A tal coragem das emissoras americanas e o poder desinformador da TV

Por Tai Nalon

7 de novembro de 2020, 20h45


Foi com algum grau de euforia que a minha bolha tuiteira respondeu às ações de emissoras norte-americanas que interromperam a transmissão ao vivo de um pronunciamento do presidente Donald Trump. Em sua fala, o candidato republicano questionava a lisura das eleições de seu país e a integridade dos votos que, nesta madrugada de sábado (7), permanecem sendo contados. Embora o líder americano já tenha feito sua parte ao erodir a autoridade de seu cargo ao proferir mais de 22.247 declarações falsas ou distorcidas desde o início de seu mandato, o comportamento das emissoras foi entendido como corajoso por quem se apresenta como entendedor do riscado.

Como vivo em 2020 e não sou entendedora de rigorosamente mais nada, prefiro acreditar que a tal coragem tem mais a ver com a maturidade do jornalismo americano para lidar com mentirosos em série. Também coaduna com meses de planejamento editorial contra ameaças que, como Aos Fatos mostrou nesta semana, já eram favas contadas: esse tipo de narrativa já vinha sendo alimentada há meses por Trump. Segundo o Fact Checker do jornal The Washington Post, já foram registradas ao menos 202 declarações falsas ou distorcidas neste ano sobre fraude eleitoral proferida pelo presidente americano.

Quem leva a sério o trabalho de checagem de declarações de políticos sabe como as mentiras que nossos representantes contam são centrais para pautar o debate político. Conforme Aos Fatos comprovou durante a pandemia, a mentirada sobre a cloroquina só ganhou evidência após Donald Trump e Jair Bolsonaro sustentarem, sem contraditório, sua eficácia em pronunciamento na TV. Também é através da TV que Bolsonaro dá a maior parte de suas entrevistas e que, no início deste ano, Aos Fatos também comprovou que é o meio pelo qual o presidente mais fala bobagem.

Tirar um pronunciamento mentiroso do ar não é corajoso; é estar de acordo com as regras centrais do jornalismo: publicar o que é fato verificável com objetividade. Ao não amplificar inverdades, o jornalismo não é seduzido pela subjetividade de classificar informações como "polêmicas", "absurdas" ou "perigosas". Ato contínuo, jornalistas são habilitados a mudar de assunto: levar a cobertura para os fatos como são -- a contagem de votos, que continua --, ou afirmar peremptoriamente que determinada autoridade faz uso de declarações falsas para se beneficiar de uma narrativa que não se sustenta.

Ao darem espaço para que mentiras sejam publicadas sem contexto ou mediação, canais de TV passam a integrar uma cadeia informal de desinformadores profissionais. Várias emissoras brasileiras municiam canais de YouTube, páginas no Facebook e grupos de WhatsApp com trechos de suas transmissões que, alteradas ou não, subsidiam as narrativas políticas que grupos radicalizados vêm compartilhando.

As próprias plataformas parecem estar mais cientes disso do que alguns canais de televisão. Ao longo desta semana, o Twitter marcou mais de uma dezena de publicações de Trump em seu perfil oficial sob a alegação de que seu conteúdo poderia ser enganoso. Facebook e Instagram adotam táticas mais ou menos parecidas, assim como o YouTube tem políticas de banimento de conteúdo que põe em risco processos cívicos, como a eleição.

Se emissoras de TV quiserem ter autoridade para exigir que plataformas se comportem como veículos e, por conseguinte, arquem com as consequências de suas escolhas editoriais, devem ser coerentes. Isso significa não publicar em seus jornais séries de "diz que" e não abrir seus microfones para famosos desinformadores. Do contrário, corajosos continuarão sendo aqueles que apenas fazem jornalismo. Corajosos são os jornalistas checadores de fatos, por dever de ofício.

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