Texto cita informações falsas e distorcidas ao orientar automedicação contra a Covid-19

Por Priscila Pacheco

6 de julho de 2020, 18h37


Um texto que circula nas redes sociais reúne informações falsas e distorcidas ao defender a automedicação contra a Covid-19 por meio de ivermectina, cloroquina, azitromicina, zinco e vitaminas C e D (veja aqui). Além dessas substâncias não terem eficácia comprovada contra a doença, autoridades sanitárias e especialistas alertam que o uso sem a devida prescrição médica pode causar prejuízos à saúde.

O que checamos:

1. Embora exista de fato, o estudo australiano citado no texto não atestou a eficácia da ivermectina em pacientes com Covid-19, pois não foram realizados testes em humanos, apenas em células in vitro (em laboratório). Hoje, o remédio é indicado apenas para tratar verminoses e piolhos;

2. Vitaminas C e D e zinco não são eficazes para prevenir ou tratar a infecção pelo novo coronavírus. Especialistas concordam que as substâncias podem gerar efeito positivo para a imunidade, mas alertam que isso não é suficiente para impedir o contágio ou curar doença. Na verdade, em alguns casos, o consumo pode causar problemas de saúde;

3. É falso que os estudos que descartaram o potencial da cloroquina contra a Covid-19 foram efetuados apenas com pacientes em estágio avançado da doença. Pesquisas feitas em diferentes momentos da doença não encontraram resultados positivos a partir do uso da droga;

4. A azitromicina tem sido usada em pacientes com Covid-19 que também desenvolvem infecções bacterianas. Estudos que avaliaram o uso da droga com a cloroquina não encontraram diferença significativa no risco de morte. Apesar de ter liberado a prescrição desta combinação, o Ministério da Saúde ressalta a falta de evidências sobre sua eficácia.

A peça de desinformação publicada no Facebook acumulava ao menos 3.043 compartilhamentos nesta segunda-feira (6). Ela foi marcada com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Ivermectina 6 mg

Estudos na Austrália detectaram que:

A Ivermectina impede que o vírus adentre ao núcleo celular, através da inibição da substância "Importina", pela qual todas as substâncias entram no núcleo. Isso impedirá o vírus também de entrar lá, que é onde ele consegue se multiplicar.

É imprescindível que o medicamento seja tomado nas fases iniciais, ou seja na fase 1, fase 2A e 2B. Não vai adiantar tomar na fase 3, que é naquela em que a pessoa já tem falta de ar e precisa do respirador.

Não tem contra indicações, a não ser: Para criança menores que 5 anos, mulheres grávidas e amamentando. Os idosos podem usar sem problemas.

Não é verdade que ivermectina, medicamento indicado contra infestações por parasitas, seja recomendada para tratar a Covid-19 na fase inicial, conforme afirma um texto que circula nas redes sociais. De fato, no dia 3 de abril, foi publicado um estudo na Austrália sobre o uso da substância para tratar a enfermidade, mas os experimentos iniciais foram feitos apenas em células in vitro (em laboratório), não em humanos.

O estudo liderado pelo instituto de biomedicina da Universidade de Monash verificou que, em até 48 horas, as células que receberam ivermectina tiveram uma redução de 99,8% do RNA viral, material genético responsável pela replicação do vírus. A hipótese dos pesquisadores é que houve uma inibição da importação de proteínas virais e, assim, foi possível reduzir o material genético do novo coronavírus (Sars-CoV-2).

A pesquisa também cita a possibilidade de a ivermectina ser aplicada no início da infecção para limitar a carga viral e evitar a progressão da Covid-19 para o estágio avançado. Entretanto, os pesquisadores ressaltam que, embora demonstre ser eficaz no ambiente de laboratório, a falta de testes e ensaios clínicos não permite afirmar que a droga apresenta os mesmos resultados positivos em humanos.

