Resultado negativo em teste de anticorpos não prova que CoronaVac é ineficaz

Por Marco Faustino

16 de julho de 2021, 11h13

Não é possível provar por meio de exame sorológico que a vacina CoronaVac é ineficaz contra a Covid-19, como alega o médico Delano Santiago Pacheco em vídeo nas redes sociais (veja aqui). O teste, que serve para identificar se alguém foi infectado pelo novo coronavírus, não é capaz de medir a proteção gerada pelas vacinas porque ignora alguns dos anticorpos produzidos pelo corpo humano após a imunização.

Em outro vídeo, o médico voltou atrás e afirmou que o exame que fez, sozinho, não pode atestar ausência de imunidade. Ainda assim, a gravação desinformativa segue no ar e reunia ao menos 2.810 compartilhamentos no Facebook nesta sexta-feira (16), tendo sido marcada como FALSO na ferramenta de verificação ‌(‌saiba‌ ‌como‌ ‌funciona‌).


Eu não tenho anticorpos contra o vírus mesmo tendo sido vacinado, tá aqui a prova

Em vídeo publicado no no Facebook em 12 de julho, o médico Delano Santiago Pacheco engana ao dizer que o diagnóstico negativo de um exame sorológico que fez provaria que a CoronaVac não gera imunidade contra a Covid-19. Este tipo de exame não é capaz de medir o nível de proteção garantida por vacinas, pois mede apenas a quantidade de anticorpos neutralizantes, que representam só parte do sistema imunológico humano.

O exame mostrado pelo médico é um teste sorológico que pesquisa se há anticorpos capazes de impedir a entrada do novo coronavírus (Sars-CoV-2) na célula humana — os chamados “anticorpos neutralizantes” — evitando a replicação viral e o adoecimento. Ele é indicado para quem acredita ter entrado em contato com o vírus nos últimos 21 dias.

O teste, entretanto, é incapaz de medir toda a imunidade celular do corpo humano a uma doença. “Os anticorpos neutralizantes são apenas uma parte dos anticorpos produzidos pelo sistema imune, não correspondem a toda a resposta imune”, afirma a imunologista Letícia Sarturi ao Aos Fatos. Inclusive, o exame pode resultar negativo ou indeterminado em pessoas vacinadas, o que não significa que essas pessoas não estejam imunizadas.

A SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Instituto Butantan (confira aqui e aqui) também ressaltam que o exame sorológico não serve para avaliar o nível de imunidade de vacinados.

As vacinas contra a Covid-19 não impedem que uma pessoa seja infectada pelo vírus Sars-CoV-2, mas reduzem o risco de adoecimento e de evolução da doença para casos graves. Quando aplicados em larga escala, os imunizantes diminuem a circulação do vírus, ou seja, a chance de uma pessoa ser infectada também cai à medida que mais pessoas são vacinadas, como demonstram estudos em Serrana (SP) e no Chile.

De acordo com o Instituto Butantan, a CoronaVac tem uma eficácia global – probabilidade de uma pessoa vacinada não adoecer – de 50,7% e reduz em 83,7% as chances de uma pessoa desenvolver um quadro da doença que necessite de assistência hospitalar. Para isso, é necessário que o indivíduo tome duas doses do imunizante.

Procurado por Aos Fatos, Delano Santiago Pacheco não retornou o contato. Em outro vídeo publicado no Facebook nesta semana, ele mudou o tom e afirmou que o teste de anticorpos neutralizantes, sozinho, não pode ser levado em consideração para dizer que uma pessoa não está imune. O médico também lembrou que o corpo humano tem outros mecanismos de defesa, mas que não há exames para detectá-los.

Referências:

1. YouTube
2. Laboratório Fleury
3. SBIm (Fontes 1 e 2)
4. Anvisa
5. G1
6. NEJM
7. medRxiv
8. Aos Fatos
9. Facebook


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