Site de campanha com ‘Algoritmo do Bem’ é golpe

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Não é verdade que o empresário Luciano Hang e o programa Criança Esperança lançaram um programa que multiplica o dinheiro investido em doações. Publicações nas redes usam um vídeo gerado por inteligência artificial para promover um golpe que promete lucros rápidos em troca de um depósito inicial. O objetivo é roubar o dinheiro e os dados pessoais das vítimas.

O conteúdo golpista acumulava cerca de 100 mil visualizações no X até a tarde desta segunda-feira (1).

ADEUS, POBREZA! Criança Esperança e Luciano Hang abriram acesso ao “Ouro Digital”: receba a partir de 15.000 reais por mês enquanto ajuda as crianças do Brasil!

A imagem mostra o interior de um carro visto do banco da frente. Do lado esquerdo, um homem negro que usa óculos e camisa azul clara está sentado no banco do motorista e olha para frente com um leve sorriso. Do lado direito, em primeiro plano e desfocado, aparece o empresário Luciano Hang, careca e de pele clara, usando camiseta verde, sentado no banco do passageiro. Sobre a parte inferior da imagem há a palavra ‘GOLPE?!’ escrita em letras grandes vermelhas. O interior do veículo é escuro, com bancos pretos e partes da janela visíveis ao fundo.

O site que divulga uma suposta parceria entre o empresário Luciano Hang e o programa Criança Esperança é, na verdade, um golpe criado para roubar dinheiro e dados pessoais de usuários.

Os golpistas afirmam que “cada contribuição real ao projeto Criança Esperança retorna multiplicada por 30” graças a um suposto “Algoritmo do Bem”, que faria o dinheiro operar nos mercados globais de petróleo e gás, gerando lucro automático aos participantes.

A fraude é promovida nas redes por meio de um vídeo que supostamente mostra Hang conversando com um taxista. No depoimento, o homem afirma ter recebido quase R$ 15 mil “sem fazer nada”, apenas preenchendo um formulário em um site associado ao suposto projeto.

A gravação, porém, foi gerada por inteligência artificial. Aos Fatos identificou diversos indícios de manipulação:

  • Os personagens estão excessivamente nítidos em primeiro plano, enquanto o restante da cena aparece artificialmente suavizado — característica comum a vídeos produzidos por IA;
  • A pele dos personagens também tem aparência plastificada;
  • A fala é pausada e não respeita o ritmo natural de uma conversa;
  • O cenário exibido do lado de fora do carro se repete em diferentes momentos da conversa.

Durante a gravação, o suposto taxista afirma que, após preencher o formulário, recebeu o contato de um gerente associado ao projeto, que teria enviado documentos comprovando a adesão à plataforma. Segundo o depoimento, um advogado teria analisado os arquivos e confirmado a autenticidade deles.

As imagens exibidas no vídeo, porém, apresentam uma série de erros que indicam geração sintética:

