Sem eficácia comprovada contra Covid-19, ivermectina é a droga mais indicada por bolsonaristas no WhatsApp

Por Marina Gama Cubas, Bárbara Libório e João Barbosa

17 de julho de 2020, 16h51


Em grupos de WhatsApp bolsonaristas, a ivermectina tem sido a droga mais recomendada contra a Covid-19, embora não tenha eficácia comprovada. Análise do Radar Aos Fatos em 257 grupos no aplicativo entre 1º e 16 de julho concluiu que o antiparasitário aparece com frequência em mensagens que contêm orientações de uso. Já a hidroxicloroquina, propagandeada pelo presidente Jair Bolsonaro, é mais mencionada em postagens de cunho puramente político. O antimalárico também não se provou eficaz contra a doença.

Para a análise, Radar Aos Fatos buscou as mensagens nesses grupos de WhatsApp sobre hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, dexametasona e remdesivir e categorizou as 20 mais frequentes sobre cada uma das drogas entre: 1) as que indicavam o remédio como eficaz contra a Covid-19 (profilaxia, cura, posologia, etc); 2) as que citavam o medicamento em um posicionamento político (ataques à oposição, elogios ao presidente, entre outros).

Das 20 mensagens mais repassadas que citavam a ivermectina, 13 indicavam seu uso para combater a doença (67% do total). Dentre elas, seis recomendavam a medicação de forma preventiva, três durante a infecção e quatro eram relatos de pessoas que diziam ter sido curadas pela ação da substância.

Já a hidroxicloroquina foi indicada nos grupos como tratamento da Covid-19 em apenas 2 das 20 mensagens que a mencionaram no período analisado. A maioria (17, ou 87,6% do total) continha tom político, como acusações de que governadores e juízes estariam restringindo o acesso da população à droga.

Como Aos Fatos já mostrou, nem a hidroxicloroquina nem a ivermectina têm eficácia comprovada contra a Covid-19. Os quatro maiores estudos randomizados (considerados os mais confiáveis) publicados até agora apontam que o antimalárico não tem efeito contra o novo coronavírus, a OMS (Organização Mundial da Saúde) interrompeu pesquisas com o medicamento e organizações de médicos já se manifestaram contra seu uso.

Já um trabalho observacional que apontou efeitos positivos da ivermectina chegou a ser publicado como preprint (sem revisão por pares), mas foi excluído depois que cientistas encontraram problemas na fonte de dados. Testes em laboratório apontaram que a dose necessária para exterminar o novo coronavírus também matou células saudáveis — um indicativo, segundo os pesquisadores, de que não seria promissora para tratar a doença.

Sem apelo. Drogas que obtiveram resultados positivos em estudos observacionais, por sua vez, não receberam tanta atenção dos 257 grupos de WhatsApp bolsonaristas analisados.

O remdesivir, antiviral usado contra o ebola, foi mencionado sete vezes no período analisado, na maioria delas em tom crítico. Duas mensagens falavam do seu alto custo; três negavam a sua eficiência no tratamento do coronavírus em comparação com a hidroxicloroquina; e outras duas incluíam a droga na lista de substâncias de combate à doença.

Um ensaio clínico randomizado com 1.063 pacientes mostrou que o antiviral reduziu o tempo médio de internação dos pacientes de 15 para 11 dias e não afetou a mortalidade, segundo. Já um estudo observacional (menos confiável que os randomizados) indicou que a droga também pode reduzir a mortalidade em casos graves, mas a informação carece de novos ensaios.

Outro medicamento que apresentou resultado positivo, o corticóide dexametasona foi mencionado de forma genérica quatro vezes entre as mensagens analisadas pelo Radar Aos Fatos. Segundo estudos, o remédio reduziu a mortalidade de pacientes graves internados, e pesquisadores avaliam que ele pode ser eficaz ao atacar inflamações provocadas pela Covid-19. O mesmo efeito não foi observado em casos mais leves e a droga não deve ser ingerida por conta própria.

Bolsonaro. A hidroxicloroquina e a cloroquina têm sido defendidas por Bolsonaro desde março, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) categorizou a Covid-19 como uma pandemia. O presidente anunciou naquele mesmo mês o aumento da produção do remédio. À época, o Radar Aos Fatos mostrou que a decisão do presidente refletiu no aumento da desinformação sobre a substância no Twitter.

Em junho, as Forças Armadas tinham 1,8 milhões de comprimidos de cloroquina no estoque do Exército, que já havia distribuído outro milhão de doses para o Ministério da Saúde. Hoje, ela e a hidroxicloroquina fazem parte da relação do Ministério da Saúde de substâncias permitidas para o uso em pacientes com Covid-19.

Ainda que tenha mostrado maior apelo nas indicações dos grupos bolsonaristas analisados, a ivermectina pouco é mencionada nos discursos do presidente. A droga foi citada por ele pela primeira vez no fim de maio e, desde então, há ao menos cinco outras menções, que foram captadas no contador de declarações checadas de Bolsonaro.

Metodologia

Em parceria com a empresa de ciência de dados Twist, Radar Aos Fatos capturou mais de 76 mil mensagens enviadas em 237 grupos de WhatsApp monitorados entre os dias 1º a 16 de julho e chegou a 193 mensagens com alguma das seguintes palavras: hidroxicloroquina, cloroquina, hqc, ivermectina, dexametasona, dexametazona e remdesivir. Em seguida, foram analisadas as 20 mensagens mais compartilhadas de cada um dos medicamentos.

As postagens que foram categorizadas podem ser vistas aqui.

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Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.