Série 'O tamanho do Estado': Brasil gasta pouco em saúde

Compartilhe

O Brasil é referência mundial em assistência médica universal com o SUS (Sistema Único de Saúde), mas o mesmo não se pode dizer da aplicação de gastos do setor. Aos Fatos comparou a quantidade e a qualidade dos gastos brasileiros em saúde com as demais nove economias mundiais — e os resultados não são animadores. A verdade é que os brasileiros gastam, sim, com saúde, mas o Estado tem papel não só minoritário nesse montante, mas também insuficiente na comparação com nações com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e saúde gratuita universalizada.

Sétimo PIB (Produto Interno Bruto) do mundo, o Brasil também é, segundo relatório de 2014 da OMS (Organização Mundial da Saúde), o sétimo em desembolsos com saúde — se somados, além das despesas públicas, os gastos particulares, como saúde suplementar. O país colocou um total de US$ 210 bilhões na área, atrás de Estados Unidos (US$ 2,8 trilhões), Japão (US$ 601 bilhões), China (US$ 445 bilhões), Alemanha (US$ 383 bilhões), França (US$ 306 bilhões) e Reino Unido (US$ 230 bilhões).

Já na relação entre gastos totais com saúde e o tamanho do PIB, o Brasil aparece em quinto lugar dentre as dez maiores economias do mundo. São US$ 96,6 bilhões gastos por todas as esferas de governo, o equivalente a 46% do total gasto no ano.

No gráfico abaixo, é possível ver como o Brasil ainda engatinha tanto na quantidade quanto na qualidade dos gastos em saúde, sobretudo a pública. (Vale ressaltar que, nessa comparação, os EUA são ponto fora da curva: mesmo se somarmos todos os gastos totais de todos os demais nove países, não chegaríamos aos US$ 2,8 trilhões.)

Mas a maneira mais eficiente de comparar os gastos brasileiros com saúde e constatar que há mais para ser feito pelo governo é perceber que, na proporção gastos do Estado com saúde x PIB, o Brasil desembolsa apenas 3,99%. Está próximo de países como Rússia (3,97%) e China (3,02%). No entanto, em países cujos IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) são maiores, a participação do Estado na saúde é bem maior. O governo francês aplica 9,1% de seu PIB na saúde. A Alemanha, 8,6%; os EUA, 8,2%; o Japão, também 8,2%.

É possível ainda ter uma perspectiva precisa sobre os gastos totais com saúde ao analisarmos seu valor per capita (por habitante), como no gráfico abaixo. O Brasil aparece em sétimo, com US$ 1.056 desembolsados anualmente. Perde para Rússia (US$ 887), China (US$ 322) e Índia (US$ 61) — os dois últimos, países cujas populações também são bem maiores do que a brasileira.

Em 2014, a Bloomberg publicou estudo que mediu a eficiência da saúde em 48 países, numa relação entre a esperança de vida ao nascer e o gasto com saúde. O critério, segundo o conglomerado de comunicações, foi analisar aquelas nações cujas populações têm pelo menos 5 milhões de habitantes e renda per capita mínima de US$ 5 mil. As informações são do Banco Mundial, do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da OMS.

Ali, o Brasil ficou em 48º, com o pior desempenho dentre todos os países analisados. O problema, de acordo com o estudo, é que, apesar de o Brasil ter gastos elevados em saúde per capita e em proporção ao PIB (o segundo da América Latina, Cuba à frente), isso não resulta em maior esperança de vida ao nascer — o que, conforme os pesquisadores, denota que se gasta muito para pouco resultado.

Mesmo que simplifique o quadro da saúde, o estudo pinta com alguma fidelidade o cenário brasileiro. Se o país tem a capacidade de aplicar tanto quanto França ou Reino Unido, para citar países cujo sistema de saúde é universal como o do Brasil, não precisava ter qualidade de acesso mais próximo apenas ao da Rússia, por exemplo.


Esta é a segunda reportagem da série ‘O tamanho do Estado’, que será publicada em capítulos temáticos.

Compartilhe

Leia também

Por um uso ético da IA no jornalismo

Por um uso ético da IA no jornalismo

falsoBolsonaro não admitiu em áudio participação de Flávio em ‘rachadinha’

Bolsonaro não admitiu em áudio participação de Flávio em ‘rachadinha’

falsoFilho de Lula não comprou a Azul Linhas Aéreas

Filho de Lula não comprou a Azul Linhas Aéreas