A ascensão de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto não foi um acidente, mas o resultado de uma estratégia que soube ler, antes de todos, as mudanças no consumo de informação do brasileiro. No segundo episódio de Ctrl+Fake, "A construção da indústria da mentira", voltamos no tempo para entender como um deputado do "baixo clero", ignorado pelas grandes estruturas partidárias e com pouco tempo de TV, utilizou o WhatsApp e as redes sociais para implodir o sistema político tradicional e pautar o debate público.
O segundo episódio da série documental do Aos Fatos mergulha na construção da narrativa que transformou figuras antes marginais na política em protagonistas de um movimento de massas. A combinação de pautas morais, sentimento antipetista e uso estratégico de polêmicas serviram para alimentar um ecossistema de distribuição orgânica — e, muitas vezes, invisível —: a "verdade das redes".
Com análises de especialistas e resgate de momentos-chave dessa trajetória, o novo episódio de Ctrl+Fake disseca a origem desse fenômeno: a criação de uma identidade digital baseada na confrontação e no sentimento de pertencimento.
Apresentadora da série, a diretora executiva do Aos Fatos, Tai Nalon, mostra como o uso pioneiro de grupos de mensagens transformou o celular na principal ferramenta de mobilização política do país e quais foram as consequências desse novo modelo de comunicação para a democracia brasileira e para o mercado da desinformação que conhecemos hoje.
Confira a transcrição completa do episódio, feita com o Escriba:
Introdução
Renata Lo Prete:
“Então vamos conferir o resultado final. É o seguinte: Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, com 57.796.972 votos.”
Tai Nalon:
A eleição de 2018 foi o ápice de uma série de mudanças estruturais na maneira de se fazer política no Brasil. Naquele ciclo, o presidente Lula estava preso e a base petista se mobilizava a partir de um discurso de defesa do seu legado.
Manifestantes:
“Lula guerreiro do povo brasileiro!”
Tai Nalon:
Já Bolsonaro construiu a própria imagem atacando as minorias, a política tradicional e a imprensa. Era uma postura contra tudo e contra todos, que prometia mudança.
Propaganda eleitoral:
“Muda, Brasil! Muda, Brasil! Muda de verdade. Bolsonaro…”
Tai Nalon:
Mas mudança aqui não era um projeto democrático de alternância de poder. O que Bolsonaro queria era uma transformação política radical. O que ele propunha era, pura e simplesmente, revisionismo histórico. Uma expressão mais ou menos sofisticada para quem tem vontade de reescrever, nos próprios termos, períodos desabonadores da história.
Jair Bolsonaro:
“Vamos juntos mudar o destino do Brasil.”
Tai Nalon:
Talvez o termo não seja o suficiente para explicar o que de fato estava em construção. Era a primeira vez desde o fim da ditadura militar que se chegava a esse nível de antagonismo entre adversários políticos.
Jair Bolsonaro:
“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre!”
Tai Nalon:
Essa ideia de revisionismo histórico carrega uma certa nostalgia de tempos antigos que não voltam mais. No caso da retórica bolsonarista, alguém — e sabemos quem — dizia que precisava “salvar” o Brasil de alguns espantalhos. Expressões como “ideologia de gênero”, “racismo reverso” e “ditadura gay” viraram parte do vocabulário de campanha.
Uma parte do eleitorado comprou a ideia de que era urgente combater essas ameaças e trazer de volta um Brasil que um grupo de políticos considerava exemplar. Esse mal-estar social foi o resultado de uma sequência de eventos ligados a um sentimento antipolítica e antissistema cultivado por anos.
O transbordamento desse ressentimento foi visto em várias ocasiões ao longo da década passada: no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, nas manifestações em apoio à Operação Lava Jato e, antes, em junho de 2013, com as manifestações “contra tudo e contra todos”.
Manifestantes:
“Um, dois, três, quatro, cinco, mil! Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil!”
Tai Nalon:
Todas essas turbulências políticas tinham um palco em comum: as plataformas digitais. É difícil dizer quando tudo começou e onde vai parar, mas é seguro dizer que, de 2013 a 2018, o ambiente das redes foi tomado por um ecossistema de desinformação e teorias da conspiração que domina até hoje o debate político e interfere nos rumos do país e do mundo.
