Com 700 mil mortes, a pandemia de Covid-19 expôs os danos concretos causados pelo negacionismo científico no Brasil. O terceiro episódio da série documental Ctrl+Fake, “O vírus e o poder”, mostra como essa postura foi alimentada e transformada em política institucional pelo governo Bolsonaro.
O episódio mapeia as principais frentes da desinformação oficial: as declarações públicas que minimizavam a gravidade da doença, a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada, a manipulação de dados epidemiológicos e o conflito com estados, municípios e o STF (Supremo Tribunal Federal). Ao longo da pandemia, Aos Fatos catalogou ao menos 2.600 declarações enganosas do então presidente Bolsonaro sobre a doença.
Tai Nalon, diretora executiva do Aos Fatos e apresentadora da série documental, mostra ainda como o isolamento social acelerou a digitalização da sociedade brasileira e acabou ampliando o alcance da desinformação promovida por grupos antes marginalizados, como a comunidade antivacina.
Esse ecossistema também deu destaque a médicos que promoviam tratamentos sem respaldo científico e a sites que reproduziam mentiras sobre a doença para lucrar com publicidade.
Confira a transcrição completa do episódio, feita com o Escriba:
Introdução
Tedros Adhanom:
“Fizemos, portanto, a avaliação de que a Covid-19 pode ser caracterizada como uma pandemia.”
Tai Nalon:
Esse é o diretor da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, em 11 de março de 2020.
Jair Bolsonaro:
“Depois de uma facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar, não. Tá ok?”
Tai Nalon:
E esse era o presidente do Brasil em 20 de março do mesmo ano.
No Brasil, em mais ou menos dois anos, o Ministério da Saúde registrou quase 700 mil mortes devido à Covid-19. Esse quadro não teria sido tão grave se as políticas públicas aplicadas pelo governo na maior emergência sanitária desse século tivessem algum lastro nas evidências. Ao contrário, hospitais entraram em colapso. Faltaram leitos, recursos e oxigênio.
Relato divulgado nas redes:
“Nós estamos numa situação deplorável. Simplesmente acabou o oxigênio de toda uma unidade de saúde. Não tem oxigênio, é muita gente morrendo.”
Tai Nalon:
Cemitérios não tinham espaço e nem capacidade para receber todas as vítimas.
Jornal da Cultura:
“Exumações sendo feitas para liberar novas covas. Outras sendo preenchidas com corpos de vítimas que não resistiram à Covid-19.”
Jair Bolsonaro:
“Tem que voltar à normalidade.”
Jornalista:
“Presidente, já foram mais de 300 mortes. Quantas mortes o senhor acha que é aceitável?”
Jair Bolsonaro:
“Oh, cara, que fala de… Eu não sou coveiro, tá? Eu não sou coveiro.”
Tai Nalon:
O comportamento de Jair Bolsonaro e dos demais integrantes do seu governo não foi uma surpresa para quem já acompanhava a pauta anticiência.
Desvalorizar a ciência com ataques às universidades federais, por exemplo, foi um projeto que que transitou pelo bolsonarismo da campanha de 2018 até seu primeiro ano de governo, em 2019.
Jair Bolsonaro
“A maioria ali é militante, não tem nada na cabeça. Perguntar 7 vezes 8 para ele, ele não sabe, perguntar fórmula da água, ele não sabe, não sabe nada. São os idiotas úteis, os imbecis que estão sendo usados como massa de manobra.”
Tai Nalon:
Só que, na pandemia, as consequências do negacionismo científico tomaram proporções concretas. De início, a promessa era que a pandemia ia durar pouco louco e que, por isso, o isolamento era inútil, o que já se provava falso desde o começo.
Jair Bolsonaro:
“Tá sendo superdimensionado o poder destruidor desse vírus.”
“No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala, ou propaga, pro mundo todo.”
Tai Nalon:
Depois, disseram que o isolamento já tinha durado tempo demais e que era preciso retomar a normalidade.
Jair Bolsonaro:
“Lamento os mortos, lamento. Todos nós vamos morrer um dia. Aqui, todo mundo vai morrer. Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas, pô!”
