Relatos em sistema do governo americano não provam que vacinas causaram mortes

Por Priscila Pacheco

14 de janeiro de 2022, 13h24

É falso que as vacinas contra Covid-19 já provocaram 10.616 mortes, como é dito em um vídeo nas redes sociais (veja aqui). Este número foi extraído de uma plataforma do governo americano que permite a inclusão de notificações de efeitos adversos dos imunizantes voluntariamente e sem que sejam verificados previamente. De acordo com os próprios órgãos que mantêm o sistema, os dados expostos ali podem estar enviesados e seu uso em avaliações científicas é bastante limitado.

Na gravação, o comunicador gaúcho Fernando Conrado cita ainda dois estudos feitos de maneira distinta e que não podem ser comparados ao alegar que vacinas aumentam o risco de miocardite. Ele engana também ao dizer que os imunizantes não foram testados, já que os fármacos em uso no Brasil passaram por todas as fases de análise.

As postagens com o vídeo enganoso contam com centenas de compartilhamentos no Facebook nesta sexta-feira (14).


Selo falso

...10.616 [mortes] foram com a vacina da Covid.

O número citado está no Vaers (Vaccine Adverse Event Reporting System), sistema de notificação de eventos adversos de vacinas dos EUA. Entretanto, essa base de dados contém informações fornecidas voluntariamente e não verificadas por profissionais da saúde. Logo, o número não pode ser tratado como uma estatística fidedigna de mortes em razão de imunizantes.

Segundo o CDC (Centers for Disease Control and Prevention, órgão do governo dos EUA) e a FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora americana), que mantêm a plataforma, “os relatórios do Vaers por si só não podem ser usados ​​para determinar se uma vacina causou ou contribuiu para um evento adverso ou doença”. Isso porque o sistema pode “conter informações incompletas, imprecisas, coincidentes ou não verificáveis”.

Ainda de acordo com os órgãos, como a maioria dos relatos enviados ao Vaers é voluntária, os dados “estão sujeitos a vieses”, o que “cria limitações específicas sobre como os dados podem ser usados ​​cientificamente”. Este aviso aparece logo que a plataforma é acessada.

O Vaers contém dados de relatórios sobre efeitos adversos de vacinas recebidos desde 1990. Segundo a FDA informou ao Aos Fatos, o sistema é usado para “testar hipóteses” e que, quando um alerta de segurança sobre um medicamento é emitido, podem ser feitos estudos de monitoramento usando critérios científicos rigorosos.

Até o momento, não foi confirmada relação entre as mortes relatadas e a aplicação dos imunizantes. “Isso pode ocorrer porque o diagnóstico não está correto, os registros médicos revelam que os sintomas começaram antes da vacinação ou o paciente tem condições médicas subjacentes que explicam o evento adverso”, diz a FDA.

A FDA ressaltou ainda que o monitoramento da segurança das vacinas contra Covid-19 é mais rigoroso – os fabricantes e profissionais da saúde são obrigados a relatar qualquer episódio grave, mesmo sem a comprovação de que a causa foi a vacinação. O incentivo também se estende a pessoas imunizadas, seus pais e cuidadores. Segundo a autoridade americana, essa seria a razão para o número alto de notificações.


Selo falso

É um estudo da National Library Medicine. Dentro dele, cara, nós temos, olha só, a ocorrência de miocardite na infância. Um estudo nacional da Finlândia, tá? Quais foram os dados que esses caras chegaram num estudo sobre a miocardite? Estou só mostrando qual é o número normal de miocardite numa população. O número normal, cara, de miocardite numa população é exatamente esse. São 1.9 pessoas. Quase duas pessoas para cem mil habitantes. Vocês estão vendo? E 77% homens. Tá? A média mundial. 1.95 para cem mil habitantes. Tem outro estudo, cara, em Hong Kong, que foram estudar exatamente a miocardite aguda e a pericardite em Hong Kong nos adolescentes depois de tomarem a vacina. Depois de tomarem a vacina. Olha o número que a gente tem aqui cara. Olha o número que a gente tem aqui. A incidência passa para 18.50.

