São gerados por IA vídeos que mostram enxurrada destruindo casas em MG

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Foram geradas por IA as cenas que circulam nas redes e supostamente mostram a destruição causada pelas enchentes em Minas Gerais. Aos Fatos encontrou o registro original e constatou que ele foi criado artificialmente. Além disso, a gravação apresenta diversos indícios de manipulação, como distorções e presença de marca d’água borrada.

Publicações com o conteúdo falso acumulavam centenas de visualizações no TikTok até a tarde desta quarta-feira (25).

Alagamento e enxurrada em Minas, oremos pelas famias (sic).

Imagem mostra área urbana em encosta. Várias casas simples e muito próximas umas das outras aparecem ao fundo. Na parte inferior da imagem, uma grande quantidade de água barrenta avança com força, carregando lama. Fios elétricos atravessam a cena em primeiro plano. O ambiente parece encoberto por chuva.

Publicações nas redes têm compartilhado como se fossem reais cenas geradas por IA que supostamente mostram o momento em que uma enxurrada provocada por fortes chuvas em Minas Gerais destrói casas em um bairro residencial.

Aos Fatos encontrou a gravação original e constatou que ela foi publicada por um perfil dedicado à produção de conteúdos artificiais que simulam as consequências de eventos climáticos extremos.

Apesar de afirmar na descrição da conta que divulga “a verdade por trás das tempestades que estão mudando tudo” e “imagens que o noticiário esconde”, o criador sinaliza no vídeo que o conteúdo foi gerado sinteticamente.

A análise das imagens também revelou inconsistências típicas de conteúdos criados por IA:

  • A marca d’água da ferramenta usada na produção do vídeo aparece borrada em diferentes momentos;
A imagem é composta por três quadros lado a lado. No primeiro quadro, aparece uma área com várias casas em uma encosta. A parte inferior está coberta por lama em movimento. Há fios passando pela parte superior da cena. No canto superior direito, aparece o timestamp '00:05'. Um círculo branco destaca uma área da lama na parte inferior esquerda do quadro. No segundo quadro, a cena mostra uma ponte elevada ao centro, com casas ao redor. A lama cobre o solo e avança entre as construções. No canto superior direito, aparece o timestamp '00:16'. Um círculo branco destaca uma área próxima ao solo, na parte inferior direita do quadro. No terceiro quadro, aparecem casas próximas umas das outras em uma área inclinada. A lama ocupa grande parte da cena, passando entre as construções. No canto superior direito, aparece o timestamp '00:19'. Um círculo branco destaca uma casa em tom claro na parte superior esquerda do quadro.
  • Um varal cruza os fios elétricos e termina abruptamente, sem qualquer estrutura de sustentação;
A imagem apresenta uma perspectiva em close de um deslizamento de terra ocorrendo em um corredor estreito entre construções. Uma torrente de lama e detritos marrons preenche o espaço central, descendo com força de uma área mais elevada ao fundo. À esquerda, vê-se a parede lateral e a varanda de uma casa de alvenaria cinza. À direita, um varal com peças de roupa escuras está pendurado, permanecendo imóvel enquanto a lama passa logo abaixo. Um círculo branco no centro da imagem destaca um poste de energia ou viga que parece estar inclinado ou sendo atingido pelo fluxo, e que não há um ‘final’ para o varal. Vários fios atravessam a cena de forma desordenada. No canto inferior esquerdo, parte de um telhado de telhas onduladas está parcialmente submerso pela terra. No canto superior direito, o cronômetro marca '00:19'.
  • O contorno da água apresenta borrões, especialmente nos momentos em que a enxurrada atinge as casas, traço típico de conteúdos artificiais;
A imagem apresenta uma perspectiva aproximada e em ângulo diagonal de um deslizamento de terra em uma área urbana. Do lado esquerdo, uma encosta de terra escura com vegetação no topo colapsou, revelando raízes expostas e liberando um grande volume de lama marrom-clara que desce verticalmente. À direita, há uma construção de três pavimentos com paredes de tijolos aparentes nos andares superiores e uma base pintada de azul claro. Um círculo branco no centro da imagem destaca que o ponto onde a lama atinge a parede azul está borrado. No canto superior direito, o marcador de tempo registra '00:15'.
  • O encontro de duas correntes de água não produz respingos nem afeta estruturas próximas;
A imagem apresenta uma vista ampla de uma encosta densamente ocupada por casas de alvenaria durante um deslizamento de terra. O terreno inclinado é tomado por uma grande massa de lama marrom que flui entre as construções, partindo da parte superior direita em direção à base da imagem. No centro e à esquerda, diversas moradias de tijolos expostos e algumas paredes pintadas de azul ou branco estão aglomeradas. Um círculo branco destaca uma área específica no centro inferior, onde as duas vias de lama em movimento se atingem, gerando um efeito visual de desfoque e plastificado. O céu ao fundo está nublado e acinzentado, e a vegetação tropical é visível no topo do morro. No canto superior direito, o marcador de tempo indica '00:48'.
  • Em determinado momento, uma das casas desaba de forma pouco realista, sem deixar destroços ou marcas nas construções vizinhas.
A imagem captura um momento de um desmoronamento em uma encosta ocupada por diversas construções de alvenaria. O cenário é dominado por uma grande massa de terra e detritos de cor marrom-clara que descem pela inclinação, criando um rastro de poeira e movimento que borra parte das edificações. No lado direito e ao fundo, observam-se várias casas sobrepostas, construídas com tijolos aparentes e algumas paredes pintadas em tons de cinza e azul. À esquerda, em destaque por um círculo branco desenhado sobre a imagem, há uma pequena casa de cor azul com telhado cinza que parece estar isolada no caminho do fluxo de terra. Abaixo e à frente dessa casa, nota-se a presença de fios de alta tensão atravessando horizontalmente o campo de visão. Na parte inferior direita, os restos de uma estrutura já colapsada estão parcialmente cobertos pela lama. No canto superior direito da imagem, há um cronômetro digital indicando '00:51'.