Tai Nalon:
Na ficção criada pelo bolsonarismo para negar a gravidade da maior crise sanitária do século 21, a ciência foi preterida e a desinformação foi abraçada como estratégia institucional.
O conspiracionismo inerente às alas mais fanáticas da ultradireita pegou emprestada autoridade da Presidência da República para descredibilizar as instituições democráticas.
Jair Bolsonaro:
“Aqui é proibido máscara!”
Sanfoneiros:
“E o mastro do navio corre pro Pajeú, o rio Pajeú é despejado no São Francisco…”
Tai Nalon:
Bolsonaro e seus aliados esconderam dados públicos, promoveram falsas curas e tornaram a pandemia de Covid um grande mercado de mentiras. Estavam à venda desde a cloroquina até a mais básica noção do que é a democracia.
Ao constranger a verdade, Bolsonaro jogou parte da população contra governadores e prefeitos, aumentando o fosso entre o povo e o Estado.
Jair Bolsonaro:
“Como está sendo conduzida essa questão, me parece que é melhor se consultar com jornalistas do que com médicos.”
Tai Nalon:
A má condução da crise sanitária colocou o país em permanente crise política. E, com ela, Bolsonaro deixou antigos aliados na pista.
Jair Bolsonaro:
“Eu duvido que um cara desse, um governador desse, um Doria da Vida, um Moisés, vai no meio do povo. Não vai.”
Apoiadores:
“Vai nada.”
Jair Bolsonaro:
“Algumas outras autoridades que me criticam aí, vai lá conversar com o povo. A justificativa é ‘eu não vou, porque eu posso pegar’. Tá com medinho de pegar vírus, é? Ah, tá de brincadeira, pô!”
Tai Nalon:
Paralelamente, o isolamento social da pandemia, que definiu 2020 e 2021, acelerou processos de transformação digital, sobretudo na área da informação.
O sistema bancário passou por acelerada digitalização. Dessa forma, monetizar conteúdo ficou ainda mais fácil.
A necessidade de se comunicar à distância no trabalho e no lazer borrou as margens entre as telas e a realidade.
O aumento das desigualdades, impulsionado pela pandemia, acirrou ânimos e amplificou ressentimentos, sentimentos que as plataformas digitais sabem explorar bem.
Em março de 2020, o secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou atenção para um termo não muito novo, mas que resumia bem o que estava por vir. Ali, ele disse que, além da pandemia, as Nações Unidas também viam a “infodemia de desinformação” como inimiga.
Para ele, era necessário promover os fatos e a ciência, a esperança e a solidariedade contra o desespero e a divisão — bem diferente do que vimos por aqui.
Este é o Ctrl+Fake, uma série de cinco episódios sobre a ascensão da desinformação digital como estratégia de poder na última década.
Capítulo 1: O discurso anticiência
Jair Bolsonaro:
“Tudo agora é pandemia. Tem que acabar com esse negócio, pô!”
Tai Nalon:
O discurso anticiência sempre foi um dos fios condutores da narrativa bolsonarista. Durante a campanha, Bolsonaro chegou a anunciar, por exemplo, que sairia do Acordo de Paris e não cumpriria metas de redução de emissões de gases do efeito estufa. Mas voltou atrás, por pressão internacional.
Isso, no entanto, não impediu Bolsonaro de adotar uma política predatória em relação são as instituições que tinham a ciência como agenda central.
Jair Bolsonaro:
“Em primeiro lugar, meu governo tem o compromisso solene com a preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável em benefício do Brasil e do mundo.”
Tai Nalon:
Esse foi o primeiro discurso do ex-presidente na Assembleia Geral da ONU em 2019. Já naquela época, essa fala era claramente falsa. Só em 2019, por exemplo, o governo cortou 95% das verbas para os órgãos de defesa do meio ambiente.
Para lidar com o aumento do desmatamento, o presidente exonerou o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão.
Bolsonaro e seu então ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, consideravam que as críticas à política ambiental do governo eram fruto de uma conspiração de ONGs internacionais. As queimadas na Amazônia e no Pantanal eram parte desse delírio.
Jornal da Cultura:
“O fogo está sem controle. Animais que morreram por intoxicação ou queimadura.”
Ricardo Salles:
“Acabou sendo capturado, em alguns casos, pela esquerda, mas o tema do meio ambiente é de todo mundo.”