Em maio, a pesquisa passou para a fase pré-clínica, que vai analisar a dosagem exata e segura. “Se esses ensaios forem bem-sucedidos, eles passarão para ensaios clínicos em humanos, mas ainda não estamos nesse estágio”, respondeu a universidade, por e-mail.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), estudos sobre a ivermectina apresentam evidências insuficientes para concluir se ela traz benefício ou malefício para vítimas de Covid-19. Além disso, a entidade alerta que os resultados laboratoriais até agora mostraram que, para reduzir eficazmente a carga viral em células in vitro, a dosagem do medicamento foi muito maior à recomendada hoje para o tratamento de doenças parasitárias em humanos. A organização não incluiu o medicamento dos estudos co-patrocinados para tratamentos de Covid-19, o “Solidarity Trial” (Estudo de Solidariedade), apesar de a substância integrar ensaios clínicos randomizados de outras instituições.

A ivermectina também não faz parte da relação do Ministério da Saúde de substâncias permitidas para uso em pacientes com Covid-19. No Brasil, a droga é liberada para humanos e animais para tratar verminoses e infestação de ácaros e insetos, como o piolho, e exige receita médica. Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a versão veterinária pode ser nociva se consumida por humanos por ter uma maior concentração da substância.

Tampouco é verdade que não há contraindicações do remédio, exceto para grávidas e crianças com menos de cinco anos de idade, como afirma o texto checado. A ivermectina também não é indicada para pacientes com meningite ou outras doenças que atingem o sistema nervoso. No caso de gestantes, a recomendação depende do médico.

Aos Fatos já checou outras peças de desinformação que indicavam a ivermectina contra a Covid-19 (veja aqui e aqui).


FALSO

Vitamina D - que estimula o sistema imunológico, despertando duas substâncias. A Catalecidina que chama as células de defesa para o vírus, e a Beta Defensina que ataca diretamente o vírus. Também aumenta a concentração de anticorpos no corpo.

Zinco - encontrado na castanha de caju, na ostra e em suplementos feitos em farmácia de manipulação. Dificulta a reprodução do vírus.

Vitamina C - 2g por dia para aumentar as defesas.

Não há evidências científicas de que doses de vitamina C, vitamina D e zinco possam prevenir ou tratar infecções pelo novo coronavírus, segundo o Ministério da Saúde, pesquisas e especialistas ouvidos por Aos Fatos.

Em maio, o Ministério da Saúde publicou uma revisão de estudos sobre o uso da vitamina D para prevenir ou tratar a Covid-19 em que a conclusão aponta para a falta de evidências que comprovem a eficácia da substância.

De acordo com o virologista Flávio da Fonseca, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), vitaminas e minerais são componentes importantes para o sistema imunológico, mas não possuem uma ação direta contra o Sars-CoV-2.

“Se você estiver com bons níveis de vitamina D, de zinco, o seu sistema imunológico é naturalmente mais fortalecido e mais capaz de combater qualquer infecção. Seja uma gripe, um resfriado, uma micose ou Covid-19”, explica.

Entretanto, ele alerta que isso não quer dizer que pessoas saudáveis não teriam risco de serem contaminadas. Além disso, o uso de suplementos polivitamínicos não é necessário para equilibrar as substâncias no organismo, basta manter uma alimentação balanceada.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a vitamina D é importante para a regulação do cálcio no organismo, mas o uso em exagero pode causar toxicidade e hipercalcemia (excesso de cálcio que pode gerar perda da função renal e calculose renal). Conclusão similar teve um estudo publicado na publicação científica The Bmj.

Zinco. O mesmo ocorre com o zinco, que além de agir no sistema imunológico, também integra moléculas da musculatura e do sistema cardiovascular. O mineral não tem o papel de dificultar a reprodução de vírus, como afirma o texto. Inclusive, o consumo exagerado pode aumentar o risco de deficiência de cobre.

Vitamina C. A substância desempenha ação antioxidante, que combate radicais livres - moléculas que podem danificar células sadias. No entanto, o consumo regular não basta para conter infecções, seja um resfriado comum ou a Covid-19. A suplementação também não deve ser feita sem a recomendação de um profissional da saúde que identifique eventuais deficiências diagnosticadas por exame.

Apesar da baixa toxicidade mesmo em altas doses, a substância tomada em exagero pode ter efeitos colaterais como, por exemplo, diarreia, náusea e cólicas abdominais caso não seja absorvida pelo trato gastrointestinal.

Aos Fatos já checou outras peças de desinformação que recomendavam a vitamina C para prevenir contra a Covid-19 como, por exemplo, pelo consumo de água quente com limão e de chá de erva-doce.