  • Em um dos trechos, um suposto gerente afirma estar enviando documentos, mas encaminha apenas duas fotos de uma obra de construção civil;
  • Há ainda inconsistências nos horários das mensagens: um dos documentos enviados pelo taxista aparece registrado às 14h32, enquanto a resposta do gerente está como enviada às 14h30 — antes, portanto, do recebimento do arquivo;
  • O gerente mostrado na conversa e os supostos documentos fazem menção à Havan City, um golpe já documentado por organizações de checagem;
Imagem mostra mão segurando celular com a tela aberta em conversa de aplicativo de mensagens. No topo da conversa, aparece o contato chamado ‘Gerente Havan City’, acompanhado de foto de perfil de homem usando terno. Na conversa, há três arquivos em PDF enviados, com os nomes ‘contrato_havan_city.pdf’, ‘CNPJ_registro.pdf’ e ‘alvara_construcao.pdf’. Abaixo dos arquivos, aparece uma mensagem: ‘Aqui estão todos os documentos. Qualquer dúvida me liga’. Em seguida, há duas imagens pequenas mostrando uma construção com guindastes. Na parte inferior da tela, aparece parcialmente uma resposta escrita: ‘Obrigado vou mostrar pro meu’.
Imagens de suposta conversa entre o taxista e gerente associado ao Algoritmo do Bem são, na verdade, ligados a outro golpe (Reprodução)
  • A gravação exibe a imagem de um suposto contrato feito em cartório entre o projeto e o taxista. O arquivo, no entanto, apresenta texto desconexo e carimbo incompatível com registros oficiais (veja abaixo);
Imagem mostra a parte inferior de folha de papel posicionada sobre superfície de madeira escura. O documento contém texto digitado em português na parte superior visível, além de duas assinaturas feitas à caneta azul próximas ao centro inferior da página. À direita das assinaturas, há um carimbo retangular vermelho com o texto ‘REG: 45892-B/2026’ e abaixo dele a inscrição ‘Registro do Oficial Cartório de Registro’. Mais abaixo aparece um carimbo circular preto com a frase ‘CARTÓRIO DE REGISTRO’ ao redor e a data ‘21 de março de 2026’ no centro. No lado esquerdo da folha há um selo holográfico vertical parcialmente visível. A página apresenta manchas escuras espalhadas e está levemente dobrada nas bordas inferiores. 
Vídeo mostra documento gerado por IA para tentar conferir credibilidade ao golpe (Reprodução)
  • A foto do suposto encontro entre o taxista e o advogado que analisaria o contrato também foi criada por IA. Além da aparência artificial do ambiente, o homem retratado na fotografia não se parece com o taxista mostrado anteriormente na gravação;
Imagem mostra dois homens sentados lado a lado em uma mesa de escritório. O homem à esquerda usa camisa polo azul, está com as mãos entrelaçadas sobre a mesa e olha para o outro homem com expressão séria. O homem à direita usa óculos e camisa social azul clara com as mangas dobradas, e segura algumas folhas de papel enquanto lê os documentos. Sobre a mesa há mais papéis espalhados, um porta-canetas com canetas coloridas e uma placa parcialmente visível. Ao fundo há uma estante com livros, uma luminária acesa com cúpula clara e um quadro pendurado na parede.
Suposta foto da conversa entre o taxista e o advogado mostra um homem diferente daquele que narra o vídeo (Reprodução)

O conteúdo direciona os usuários para um site que imita a identidade visual do jornal O Estado de S. Paulo. No entanto, uma busca pelo título da suposta reportagem não retorna qualquer registro de publicação semelhante no portal do veículo. Também não há menções à iniciativa nos canais oficiais de Luciano Hang, da Havan ou do Criança Esperança.

Como o golpe funciona. O vídeo é uma isca para levar usuários a clicar no link, que direciona, por sua vez, a uma página que contém uma falsa reportagem do Estadão. Ao acessar o site, a vítima é informada de que pode ganhar dinheiro ao ajudar crianças carentes, mas que, antes disso, precisa “ativar a conta” com uma contribuição mínima de R$ 550.

“Você deposita 550 — em uma hora já aparecem 850. Até o fim do dia, o saldo passa de 2.000 reais. O sistema distribui automaticamente uma parte do lucro para as crianças, e o restante é seu ganho limpo, disponível para saque instantâneo via PIX”, promete a página falsa.

Na etapa seguinte, os golpistas solicitam o preenchimento de um formulário com nome, endereço de email e telefone — informações que podem ser usadas em novas tentativas de fraude — e direcionam o usuário para a página de pagamento, que permite que a transação seja feita via cartão de crédito, Pix e carteiras digitais.

Eventuais vítimas do golpe que façam o pagamento via Pix podem recorrer ao MED (Mecanismo Especial de Devolução), sistema criado pelo Banco Central para reparar danos gerados por fraude com o uso da tecnologia. Também é possível recorrer à Justiça para solicitar o estorno.

Caso o pagamento seja feito via cartão de crédito, a orientação do BC (Banco Central) é que a vítima contate imediatamente a operadora do cartão para contestar a transação e faça um boletim de ocorrência. Caso o problema não seja resolvido, é possível procurar o Procon (Programa de Proteção de Defesa do Consumidor) de seu estado, ingressar com ação na Justiça ou fazer reclamação ao próprio BC.

O caminho da apuração

Aos Fatos analisou o vídeo que circula nas redes e identificou diversos sinais de manipulação por inteligência artificial.

A reportagem também verificou que o site divulgado pelas peças imita a identidade visual do jornal O Estado de S. Paulo e não possui qualquer relação com o veículo, com Luciano Hang, com a Havan ou com o programa Criança Esperança.

Também simulamos uma compra no site para confirmar que se tratava de um golpe.

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