Tai Nalon:
Eu poderia listar várias outras ações do governo que claramente afrontavam a ciência mesmo antes da Covid-19 surgir. Mas queria destacar aqui que a semente da dúvida, a gênese do caos da pandemia, se pautava principalmente nesse pensamento conspiracionista de que há algo oculto e misterioso ocorrendo nos bastidores. O coronavírus é algo assim.
Lembra como lá atrás, no primeiro episódio, a gente falou da simplificação das interfaces e de como as plataformas estimulam a busca imediata por recompensas? A partir de 2020, uma estratégia intimamente ligada à demanda por respostas simples, que muitas vezes levavam ao engano, definiria a atuação do governo na pandemia.
Como Bolsonaro e o resto do mundo inteiro não tinham respostas seguras e imediatas para estancar a pandemia, ele e seus aliados usaram do medo e das incertezas como combustível para alimentar uma realidade paralela.
Jair Bolsonaro:
“O vírus chegou, está sendo enfrentado por nós e brevemente passará. Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos. O sustento das famílias deve ser preservado.”
Tai Nalon:
Em 24 de março, Bolsonaro fez um pronunciamento em que inaugurou uma série de mentiras que seriam repetidas durante toda a crise sanitária.
Jair Bolsonaro:
“Raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine. No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta…”
Tai Nalon:
Ao longo do período em que esteve à frente do país, o presidente disseminou ao menos 2.600 declarações enganosas para negar a gravidade da doença.
Jair Bolsonaro:
“Uma gripezinha ou resfriadinho.”
“Para mais de 60% dos brasileiros, não será uma gripezinha, não será nada, que nem tomarão conhecimento.”
“Ninguém contesta que toda a nação vai ficar livre de pandemia depois que 70% for infectado e conseguir os anticorpos.”
Tai Nalon:
Mas se essa estratégia colou, foi por bem pouco tempo.
Essa postura de confronto em relação a antigos aliados políticos, que passaram a ver no negacionismo da pandemia um certo limite moral, se não mera conveniência política, custou o apoio do ministro da Justiça, Sérgio Moro.
Moro resolveu sair do governo Bolsonaro alegando que o ex-presidente tentara interferir na Polícia Federal. Ele citou como prova a gravação de uma reunião ministerial feita em 22 de abril de 2020, cujo conteúdo foi tornado público com autorização do Supremo.
Jair Bolsonaro:
“Vou interferir! Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte, é uma verdade!”
Tai Nalon:
Só que o vídeo dessa reunião mostrava muito mais do que intriga política.
Capítulo 2: Reunião de 22 de Abril
Ricardo Salles:
“Então, para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De Iphan, de Ministério da Agricultura, de Ministério do Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo…”
Tai Nalon:
Esse é Ricardo Salles, então ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro. Essa fala deixa claro como o governo se utilizava da pandemia como uma ferramenta ilusionista.
Jair Bolsonaro:
“Ontem eu liguei pro diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal. Chegou ao meu conhecimento uma nota, que era dele, sobre sobre o passamento de um patrulheiro. E ele enfatizou que era Covid-19. Eu liguei para ele. Por favor, o que mais? Ele era obeso, era isso, era aquilo… Bem, tinha comorbidades. Mas ali na nota dele, só saiu Codib-19 (sic). Então, vamos alertar a quem é de direito, ao respectivo ministério, pode botar Covid-19, mas bota também que tinha fibrose, um montão de coisa.”
Tai Nalon:
O governo Bolsonaro trabalhou para manipular os números de pessoas que contraíram Covid e morreram. O impacto mais perceptível dessa ação era borrar a compreensão sobre o que estava de fato acontecendo. E porque desinformação não é um problema isolado, mas uma estratégia para capturar o poder, os ataques às informações confiáveis foram se tornando mais sofisticados.
Assim como aconteceu nas eleições de 2018, as narrativas conspiracionistas passaram a criar expressões para sintetizar um conjunto de teorias mentirosas sobre o coronavírus, sua origem, seu potencial letal, sua cura e suas consequências de longo prazo.