A gente já viu no episódio anterior como a tecnologia, a internet e as redes sociais aproximaram os cidadãos das fontes de informação, diminuindo o poder dos intermediários. Agora, vamos ver como a plataformização da sociedade privilegiou discursos simplistas como uma suposta solução para problemas complexos e premiou a cidadania como performance nas redes sociais. O resultado, em 2018, a gente lembra bem qual foi.
Transmissão na TV:
“... O presidente da república, Jair Bolsonaro.”
Tai Nalon:
Este é o Ctrl+Fake, uma série de cinco episódios sobre a ascensão da desinformação digital como estratégia de poder na última década.
Capítulo 1: Pré-2013
Jair Bolsonaro:
“Essa comissão não quer a verdade. Essa comissão quer a calúnia, quer a mentira.”
Tai Nalon:
No começo da década passada, o então deputado federal Jair Bolsonaro ficou famoso atacando o trabalho da Comissão Nacional da Verdade.
Jair Bolsonaro:
“É uma comissão totalmente parcial. (...) Nós queremos aqui, o projeto quer apurar ‘circunstâncias de torturas, mortes, desaparecimentos forçados’, mas não quer apurar sequestro de autoridades.”
Tai Nalon:
Para ele, investigar os crimes da ditadura militar era um ataque deliberado do governo Dilma contra as Forças Armadas.
O que Bolsonaro estava fazendo era dar voz a grupos de extrema direita que negavam a ditadura e usavam as redes sociais para contar uma história alternativa, diferente dos relatórios da comissão.
Enquanto isso, algumas pautas consideradas progressistas ganhavam um espaço inédito no país. Em 2011, o Supremo reconheceu a união estável de casais do mesmo sexo. Em 2012, foi instituída a Lei de Cotas. E, no mesmo ano, a Lei Maria da Penha foi declarada constitucional.
Esse é o pano de fundo para a ascensão de um tipo de discurso aditivado por curtidas e compartilhamentos. O que antes era chamado de propaganda virou engajamento. O que antes era chamado de persuasão virou influência.
Nas redes sociais, a desinformação era, e ainda é, uma estratégia de disputa de poder. E, a partir de 2013, o que já estava quente, ferveu de vez.
Capítulo 2: A construção de espantalhos
Manifestantes:
“Queremos nossos direitos! E somos contra o aumento da passagem!”
Tai Nalon:
Para entender a capilaridade dos movimentos conspiracionistas que elegeram Bolsonaro em 2018, resumidamente, a gente precisa voltar para 2013.
As manifestações de junho daquele ano, inicialmente contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, viraram um aglutinado de demandas populares. Com a ajuda das redes, milhares de pessoas foram às ruas com pautas que iam do fim dos gastos com a Copa de 2014 até a desmilitarização da polícia.
Manifestantes:
“Não vai ter copa! Não vai ter copa!”
Tai Nalon:
Mais ou menos na mesma época, capítulos da história como a Primavera Árabe, o movimento Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, além de protestos na Turquia, em Hong Kong, no México e no Chile, todos tinham em comum uma forte rejeição a quem estava no poder e uma mediação difusa das redes sociais para chamar o povo para a rua.
Aqui no Brasil, essa rejeição desembocou numa pauta profundamente antipartidária e até antipolítica.
Manifestantes:
“Sem partido! Sem partido!”
Tai Nalon:
É claro que existia um contexto maior além das agitações nas redes. Uma crise econômica começava a dar sinais de que se intensificaria nos anos seguintes. O resultado foi uma queda drástica de popularidade do governo Dilma.
Noticiário:
“A avaliação positiva do governo da presidente Dilma Rousseff caiu 24 pontos percentuais desde o mês passado.
A queda na popularidade começou com o crescimento da inflação, como foi apurado na pesquisa de junho, e se intensificou depois das manifestações públicas que tomaram as ruas de várias cidades.”
Tai Nalon:
Desde então, nenhum outro governo conseguiu a popularidade que ela e Lula haviam registrado anos antes. E isso tem muito a ver com o jeito como as angústias sociais passaram a ser compartilhadas e como a performance política, mais do que as políticas públicas, passaram a pautar o debate.
Não é coincidência que, nos meses e anos depois dos atos de 2013, a arquitetura das redes — sobre a qual a gente já falou lá no primeiro episódio — foi essencial para catapultar certo tipo de identidade política baseado no ressentimento.
David Nemer:
“Em 2013 nós tivemos diversos fenômenos que até hoje a gente está tentando entender. E as Jornadas de Junho foram movimentos que as redes sociais tiveram um peso muito forte, principalmente na facilitação da organização. Muitas pessoas foram para o Twitter compartilhar a hashtag, grupos foram organizados no próprio Facebook, em grupos de Facebook.