FALSO

E a já conhecida Cloroquina? Os estudos que apontaram sua ineficácia foram feitos com pacientes na fase 3 da doença. Só que é a fase em que não adianta mais usar a Cloroquina. Porém, se for usada nas fases iniciais da doença, somente aí é que esse medicamento produzirá êxito.

Não há qualquer comprovação da eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina para tratar ou prevenir Covid-19. Os medicamentos, inclusive, não fazem mais parte do grupo de estudos da OMS desde o dia 17 de junho. No mesmo mês, a FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos) revogou a autorização para o uso emergencial das drogas para tratar a infecção.

Também é enganosa a informação de que os estudos disponíveis hoje foram feitos somente na fase mais grave da doença. Exemplo disso é um estudo francês publicado em maio, ainda em formato preprint (não revisado por pares), que avaliou o potencial da hidroxicloroquina em células in vitro e macacos infectados por Sars-CoV-2 em diferentes fases da doença. Os testes, que consideraram a hidroxicloroquina sozinha e associada ao antibiótico azitromicina, não encontraram efeitos significativos nos níveis da carga viral em nenhum estágio da infecção.

Em um parecer científico publicado no mês de maio, a Sociedade Brasileira de Imunologia cita um estudo randomizado que avaliou 150 pacientes com Covid-19 moderada e que também não encontrou efeitos benéficos propiciados pela hidroxicloroquina.

“Não houve diferença quanto à evolução dos pacientes que usaram ou não esse fármaco, mas vários efeitos adversos relacionados ao uso de hidroxicloroquina foram relatados nos pacientes em uso desse medicamento”, destaca um trecho do documento.


FALSO

Antibiótico para combater a replicação do Vírus - Azitromicina

Por fim, antibióticos, caso da azitromicina, são medicamentos eficazes contra infecções por bactérias, não vírus. O infectologista Gerson Salvador explica que a azitromicina pode ser prescrita quando há uma infecção bacteriana associada à Covid-19: “nos casos graves de Covid-19, eventualmente, pode ter uma pneumonia bacteriana, além da pneumonia viral. A partir da avaliação clínica e radiológica pode-se prescrever a azitromicina e até outros antibióticos para tratar a pneumonia bacteriana”.

A azitromicina associada ao difosfato de cloroquina ou sulfato de hidroxicloroquina faz parte do protocolo recomendado hoje pelo Ministério da Saúde para uso precoce, apesar de os resultados das pesquisas ainda serem preliminares e não apontarem para a eficácia das drogas. Os próprios boletins diários de evidências científicas publicados pela pasta alertam para a falta de evidências que comprovem a eficácia desta combinação contra a Covid-19.

A pneumologista e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Ilma Paschoal afirma que são necessários estudos mais completos até que se possa atestar se é eficaz esta combinação contra a Covid-19. Ela ressalta ainda que é normal, em situações graves de doenças infecciosas, fazer uma “varredura” das drogas existentes para se descobrir algum efeito contra a infecção.

“Esse processo, se mostrar resultados, é bastante interessante pois as drogas já estão em uso e o seu perfil de segurança já é conhecido - efeitos colaterais, ou seja, a relação custo e benefício”, explica. O processo é denominado em inglês repurposing ou redirecionamento da droga.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)
2. Revista Elsevier
3. Universidade de Monash (Fontes 1 e 2)
4. OMS (Fontes 1 e 2)
5. Ministério da Saúde (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)
6. Anvisa
7. Consulta remédios
8. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia
9. Fiocruz (Fontes 1 e 2)
10. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
11. The Bmj (Fontes 1 e 2)
12. Associação Brasileira de Nutrologia
13. Cochrane
14. National Institutes of Health
15. The New England Journal of Medicine
16. Research Square
17. Sociedade Brasileira de Imunologia
18. Correio do Povo
19. UOL (Fontes 1 e 2)
20. G1
21. Deutsche Welle


Matéria alterada no dia 13 de julho às 13h50. Diferentemente do que afirmava a primeira checagem, a ivermectina nunca foi incluída no Solidarity Trial (Estudo de Solidariedade) conduzido pela OMS. Essa correção não altera o selo da checagem.


De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.