O governo e seus simpatizantes começaram a popularizar expressões como “vírus chinês”, para dar a entender que a China criou o vírus propositalmente como arma química, o que nunca foi provado.
“Tratamento precoce”, para vender à população medidas profiláticas sem amparo na realidade, beneficiando empresários.
“Imunidade de rebanho”, para convencer a população a sair às ruas e manter uma vida normal, contra todas as evidências científicas e alertas sobre o aumento das letalidades ao adotar essa estratégia.
O relatório da CPI da Pandemia sintetiza alguma dessas iniciativas. Segundo o documento:
Narração do documento:
“A estratégia pela busca da imunidade de rebanho por infecção levou o presidente da República a resistir fortemente à implementação de medidas não farmacológicas, tais como o uso de máscara e o distanciamento social, bem como a não promover a celeridade necessária na aquisição de vacinas.
Levou o chefe do Poder Executivo Federal a dar ênfase ao uso de medicamentos comprovadamente ineficazes no combate da Covid-19. Tudo isso colaborou para a propagação do vírus da Covid-19.”
Tai Nalon:
Foi efetivamente instalado um gabinete paralelo no governo que, à parte do Ministério da Saúde, fornecia à Presidência da República uma versão diferente das evidências científicas.
Em depoimento à CPI da Pandemia, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demitido do cargo por não acatar as reivindicações anticiência do governo, disse o seguinte:
Luiz Henrique Mandetta:
“É muito difícil você entender sobre qual teoria, né?
A impressão que eu tenho é que havia algumas teorias que eram mais simpáticas. Uma delas era: ‘olha, o brasileiro vai se contaminar, ele mora em aglomerados, ele mora sem esgoto, então vai se atingir o coeficiente de proteção de rebanho’. Eu acho que esse foi um dos, talvez, que possam ter sido essa inspiração dessas pessoas, né, para levar até o presidente. Eu acho que esse era um argumento que eles poderiam colocar nesses termos.
O objetivo do Ministério da Saúde era dar uma informação, o presidente dava outra informação.”
Tai Nalon:
E quem não acatasse a divulgação de informações sem base nos fatos que se retirasse.
Jair Bolsonaro:
“Aqui eu já falei: perde o Ministério quem for elogiado pela Folha ou pelo Globo, pelo Antagonista.”
Tai Nalon:
Mas a estratégia mentirosa de Bolsonaro tinha outros flancos. Por exemplo, uma dificuldade prática que o Ministério da Saúde enfrentou no início da pandemia por causa do negacionismo era ter interlocução com o governo chinês. Porque se um vírus chinês era parte de uma estratégia conspiracionista; se o chanceler brasileiro não tinha diálogo com Pequim; se as autoridades do governo não podiam aparecer em fotos com representantes da China, então, como o governo poderia comprar respiradores do seu maior parceiro comercial para equipar hospitais lotados e deficientes de material?
Isso do lado de fora. Dentro do Brasil, Bolsonaro viu como afronta o Supremo reconhecer que estados e municípios tinham autonomia para adotar medidas contra a proliferação do vírus.
Jair Bolsonaro:
“O que esses caras fizeram com o vírus, esse bosta desse governador de São Paulo, esse estrume do Rio de Janeiro, entre outros, é exatamente isso. Aproveitaram o vírus… tá um bosta de um prefeito lá de Manaus agora abrindo covas coletivas. Um bosta.”
Tai Nalon:
Sem estratégia discursiva clara no Palácio do Planalto, o governo federal não coordenava esforços com estados e municípios. Pelo contrário, passou a adotar comportamento hostil.
No caso do Supremo, a determinação foi um embrião de um antagonismo radical sobre o qual vamos falar nos próximos capítulos.
Quanto aos prefeitos e governadores, o tratamento era mais ou menos esse:
João Doria:
“Quando você tem uma informação que vem do próprio governo federal do seu país, que vem do Ministério da Saúde do seu país, que tem como porta-voz um presidente da República do seu país, que agrega, infelizmente, inclusive alguns profissionais de saúde do seu país, fica claro que esse é um movimento que ganha uma força de aceitação por uma parcela da população, sobretudo a parcela mais humilde, mais modesta, mas não apenas essa, que, fiado na figura de um presidente da república, de um ministro da Saúde, de outras figuras ministeriais e ainda, ao lado de alguns representantes da própria medicina, essas pessoas entenderam que não preciso tomar vacina, não preciso de isolamento, não preciso de máscaras e não preciso de vacina.”