Então ali, em termos de manifestação social, a gente vê em 2013 as plataformas tomando um papel mais de protagonismo. 2013 marca uma virada, vamos dizer assim, uma virada digital, já que parece que as pessoas entendem qual é a fórmula de organização, de manifestação usando essas plataformas.”
Tai Nalon:
Criou-se um vácuo de representatividade formal. A direita do espectro político, esvaziada desde a redemocratização, acabou sendo ocupada por grupos organizados em fóruns digitais e comunidades de youtubers. Surgiram o Vem Pra Rua e depois o Movimento Brasil Livre, mais conhecido como o MBL.
Mais do que isso, comunidades prevalentemente masculinas — ou seja, baseadas em identidade, afinidade e segmentação, estratégia das plataformas que discutimos lá no primeiro episódio — foram capturadas por discursos conservadores.
A pesquisadora Joan Donovan, no livro Meme Wars, menciona um episódio chamado GamerGate, que criou as bases do comportamento hostil que radicais passaram a adotar nas plataformas digitais.
Em 2014, uma comunidade de gamers reagiu a iniciativas de inclusão de mulheres na indústria de videogames. A tática de intimidação contra essas medidas — e contra as mulheres gamers em geral — foi uma das bases da comunicação violenta que a campanha presidencial de Donald Trump viria a usar e exportar para o mundo em 2016, inclusive para o Brasil.
Noticiário:
“Você chamou mulheres que você não gosta ‘porcas gordas’, ‘cadelas’, ‘desleixadas’ e ‘animais nojentos. Sua conta no Twitter…”
Donald Trump:
“Apenas Rosie O’Donnell.”
(Risadas da plateia)
Tai Nalon:
É o que conta o jornalista Max Fischer no livro “A Máquina do Caos”. Veja, nada acontece do dia para a noite, e o exemplo que ele cita no livro é prova disso.
Fischer cita o caso de Nando Moura, que ganhou popularidade fazendo vídeos sobre heavy metal e RPG no YouTube.
Nando Moura:
“Eu não vejo como ser conservador castra direitos das pessoas. Então, por exemplo, você se quiser, eu sei que tem o seu filho aí, com todo respeito à sua família e tudo mais, mas se você virar um viadão, se você virar um boiolão, tudo bem, é o seu direito de dar a sua bunda por aí, mas é o meu direito de não concordar com você dando a sua bunda, certo?”
Tai Nalon:
Em abril de 2016, logo depois de confirmado o impeachment de Dilma, Nando Moura postou isso aqui:
Jair Bolsonaro:
“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.”
Nando Moura:
“Eu prefiro o Ronaldo Caiado, mas o Bolsonaro, ele decidiu carregar esse fardo. Então eu vou votar em quem?”
Tai Nalon:
A ascensão desse método revisionista de ver os fatos históricos tem eco nele mesmo:
Olavo de Carvalho:
“As faculdades brasileiras produzem 50% de analfabetos por ano.”
Tai Nalon:
Só para frisar, por dever de ofício, esse dado não tem nenhum lastro na realidade. Mas é importante localizar Olavo de Carvalho no tempo e no espaço para a gente entender um pouco melhor onde a gente está na história e para onde a gente vai.
Dá para rastrear a influência de Olavo em ambientes digitais desde a época do Orkut, nos anos 2000. Ele era um mentor intelectual que organizava e dava um certo verniz para o universo conspiratório da extrema direita. Mas sua presença no debate público não pode ser resumida só às redes.
Pedro Bial:
“O nosso entrevistado de hoje é Olavo de Carvalho, autor de livros como ‘Aristóteles em Nova Perspectiva’ e o volume demolidor ‘O Imbecil Coletivo’.”
Tai Nalon:
Desde a década de 1990, ele aparecia nos jornais e na televisão como uma espécie de personagem excêntrica que falava coisas percebidas como incômodas — a tal figura polêmica.
Com as plataformas digitais, o chamado “olavismo” virou um pilar importante da desinformação e, a partir de 2018, um aliado intelectual do bolsonarismo. Num artigo para uma revista americana, o então chanceler de Bolsonaro e discípulo de Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo, igualou a importância do seu guru para o pensamento da direita brasileira a um outro fato histórico.
