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Série 'O tamanho do Estado': Brasil gasta pouco em saúde

20 de outubro de 2015, 20h00

O Brasil é referência mundial em assistência médica universal com o SUS (Sistema Único de Saúde), mas o mesmo não se pode dizer da aplicação de gastos do setor. Aos Fatos comparou a quantidade e a qualidade dos gastos brasileiros em saúde com as demais nove economias mundiais — e os resultados não são animadores. A verdade é que os brasileiros gastam, sim, com saúde, mas o Estado tem papel não só minoritário nesse montante, mas também insuficiente na comparação com nações com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e saúde gratuita universalizada.

Sétimo PIB (Produto Interno Bruto) do mundo, o Brasil também é, segundo relatório de 2014 da OMS (Organização Mundial da Saúde), o sétimo em desembolsos com saúde — se somados, além das despesas públicas, os gastos particulares, como saúde suplementar. O país colocou um total de US$ 210 bilhões na área, atrás de Estados Unidos (US$ 2,8 trilhões), Japão (US$ 601 bilhões), China (US$ 445 bilhões), Alemanha (US$ 383 bilhões), França (US$ 306 bilhões) e Reino Unido (US$ 230 bilhões).

Já na relação entre gastos totais com saúde e o tamanho do PIB, o Brasil aparece em quinto lugar dentre as dez maiores economias do mundo. São US$ 96,6 bilhões gastos por todas as esferas de governo, o equivalente a 46% do total gasto no ano.

No gráfico abaixo, é possível ver como o Brasil ainda engatinha tanto na quantidade quanto na qualidade dos gastos em saúde, sobretudo a pública. (Vale ressaltar que, nessa comparação, os EUA são ponto fora da curva: mesmo se somarmos todos os gastos totais de todos os demais nove países, não chegaríamos aos US$ 2,8 trilhões.)

Mas a maneira mais eficiente de comparar os gastos brasileiros com saúde e constatar que há mais para ser feito pelo governo é perceber que, na proporção gastos do Estado com saúde x PIB, o Brasil desembolsa apenas 3,99%. Está próximo de países como Rússia (3,97%) e China (3,02%). No entanto, em países cujos IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) são maiores, a participação do Estado na saúde é bem maior. O governo francês aplica 9,1% de seu PIB na saúde. A Alemanha, 8,6%; os EUA, 8,2%; o Japão, também 8,2%.

É possível ainda ter uma perspectiva precisa sobre os gastos totais com saúde ao analisarmos seu valor per capita (por habitante), como no gráfico abaixo. O Brasil aparece em sétimo, com US$ 1.056 desembolsados anualmente. Perde para Rússia (US$ 887), China (US$ 322) e Índia (US$ 61) — os dois últimos, países cujas populações também são bem maiores do que a brasileira.

Em 2014, a Bloomberg publicou estudo que mediu a eficiência da saúde em 48 países, numa relação entre a esperança de vida ao nascer e o gasto com saúde. O critério, segundo o conglomerado de comunicações, foi analisar aquelas nações cujas populações têm pelo menos 5 milhões de habitantes e renda per capita mínima de US$ 5 mil. As informações são do Banco Mundial, do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da OMS.

Ali, o Brasil ficou em 48º, com o pior desempenho dentre todos os países analisados. O problema, de acordo com o estudo, é que, apesar de o Brasil ter gastos elevados em saúde per capita e em proporção ao PIB (o segundo da América Latina, Cuba à frente), isso não resulta em maior esperança de vida ao nascer — o que, conforme os pesquisadores, denota que se gasta muito para pouco resultado.

Mesmo que simplifique o quadro da saúde, o estudo pinta com alguma fidelidade o cenário brasileiro. Se o país tem a capacidade de aplicar tanto quanto França ou Reino Unido, para citar países cujo sistema de saúde é universal como o do Brasil, não precisava ter qualidade de acesso mais próximo apenas ao da Rússia, por exemplo.


Esta é a segunda reportagem da série ‘O tamanho do Estado’, que será publicada em capítulos temáticos.

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