Tai Nalon:
E aí o que se tem é que, se autoridades públicas do país divergem publicamente por temas básicos, em quem acreditar? Certamente não em quem vende um remédio para vermes de baixo custo de fabricação, cujo preço convenientemente viria a disparar durante a pandemia.
Capítulo 3: A Cloroquina
Jair Bolsonaro:
“Estou tomando aqui a terceira dose da hidroxocloroquina (sic).”
Tai Nalon:
O exemplo mais emblemático desse tipo de mentira oficial com verniz de política pública foi a adoção da cloroquina pelo governo federal como tábua de salvação contra a covid. Depois de um pronunciamento de Bolsonaro em 24 de março, o número de menções à droga disparou nas redes sociais.
Jair Bolsonaro:
“O FDA americano e o hospital Albert Einstein, em São Paulo, buscam a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento do Covid-19. Nosso governo tem recebido notícias positivas sobre esse remédio fabricado no Brasil.”
Tai Nalon:
De acordo com o levantamento do Radar Aos Fatos, no dia seguinte ao discurso, a proporção de citações ao remédio entre os 50 conteúdos mais compartilhados no Twitter passou de 8% a 45%. Isso amplificou também a desinformação sobre o tema.
Apesar de ter Jair Bolsonaro como seu maior representante, a propaganda em favor do uso da cloroquina foi inaugurada por Donald Trump dias após a OMS declarar a pandemia.
Donald Trump:
“Muitas coisas boas têm saído sobre a hidroxicloroquina, muitas coisas boas têm saído. E você ficaria surpreso com quantas pessoas estão tomando, especialmente os trabalhadores da linha de frente, antes que você se contamine.”
Tai Nalon:
Em posts publicados nas redes no fim de março, o presidente dos Estados Unidos pediu que a FDA, órgão regulatório do país, acelerasse a aprovação do medicamento contra a doença. Naquela época, os cientistas avaliavam a eficácia desse e de muitos outros remédios contra o vírus.
Com o passar dos meses, foram se somando à cloroquina outros medicamentos sem eficácia contra a doença: o antiparasitário ivermectina, o antibiótico azitromicina e suplementos como a vitamina D.
Na narrativa enganosa criada pelo governo, o chamado "kit Covid" deveria ser aplicado logo no início dos sintomas. Daí o nome “tratamento precoce”.
Isso se desdobrou em políticas públicas implementadas no período mais grave do surto no país, como o TrateCov. O aplicativo, que indicava a mesma lista de medicamentos sem eficácia a qualquer pessoa que apresentasse sintomas da doença, chegou a ser promovido em Manaus durante um pico de casos que deixou os hospitais sem oxigênio.
Meses depois, quando as pesquisas com essas drogas se mostraram infrutíferas, Trump decidiu abandonar o assunto. Bolsonaro insistiu. Levou à Assembleia Geral da ONU a fraude do “kit Covid”.
Jair Bolsonaro:
“(...) Estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença.”
Tai Nalon:
Ao contrair Covid em julho de 2020, o presidente deu um verniz mais pessoal à desinformação ao dizer que havia se curado tomando o remédio.
Jair Bolsonaro:
“Aconteceu comigo. Doze horas depois que eu tomei a primeira dose da hidroxicloroquina, que são meia dúzia de doses, eu já estava 100% bom. E deu positivo. Então, deu tão certo que eu sou uma prova viva disso.”
Tai Nalon:
Até o fim do seu mandato, essa declaração foi repetida 95 vezes.
Capítulo 4: A Instrumentalização das Redes
Tai Nalon:
No livro “A Máquina do Caos”, de 2023, o repórter Max Fischer explica como estrategistas políticos manipulam a desordem e as emoções nas redes para influenciar estruturas de poder.
Segundo ele, o uso geral da internet aumentou 40% durante a pandemia. Essa intensificação do uso das plataformas criou o terreno perfeito para que teorias da conspiração proferidas sobretudo por aqueles que têm mais influência nas redes, como certos presidentes de certas repúblicas, acirrassem a disputa política e impulsionassem o discurso anticiência.