Capítulo 3: O lavajatismo
Tai Nalon:
A Operação Lava Jato, que investigou por anos um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia figurões de alguns dos maiores partidos do país, incluindo PT, PSDB e MDB, teve destaque equivalente na imprensa e nas redes sociais.
A onipresença das ações do Ministério Público e do juiz Sergio Moro tanto na imprensa quanto nas redes dava ares de uniformidade discursiva para o fenômeno que realinhou as forças políticas da nossa época.
Manifestantes:
“Ladrão paga com cadeia no Brasil de Sergio Moro! Não importa se é Dilma, não importa se é Lula, não importa se é Renan Calheiros, que esse vai ser o próximo.”
“Moro! Moro! Moro!”
Tai Nalon:
Nesse ambiente, youtubers e twitteiros surfaram no impeachment da Dilma e no lavajatismo, consolidando politicamente aqueles movimentos cujos embriões foram formados no refluxo das manifestações de 2013. Páginas no Facebook catapultariam seus criadores a cargos políticos nas eleições de 2016.
Fernando Holiday, coordenador nacional do MBL, se tornou o vereador mais jovem da história de São Paulo, e com pautas que extrapolavam em muito o mandato municipal.
Por exemplo, ele defendia o fim da Lei Rouanet, porque, para ele, servia de apoio para uma guerra cultural em curso no Brasil em favor da esquerda.
Fernando Holiday:
“Portanto, a única solução, de fato, para que não se entre nessa linha tênue de onde o dinheiro público deve financiar uma exposição ou não, é o fim da Lei Rouanet. Até porque a Lei Rouanet hoje só serve para financiar os artistas que são amigos do rei.”
Tai Nalon:
Em 2017, o MBL tinha a página de direita no Facebook que mais crescia e tinha engajamento. Também agregava e interagia com um conjunto de influenciadores de direita que, juntos, retroalimentavam um discurso que popularizou expressões espantalho como Escola sem partido, “ideologia de gênero” e...
Jair Bolsonaro:
“...esse ‘kit gay’.”
Capítulo 4: As pautas morais
Jair Bolsonaro:
“A senhora Dilma Rousseff, no início de 2011, falou que estava mandando recolher o material chamado ‘kit gay’.”
Tai Nalon:
Bolsonaro fez esse discurso em 2015. O que ele chama de “kit gay”, na verdade, era o material didático de um projeto chamado Escola Sem Homofobia, que foi produzido em 2011 por encomenda do Ministério da Educação. Por pressão da bancada evangélica na Câmara, o conteúdo foi vetado por Dilma antes mesmo de começar a ser distribuído.
Dilma Rousseff:
“O governo não vai, não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais.”
Tai Nalon:
Apesar disso, o “kit gay” continuou pautando a ala mais conservadora da direita nos anos seguintes. Sete anos depois, em 2018, a ideia de que um eventual retorno a um governo petista promoveria uma “ditadura gay” e que o “kit gay” voltaria a ser distribuído nas escolas — inclusive com certas mamadeiras dentro — virou uma das maiores falácias da campanha bolsonarista e guiou o repertório LGBTQfóbico daquela eleição.
Autor de vídeo divulgado nas redes:
“Seu filho de cinco, seis anos de idade vai beber mamadeira na creche com isso aqui, ó. Pra combater a homofobia. Tem que votar em Bolsonaro, rapaz. Bolsonaro que é pra fazer o filho da gente homem e mulher. O PT de Haddad, Lula, Dilma, só quer isso aqui pros nossos filhos, ó. Isso faz parte do ‘kit gay’, ó.”
Tai Nalon:
Todas essas mentiras estão dentro de um guarda-chuva de teorias da conspiração chamado “ideologia de gênero”, que surgiu na década de 1990 em textos da Igreja Católica. Esse outro espantalho foi criado pelas alas mais conservadoras do catolicismo como reação a políticas de inclusão de mulheres da ONU.
A discussão ganhou força na América Latina em 2007, quando um relatório do episcopado latino-americano passou a afirmar que a ideologia de gênero não considera diferenças dadas pela natureza humana e “tem provocado modificações legais que ferem gravemente a dignidade do matrimônio, o respeito ao direito à vida e à identidade da família”.
E era a família, digo, um certo tipo de família, que Bolsonaro pretendia proteger em seu projeto de poder. Para ele, a “doutrinação de esquerda nas escolas”, a Lei Rouanet, a “ideologia de gênero”, a política tradicional, as universidades, a imprensa, tudo ameaçava a família tradicional.
