Vídeos em que Tancredo e Ulysses criticam Bolsonaro são obra de IA

Foram gerados por inteligência artificial os vídeos em que dois dos principais símbolos da redemocratização do país, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, criticam Jair Bolsonaro (PL). As duas gravações são manipulações digitais a partir de registros reais — um de 1985 e outro de 1988 — nos quais o ex-presidente não é citado pelos políticos.

Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 50 mil visualizações no TikTok nesta quarta-feira (19). O conteúdo também circula no WhatsApp, onde não é possível estimar o alcance.

Tancredo Neves antes de falecer em 1985, deixou sua opinião sobre o capitão Jair Messias Bolsonaro

Imagem exibe uma captura de tela de um vídeo cujo centro mostra um homem idoso de pele clara, calvo com pouco cabelo escuro nas laterais, vestindo um terno cinza-claro, camisa branca e gravata escura. Ele está olhando ligeiramente para baixo, com um microfone posicionado à sua frente no canto inferior direito, enquanto um ícone de reprodução de vídeo branco aparece sobreposto em seu rosto. No canto inferior esquerdo, há um logotipo composto por um quadrado laranja com a letra 'N' em branco e a palavra 'numviu' escrita logo abaixo. Na parte superior da imagem, sobre um fundo escuro, lê-se o seguinte texto em letras claras: 'Tancredo Neves antes de falecer em 1985, deixou sua opinião sobre o Capitão Jair Messias Bolsonaro'.

Publicações têm compartilhado como real um vídeo editado que mostra o ex-presidente eleito Tancredo Neves dizendo que Bolsonaro seria um “traidor da pátria” por apoiar o golpe militar e a ditadura.

Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou que a gravação original foi publicada pelo Jornal da Manchete, em 1985, e disponibilizada atualmente pelo canal do YouTube Numviu. O vídeo mostra o discurso feito por Tancredo após receber um documento da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Em nenhum momento (veja abaixo) ele cita o nome de Bolsonaro.

Elementos presentes na própria peça de desinformação também evidenciam a manipulação digital:

  • Em alguns pontos da fala, o movimento da boca não acompanha a voz;
  • Há engasgos no final de frases, que são comuns em vídeos gerados por inteligência artificial;
  • E, em alguns momentos, a boca aparece distorcida ou borrada (veja abaixo).

A peça de desinformação também comete um erro temporal ao sugerir que Neves teria comentado uma “sujeira” que Bolsonaro teria feito no quartel. A fala original ocorreu em fevereiro de 1985, mas o suposto plano de Bolsonaro para explodir bombas em instalações militares só foi revelado pela Veja dois anos depois, em 1987. Tancredo morreu em 21 de abril de 1985, antes de tomar posse como presidente da República.

[Ulysses Guimarães:] Capitão Bolsonaro é uma vergonha para essa nação

Imagem exibe, em tom predominantemente acinzentado, um homem idoso de pele clara, calvo no topo da cabeça e com cabelos claros nas laterais. Ele veste um terno escuro com um lenço claro no bolso do peito, camisa branca e gravata texturizada, e aparece com a boca entreaberta, posicionado diante de um microfone fino sobre uma mesa onde repousam papéis e um copo de água à sua esquerda. Na parte superior da imagem, contrastando com o fundo escuro, lê-se o texto em letras maiúsculas amarelas: 'UMA BREVE PREVISÃO DO FUTURO'.

Posts também têm compartilhado como se fosse real um vídeo manipulado em que o então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, fala de Bolsonaro.

O discurso original foi feito durante a promulgação da Constituição Federal de 1988. No entanto, uma versão editada tem circulado para sugerir que ele teria dito que Bolsonaro seria uma “vergonha para essa nação”. Não há nada semelhante no discurso (veja íntegra aqui).

O vídeo desinformativo também apresenta anomalias comuns a conteúdos manipulados por ferramentas de IA. Nesse caso, a mais visível é a fusão do brilho do microfone com a boca em alguns momentos da gravação:

A imagem exibe duas capturas de tela verticais lado a lado com bordas arredondadas, ambas em preto e branco com baixa resolução, mostrando um homem de pele clara, calvo no topo e com cabelos claros nas laterais, vestindo um terno escuro, camisa branca e gravata. O homem está falando ao microfone, que aparece parcialmente visível. Em ambas as capturas, a área da boca do homem está circulada por uma linha laranja. Na captura da esquerda, a boca está aberta, mostrando a dentição, enquanto na captura da direita, a boca está mais fechada, também exibindo os dentes. O fundo está desfocado e escuro.
Brilho do microfone se funde aos lábios de Guimarães em diferentes momentos do vídeo (Reprodução)

Da mesma forma que o vídeo de Tancredo Neves, a gravação tem uma inconsistência temporal: Guimarães critica a carreira política de Bolsonaro, mas ele só se elegeu vereador do Rio de Janeiro em 1989, um ano depois da data do discurso. Ulysses Guimarães morreu em 12 de outubro de 1992 em um acidente de helicóptero.

Esta peça de desinformação também foi checada por UOL Confere.

O caminho da apuração

Aos Fatos fez uma busca reversa pelos dois vídeos e encontrou as gravações originais no YouTube. A reportagem assistiu os discursos na íntegra e verificou se havia alguma citação a Bolsonaro, mas isso não ocorreu. Aos Fatos também procurou indícios de geração artificial, como anomalias e engasgos.

Por fim, a reportagem buscou o contexto de cada uma das declarações.

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