A comparação entre os estudos é enganosa, porque as pesquisas citadas foram feitas com métodos e em condições diferentes, o que não permite estabelecer uma relação entre elas.

O primeiro estudo foi publicado em 2017 e avaliou casos de internação de pessoas de 0 a 15 anos de idade na Finlândia, com miocardite registrada entre 2004 e 2014. O segundo é de Hong Kong e avaliou casos suspeitos de miocardite e pericardite até 14 dias após a vacinação com o imunizante da Pfizer. Foram incluídos adolescentes de 12 a 17 anos de idade, de junho a setembro de 2021.

Seleno Glauber Silva, mestre e doutorando em ciências pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que a comparação não seria possível pois as faixas etárias avaliadas nos estudos são distintas e a incidência de miocardite é maior em pessoas mais velhas.

A base de avaliação também é diferente, aponta Silva. Enquanto o estudo finlandês usa a taxa de incidência de ocorrência de miocardite por 100 mil pessoas por ano, o estudo chinês utiliza casos de miocardite/pericardite por 100 mil doses aplicadas.

A miocardite é a inflamação do músculo cardíaco, e a pericardite é a inflamação do revestimento externo do coração. A bula da vacina da Pfizer cita ambas como eventos adversos “muito raros”, que normalmente são casos leves e de rápida recuperação. A bula não cita que essas enfermidades foram causadas pelos imunizantes, mas que foram “relatadas após a vacinação”. A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) ressalta que o risco de desenvolver miocardite devido à Covid-19 é 20 vezes maior do que após a vacinação.


Selo falso

Ainda mais uma vacina aí, como as pessoas sabem, ainda que não foi plenamente testada. Muito menos em criança e que tem toda uma capacidade aí de alteração e mudanças e ataque no RNA.

Não é verdade que a vacina da Pfizer, a única até o momento autorizada pela Anvisa para ser aplicada em crianças a partir de cinco anos, não foi plenamente testada. O imunizante passou por pesquisas de fases 1, 2 e 3 tanto para ser aplicada em adultos quanto em adolescentes e crianças, conforme indica a bula. Os documentos que comprovam a eficácia e segurança do imunizante foram enviados para a Anvisa no pedido de autorização.

De acordo com a Pfizer e a Biontech, as fabricantes do imunizante, um ensaio clínico randomizado e controlado de fases 2 e 3 com 4.500 crianças de 5 a 12 anos de idade indicou segurança, respostas imunes e uma taxa de eficácia de 90,7% em participantes sem infecção prévia de Sars-CoV-2 a partir de sete dias após a segunda dose.

Essa pesquisa também embasou a autorização do uso do imunizante em crianças pela EMA (European Medicines Agency), da União Europeia, onde a campanha de vacinação infantil começou no dia 15 de dezembro de 2021. A aprovação do imunizante nos Estados Unidos também considerou a segurança avaliada em um estudo que contou com aproximadamente 3.100 crianças de 5 a 11 anos. No momento, a Pfizer conduz pesquisas para testar segurança e eficácia das vacinas em crianças a partir de 6 meses de idade.

Conrado também engana ao dizer que a vacina ataca o RNA. As células possuem três tipos de RNA: o mensageiro, o transportador e o ribossômico. Vacinas como a da Pfizer têm um RNA mensageiro sintético.

Ao entrar nas células, esse RNA interage com ribossomos, elementos celulares que contém o RNA ribossômico, para transcrever proteínas e criar o antígeno, explica o imunologista Gustavo Cabral, líder de pesquisa em vacinas no ICB/USP (Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo). Em outra ocasião, Aos Fatos checou que tais vacinas são incapazes de alterar o código genético humano.

Outro lado. O Aos Fatos entrou em contato com Fernando Conrado para que ele pudesse comentar a checagem, mas não recebeu retorno até a publicação da reportagem.

Referências:

1. CDC
2. AHA Journals
3. Academic OUP
4. Pfizer (Fontes 1 e 2)
5. SBP
6. Anvisa (Fontes 1 e 2)
7. Biontech
8. EMA
9. FDA
10. Reuters
11. Aos Fatos


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