O objetivo de Bolsonaro e do que passou a ser chamado de bolsonarismo era repetir o que grupos conservadores já tinham conseguido fazer com o auxílio luxuoso das plataformas: capturar a indignação popular e criar pânico moral.
O pânico moral seria, então, um subproduto do ressentimento e da desilusão com a política tradicional que transbordou em 2013 e que foi instrumentalizado por quem se dizia de fora do sistema.
Foi comum explorar mentiras como esta:
Jair Bolsonaro:
“Inclusive, eu peço para você que está em casa, entra na internet, pegue lá: Plano Nacional de Promoção e Cidadania LGBT. São 180 itens, entre eles, a desconstrução da heteronormatividade. Ou seja, estão ensinando em algumas escolas que homem e mulher tá errado.”
Tai Nalon:
E esta:
Jair Bolsonaro:
“Atenção povo do Nordeste, o Haddad criou o ‘kit gay’. Você quer que o teu filho aprenda essas práticas a partir de seis anos de idade nas escolas?”
Tai Nalon:
Mas é verdade que seria uma extrapolação muito grande dizer que as redes sociais e a desinformação que circulava nelas foram as únicas responsáveis pela eleição de Bolsonaro em 2018.
Capítulo 5: A eleição da facada
Tai Nalon:
O atentado a Bolsonaro em Juiz de Fora, Minas Gerais, no dia 6 de setembro de 2018, inflamou a versão da história de que havia uma conspiração contra Bolsonaro, porque ele seria contra o sistema estabelecido. A profusão de desinformação que cercou o evento, associando a facada a toda e qualquer instituição ligada à esquerda, tomou grandes proporções.
Mais do que acirrar o antagonismo entre esquerda e direita, o atentado tirou Bolsonaro dos debates no primeiro turno. Sua condição de saúde o isolou da exposição pública ao contraditório. Sua comunicação ficou limitada às redes sociais, onde ele já tinha vantagem competitiva, já que tinha toda aquela estrutura, todos aqueles grupos de Facebook, todos aqueles perfis no Twitter construídos ao longo dos últimos anos. Ali, Bolsonaro aditivou sua comunicação.
Rodrigo Maia:
“E óbvio que todos os instrumentos de rede social fizeram com que uma candidatura sem tempo de televisão, sem história política, sem partido político conseguisse chegar num patamar de 20% de intenção de voto. E depois a facada, pelo menos, explica muito da redução da rejeição dele.”
Tai Nalon:
Quem diz isso é Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados na época da eleição e que viria a antagonizar com Bolsonaro nos anos seguintes. Porém, naquele momento, a classe política se viu obrigada a se solidarizar com o candidato.
Rodrigo Maia:
“Você tinha um movimento à época, uma força de intenção de voto, mas com uma rejeição que inviabilizava um processo majoritário. O Bolsonaro era um pouco isso na minha avaliação. Tanto que você via que nas pesquisas para a eleição, antes da facada, ele vinha caindo.
A gente que estava mais no jogo da política tradicional não entendia direito como esse movimento funcionava, como é que os movimentos de rede social, de WhatsApp, como é que eles conseguiam mobilizar, multiplicar a informação. Isso só foi aparecendo ali no final e no pós-eleição.”
Tai Nalon:
Para se ter uma ideia, na época da eleição de 2018, a página de Bolsonaro no Facebook tinha quase 7 milhões de seguidores, dez vezes mais que o candidato do PT, Fernando Haddad. Na mesma época, o ex-presidente Lula tinha menos de 4 milhões de seguidores na mesma plataforma.
Mas isso era o que estava acima da superfície. Uma particularidade chave da eleição brasileira naquele ano era o encanamento invisível de comunicação de campanha: o WhatsApp.
Até hoje a empresa, controlada pela Meta, se apresenta como um aplicativo de conversas privadas. Porém, o que havia — e ainda há — era um ecossistema de grupos temáticos, alguns com centenas de milhares de usuários, que compartilhavam informações de qualquer natureza, inclusive sobre política.
Em 2018, de acordo com o relatório Digital News, do Instituto Reuters, ligado à Universidade de Oxford, no Reino Unido, 83% dos brasileiros usavam o WhatsApp. Desse total, 48% diziam consumir notícias, quatro pontos percentuais a menos que no Facebook.
O que fica difícil de saber é o que esses usuários consideravam notícia e qual era a sua procedência.