Mas, antes de tudo, precisamos voltar ao presencial — digo, à vida pré-pandemia e a como as redes sociais funcionavam até então.
No Brasil, em 2019, antes da pandemia, 71% dos domicílios tinham acesso à internet. Em 2020, já eram 83%.
O home office, as vendas online, o ensino remoto e as teleconsultas foram impulsionadores de uma cultura que, se antes já era muito amparada nas empresas de tecnologia, agora haviam virado a própria internet.
Por exemplo, pequenos negócios de bairro que prosperavam apenas com o movimento nas ruas, passaram a precisar de aplicativos para se comunicar com a clientela e vender. Pessoas desempregadas devido à paralisação de setores da indústria passaram a fazer bicos a partir de aplicativos.
Num momento em que o acesso ao crédito se tornava essencial, os bancos precisavam arranjar meios de alcançar clientes com mais segurança por meio de aplicativos mais sofisticados. Isso significa que o ambiente onde as decisões do mundo estavam sendo tomadas eram em plataformas de videoconferência das gigantes da tecnologia.
As vitrines das lojas estavam nos aplicativos dessas megaempresas. As vendas também.
O cotidiano passou a ser mediado por ferramentas de algumas poucas marcas. Portanto, não seria exagero dizer que o acesso à informação e o pagamento por ela foi legado a essas plataformas também.
O Aos Fatos mostrou, em 2020, que sete sites famosos por compartilhar desinformação sobre a pandemia lucravam com o serviço de publicidade programática do Google. Juntos, esses sites acumularam 44,9 milhões de acessos em abril daquele ano, início da crise sanitária.
A monetização de conteúdos enganosos é contra as regras da ferramenta de propaganda. Esse ecossistema de sites ganhava dinheiro reverberando muito do discurso do governo Bolsonaro de que o distanciamento social não funcionava, que a cloroquina era um medicamento eficaz contra a Covid, além de manipular números de casos e mortes em decorrência da doença.
Jair Bolsonaro:
“Nós somos os grandes matadores, né? De inocentes…”
Tai Nalon:
E assim, com mais gente com acesso a ferramentas de monetização mais sofisticadas em plataformas como YouTube e Instagram, a ideia de que você poderia se tornar sua própria marca nas horas vagas pegou.
Na verdade, foi o que alguns médicos fizeram durante a pandemia.
Lucy Kerr:
“A ivermectina é para o tratamento do Covid…”
Tai Nalon:
Um levantamento do Radar Aos Fatos mostrou que vídeos de médicos que desinformavam sobre a Covid já tinham sido vistos ao menos 30 milhões de vezes no YouTube em 2021.
Agora, para entender de fato o que estava acontecendo aqui no Brasil, a gente precisa olhar de novo para o que ocorria nos Estados Unidos na mesma época.
Em maio de 2020, um vídeo chamado “Plandemic” viralizou primeiramente no Facebook e no YouTube e depois ganhou as demais redes. Era um autointitulado documentário que, além de propagar aquelas mentiras sobre a cloroquina e o uso de máscaras que vínhamos ouvindo, associava a pandemia a uma conspiração de Estado para enriquecer fabricantes de vacinas com contratos milionários.
No Brasil, esse vídeo ganhou legendas e foi assistido quase 1 milhão de vezes em pouco mais de duas semanas. Em menos de um mês, foi banido das redes sociais. A semente, no entanto, havia sido plantada. O movimento antivacina, que não é novo, foi reorganizado a partir da pandemia e encontrou simpatia na extrema direita.
Ao aliar o uso de imunizantes a uma falsa ideia de periculosidade e a um grande esquema global de corrupção, a conspiração antivacina reforçava as convicções de quem já se ressentia com as instituições, o Estado, o governo, a política e seus representantes.
O jornalista Max Fischer, em “A Máquina do Caos”, conta que a conspiração antivacina ganhou força entre grupos que defendiam medicina alternativa, influenciadores de bem-estar, páginas esotéricas e comunidades de qualquer causa social ou cultural em que aquele discurso ressoava.
