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Reportagem sobre apoio de Bolsonaro a protestos não usou vídeo de 2015

Por Bruno Fávero e Luiz Fernando Menezes

28 de fevereiro de 2020, 18h48

Não é verdade que a jornalista Vera Magalhães tirou de contexto um vídeo de 2015 ao noticiar que o presidente Jair Bolsonaro convocou aliados para um protesto anti-Congresso neste ano, como afirmam postagens em redes sociais (veja aqui). O material publicado pela repórter do Estado de S. Paulo traz referências a fatos mais recentes, como a facada sofrida por Bolsonaro quando era candidato, em 2018, e sua atuação no governo, que só começou em janeiro de 2019. É impossível, portanto, que o vídeo seja de 2015.

A desinformação circula ao menos desde quinta-feira (27) em perfis de redes sociais e sites bolsonaristas. No mesmo dia, o presidente também a reproduziu em transmissão ao vivo pelo Facebook.

Vera Magalhães tem sido assediada e atacada por apoiadores do governo desde terça-feira (25), quando mostrou em reportagem que Bolsonaro encaminhou pelo WhatsApp a aliados vídeos de apoio a um protesto hostil ao Congresso marcado para o próximo 15 de março.

Publicações no Facebook que trazem a informação falsa sobre o ano de origem do vídeo acumulavam ao menos 7.500 compartilhamentos até a tarde desta sexta-feira (28) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Circulam nas redes sociais textos acusando a jornalista Vera Magalhães, do Estadão, de tirar de contexto um vídeo de 2015 ao noticiar que o presidente Jair Bolsonaro manifestou apoio aos protestos contra o Congresso que acontecerão em março. Na verdade, o material compartilhado por ela –e que, segundo sua reportagem, Bolsonaro encaminhou a aliados por WhatsApp– menciona fatos que aconteceram em 2018 e 2019. É impossível, portanto, que seja de 2015.

Segundo as postagens, que têm circulado pelo menos desde quinta-feira (27), os dois vídeos mostrados na reportagem de Magalhães teriam sido produzidos em 2015 em apoio aos protestos a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e repassados por Bolsonaro na mesma época. Ou seja, não teriam relação com as manifestações do próximo dia 15.

Ambos, contudo, fazem referência a acontecimentos mais recentes. Um deles, por exemplo, mostra Bolsonaro no hospital, se recuperando da facada que levou em 2018. Outro reproduz uma foto da posse presidencial, que ocorreu em janeiro de 2019.

O próprio presidente repetiu a acusação infundada contra a jornalista durante uma live do Facebook na quinta. "Você [Vera] teria recebido um vídeo, eu pedindo, sim, o apoio para manifestação de 15 de março de 2015! Então, esse vídeo deve tá rodando por aí, vou botar no meu Facebook daqui a pouco, é um vídeo que eu peço o comparecimento na manifestação de 15 de março de 2015, que, por coincidência, foi num domingo", disse o presidente.

Resumo. O caso começou na terça-feira (25), quando Vera Magalhães publicou uma reportagem mostrando que presidente encaminhou, de seu celular pessoal, dois vídeos de apoio às manifestações marcadas para o dia 15 de março, que são respaldadas por grupos de extrema-direita e explicitamente hostis ao Congresso.

Em um dos vídeos, que, segundo a reportagem, foi compartilhado pelo presidente no WhatsApp, imagens da facada sofrida por Bolsonaro e de seu primeiro ano de governo são acompanhadas da mensagem:

“Ele foi chamado a lutar por nós. Ele comprou briga por nós. Ele desafiou os poderosos por nós. Ele quase morreu por nós. Ele está enfrentando a esquerda corrupta e sanguinária por nós. Ele sofre calúnias e mentiras por fazer o melhor para nós. Ele é a nossa única esperança de dias cada vez melhores. Ele precisa do nosso apoio nas ruas. Dia 15/03 vamos mostrar a força da família brasileira. Vamos mostrar que apoiamos Bolsonaro e rejeitamos os inimigos do Brasil. Somos sim capazes e temos um presidente trabalhador, cristão, patriota, capaz, justo, incorruptível. Dia 15/03 todos nas ruas apoiando Bolsonaro”.

No print do aplicativo de mensagens obtido por Vera Magalhães, o vídeo é acompanhado de uma mensagem do próprio presidente: “15 de março. Gen Heleno/Cap Bolsonaro. O Brasil é nosso. Não dos políticos de sempre”.

Logo após a publicação da reportagem, o ex-deputado federal Alberto Fraga confirmou à Folha de S.Paulo que recebeu do WhatsApp do presidente o vídeo que convoca a população para a manifestação. Por meio de seu perfil no Twitter, no entanto, o ex-parlamentar negou que tenha feito tal confirmação: “em momento algum confirmei o recebimento do vídeo citado pela reportagem do Estadão no dia 25 pelo Bolsonaro. Recebi um vídeo no dia 22 sobre a manifestação e que não existe nenhuma palavra, frase ou qualquer incentivo de comparecimento no dia 15".

No dia seguinte à reportagem de Magalhães, o presidente Jair Bolsonaro publicou um texto em suas redes sociais em que aparentava confirmar o envio dos vídeos. Na mensagem, ele dizia que seu perfil no WhatsApp possui uma “dezena de amigos” com os quais há troca de mensagens de cunho pessoal.

Na quinta-feira (27), em transmissão ao vivo pelo Facebook, ele negou o envio das mensagens e sugeriu que Vera Magalhães teria usado, fora de contexto, um vídeo feito em 2015.

Referências:

1. BR Político
2. Folha de S.Paulo

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