Naquele ano, a jornalista Patrícia Campos Mello publicou uma reportagem que detalhava como empresários pagavam por envios massivos de mensagem por WhatsApp com desinformação sobre o PT. Esse tipo de ação foi proibida no Brasil em 2019.
Mas criar grupos de WhatsApp por afinidade e capturar eleitores a partir de mensagens direcionadas já tínhamos visto antes, seja no caso Cambridge Analytica, seja com a ascensão dos grupos de direita mediados por influenciadores em meados da década passada.
É possível imputar a essa estratégia o desfecho das eleições de 2018? Não. Mas o fato de o WhatsApp ser totalmente fechado e criptografado faz do aplicativo uma caixa preta. Rastrear a cadeia de usuários impactados por uma informação falsa é tarefa inglória, se não impossível. Além de tudo, naquela época era algo totalmente fora da ideia do que se concebia como propaganda propaganda eleitoral.
Veja, a Justiça Eleitoral até aquele momento enxergava a campanha nas redes sociais pela perspectiva do impulsionamento de publicações — ou seja, por quanto os partidos declaravam pagar às plataformas para veicular seus anúncios. No caso do WhatsApp, essa barreira fica borrada, porque uma campanha não compra o espaço publicitário, mas a tecnologia ou a mão de obra cobra de disparar mensagens.
Na verdade, a Justiça Eleitoral não estava preparada para muita coisa. O TSE não estava pronto para enfrentar o maremoto de desinformação sobre as urnas eletrônicas, que aumentava conforme a eleição ia se aproximando.
Rosa Weber:
“O nosso sistema eletrônico de votação é ágil, seguro, confiável e, sobretudo, auditável. Há condições de auditagem, como já ocorreu, sem que tenha, eu repito mais uma vez, sido constatado sequer um caso comprovado de fraude.”
Tai Nalon:
De julho a outubro de 2018, o Aos Fatos desmentiu 113 boatos sobre eleições que, somados, acumularam quase 4 milhões de compartilhamentos no Facebook e no Twitter.
Apenas um parêntese: esses números tendem a ser subestimados, já que um dos maiores vetores de desinformação foi o próprio WhatsApp, onde, sabemos, não dá para rastrear alcance e impacto.
As mentiras que tiveram maior tração verificável foram relacionadas ao “kit gay” e a urnas eletrônicas que se autocompletavam em favor do candidato do PT.
Em 28 de outubro de 2018, Jair Bolsonaro foi eleito o 38º presidente do Brasil, a despeito de sua campanha apontar fraude nas urnas. Dentre o vasto acervo de suas declarações mentirosas, destacava-se a história de que ele teria sido eleito no primeiro turno e que o voto eletrônico era suscetível a fraudes.
Jair Bolsonaro:
“Temos no Brasil a possibilidade de elegermos em 2018 um candidato honesto, cristão e patriota. E apelo a todos vocês, nas mídias sociais, que trabalhem, denunciem essa fraude do TSE. Voto impresso já, ou então não teremos eleições limpas em 2018.”
“Eu acredito que, pelas provas que tenho nas minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito em primeiro turno, mas, no meu entender, houve fraude.”
Tai Nalon:
As consequências dessa retórica a gente vai ver em mais detalhes nos próximos episódios. O fato é que Bolsonaro tinha a seu lado boa parte das personalidades que ganharam relevância nas plataformas digitais nos anos anteriores. Eram figuras políticas que se destacaram a partir de 2013 e outros velhos conhecidos de Brasília.
Dizer que junho de 2013 é a origem de todos os problemas seria, no mínimo, uma simplificação. As manifestações de 2013 são um ponto de inflexão, o momento em que o campo de disputa política se reorganiza com novos atores e novas alianças.
A gente ainda está vivendo as consequências dos acontecimentos da década que passou. Mas o ecossistema de mentiras que se formou nesse período é o resultado de anos de feridas políticas e históricas mal curadas, e de uma intensa disputa de poder que não começa em 2013, 2014, 2016 ou 2018.
O que acontece nesse período é uma reconfiguração e uma intensificação da disputa graças à influência de um novo agente político: as plataformas digitais. As eleições de 2018 foram o resultado dessa caótica confluência de fatores e deixaram ainda mais marcas na história do país, em especial na condução de uma das maiores crises sanitárias que o mundo já viu.
Mas isso é um papo para o próximo episódio.