Só que, mais do que isso, o discurso antivacina baseado em uma narrativa contra o Estado era o que persuadia as alas mais radicais da direita. Ressoava como um chamado às armas por ser entrelaçado a um sentimento de ameaça à identidade coletiva.
A suspensão desse vídeo nas plataformas foi paradigmática. A partir dali, alimentou-se ainda mais um certo ressentimento de que havia uma perseguição contra quem se colocasse contra as vacinas. E, por consequência, por quem manifestava um sentimento contra o sistema. No Brasil, essas teorias da conspiração adicionaram combustível à sensação de que havia algo ou alguém com uma agenda paralela contra a extrema direita.
Jair Bolsonaro:
“Assino essa portaria hoje porque eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta. Por que eu tô armando o povo. Quem não aceitar as minhas bandeiras, Damares, família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado, quem não aceita isso está no governo errado.”
Tai Nalon:
Em março de 2020, o Twitter proativamente apagou publicações de Bolsonaro que o mostravam em aglomerações e estimulavam que as pessoas continuassem levando uma vida normal. A justificativa era que os tuítes violavam orientações de proteção à saúde pública. Essa prática se tornou recorrente.
Veja, o posicionamento oficial do presidente da República e do seu governo era contra a vacinação. Isso gerou consequências práticas, como o atraso na compra das vacinas e a imunização tardia da população.
No entanto, ao se recusar se vacinar ou mostrar qualquer tipo de comprovante de imunização, Bolsonaro assumiu a causa antivacina como uma bandeira pessoal.
Jair Bolsonaro:
“‘Eu estou vacinado’, entre aspas. Muita gente que… todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina. Então, quem contraiu o vírus, não se discute: esse está imunizado.”
Tai Nalon:
Mais do que isso, pôr em dúvida a efetividade da vacina e pregar o fim do distanciamento era uma estratégia que só gerava ganhos. Se a desinformação se espraiasse, ele ganhava mais apoiadores que se identificavam com seu discurso conspiracionista antissistema. Se fosse vetada pelas plataformas, ele podia alegar que seu discurso era tão transgressor que causava fúria do sistema em si.
O que aconteceu foi que as plataformas seguiram deletando desinformação sem regras claras de remoção de conteúdo. Era, de fato, arbitrário, porque a estrutura das redes e seus mecanismos de recompensa permaneciam os mesmos.
A monetização de conteúdos antivacina e os algoritmos tunados para garantir “quanto mais engajamento, melhor”, independentemente da veracidade dos fatos, continuavam sendo a regra. Por exemplo, em janeiro de 2021, o Radar Aos Fatos revelou que o Facebook exibiu anúncios de drogas sem comprovação contra a Covid-19 ao menos 3,9 milhões de vezes durante o ano de 2020.
Em resposta aos questionamentos da reportagem, a empresa apenas disse que, entre março e outubro de 2020, havia removido, “mais de 12 milhões de peças de conteúdo do Facebook e do Instagram por conterem desinformação que poderia levar a danos físicos iminentes”.
Jair Bolsonaro:
“A cartada final vai ser quando se chegar à conclusão que aquele remedinho pra malária e outro pra cegueira do rio podiam ter salvo aí, no Brasil, centenas de milhares de mortos.”
Tai Nalon:
Em julho de 2021, o YouTube removeu 15 vídeos do canal de Bolsonaro que propagavam informações incorretas sobre a doença, o que incluía a defesa da cloroquina e da ivermectina.
Meses mais tarde, o YouTube e a Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, também derrubaram uma transmissão ao vivo em que o presidente associava a vacina à Aids.
Em entrevista à CBS em agosto de 2021, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou que a empresa havia excluído mais de 18 milhões de posts com alegações enganosas sobre a Covid-19 até aquele momento.
Mark Zuckerberg:
“O número de 18 milhões que eu compartilhei é a quantidade de conteúdos que encontramos na plataforma e que nós derrubamos.”
Tai Nalon:
Essa declaração foi usada por negacionistas como uma prova de que havia um sistema de censura das plataformas contra determinadas agendas. Como a causa antivacina sempre esteve muito próxima dos movimentos conservadores, o argumento da direita radical era que quem controlava as redes estava trabalhando a favor de governos de esquerda.