O vídeo original, publicado em 2 de fevereiro — antes, portanto, do início das chuvas que atingem municípios mineiros —, soma cerca de 2,3 milhões de visualizações e milhares de comentários, muitos deles de usuários que acreditaram se tratar de uma gravação verdadeira.

O mesmo conteúdo já circulou anteriormente em outros países como se mostrasse enchentes no Marrocos. Nesse caso, o vídeo teve a imagem espelhada — recurso frequentemente usado para dificultar buscas e, consequentemente, a verificação da origem do conteúdo.

Nesta semana, municípios da Zona da Mata de Minas Gerais, como Juiz de Fora e Ubá, foram atingidos por tempestades, que deixaram ao menos 40 mortos. As chuvas causaram desabamentos e deixaram centenas de desabrigados.

Aos Fatos já desmentiu diversas publicações que usam vídeos gerados por inteligência artificial para simular eventos climáticos extremos e seus impactos.

Em novembro de 2025, por exemplo, dias após um tornado atingir a cidade de Rio Bonito do Iguaçu (PR), passaram a circular imagens geradas por IA que simulavam a passagem do tornado e danos às cidades. As publicações falsas somavam milhões de visualizações.

O caminho da apuração

Aos Fatos realizou buscas reversas de diferentes frames do vídeo e identificou a publicação original em um perfil especializado na criação de conteúdos gerados por inteligência artificial.

Em seguida, a reportagem analisou a gravação e encontrou inconsistências visuais características de materiais sintéticos, como elementos sem sustentação, movimentos incoerentes e a presença de marca d’água borrada.

Em meio à busca, também foi constatado que o mesmo vídeo já havia circulado anteriormente em outros países com alegações falsas sobre enchentes.

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