Nos Estados Unidos, esse discurso teve como representante Robert Kennedy Jr, que teve sua conta banida no Instagram por disseminar desinformação sobre vacinas. Hoje, no segundo mandato de Trump, ele chefia o Departamento de Saúde do governo.
Em agosto de 2020, Trump também teve publicações deletadas, o que, naquela época, e talvez hoje também, supunha-se impensável.
Em agosto de 2024, Zuckerberg disse ter sido pressionado a censurar certos conteúdos sobre a Covid-19 pelo governo do ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. A alegação, escrita em carta ao Congresso americano, antecipava o tom das declarações feitas pelo empresário a partir da posse de Trump, no começo de 2025.
A verdade é que lá, durante a pandemia, uma auditoria independente demonstrou por A mais B que as redes da Meta, com seus algoritmos, promoviam a polarização e o extremismo. As ações de Zuckerberg eram vistas como um esforço para melhorar sua imagem pública. Veremos as implicações disso nos próximos episódios.
Capítulo 5: A Política do Ressentimento
Manifestantes:
“Fora, Doria! Fora, Doria!”
João Dória:
“O que nós não imaginávamos era essa força propulsora de notícias, de fake news, invadindo as redes sociais e chamando quem usava máscaras de maricas, chamando quem pensava em adotar a vacina de covardes e chamando a mim e a outros governadores que defendiam os programas de isolamento de destruidores da economia brasileira.”
Tai Nalon:
Quem chegou relativamente lúcido a 2021 certamente se lembra que, naquele momento, a força do ressentimento antissistema e a desinformação oficial do governo Bolsonaro estavam em simbiose.
Aquela decisão do Supremo, no início da pandemia, de liberar estados e municípios havia se tornado uma espécie de símbolo catalisador do antagonismo entre a direita radical e qualquer um que essa ala considerasse inimigo potencial.
As medidas de distanciamento eram tratadas por bolsonaristas como uma tentativa de levar o país ao caos econômico. Não usar máscara era um código identitário. Para os mais extremistas, se vacinar era praticamente fazer parte de um conluio entre políticos e o poder Judiciário para destruir o governo. E publicar esse tipo de argumento nas redes sociais gerava o que eles julgavam ser censura. Esse raciocínio se desdobrou em uma das declarações falsas mais repetidas por Bolsonaro ao longo de seu mandato.
Jair Bolsonaro:
“Eu fui desautorizado pelo Supremo Tribunal Federal.”
“(...) Desautorizar o presidente da República com uma canetada (…)”
Tai Nalon:
Dessas declarações, mais da metade foram transmitidas simultaneamente, sem contraditório, em várias plataformas por meio de lives semanais e outros tipos de publicações em redes sociais.
Veículos de imprensa aderiram a esse discurso com incentivos financeiros das próprias plataformas.
A gente sabe o que isso gerou.
Manifestantes:
“Mito! Mito! Mito!”
Tai Nalon:
Reunidos diante de quartéis logo nos primeiros meses da pandemia, manifestantes pediam o fechamento do STF e clamavam por intervenção militar para dar fim às restrições — restrições essas que, convenhamos, mal foram aplicadas devido ao ruído de comunicação entre os governos. Esses movimentos foram dando vazão àquilo que se configuraria, eventualmente, numa escalada golpista.
Durante as eleições de 2022, quase 700 mil mortos mais tarde, ao ser cobrado por suas atitudes e declarações, Bolsonaro repetiu o que fez de melhor: negou a realidade.
Jair Bolsonaro:
“Eu não errei nenhuma durante a pandemia.”
“E outra coisa, eu não errei em nada do que eu falei.”
“Eu dou a minha opinião e não errei nenhuma das minhas opiniões durante a pandemia, nenhuma.”
Tai Nalon:
Os efeitos da pandemia são sentidos ainda hoje. A desinformação não apenas agravou a crise como também contribuiu para prolongá-la, dificultando a adesão à vacinação e enfraquecendo a confiança nas instituições.
As consequências não se limitaram à saúde. A atuação de autoridades negacionistas durante o período do surto expôs como a manipulação da informação pode ser usada como instrumento de poder. Houve impacto direto na estabilidade democrática global. E esse é o tema do próximo episódio.





