🕐 ESTA REPORTAGEM FOI PUBLICADA EM Janeiro de 2021. INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE TEXTO PODEM ESTAR DESATUALIZADAS OU TEREM MUDADO.

Redes bolsonaristas citam protestos antirracismo para minimizar invasão ao Congresso dos EUA

Por Bernardo Barbosa, Débora Ely, João Barbosa, Milena Mangabeira e Bruno Fávero

8 de janeiro de 2021, 19h24

Perfis de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro usaram as redes sociais nos últimos dias para minimizar a invasão do Capitólio americano por manifestantes pró-Donald Trump, na quarta-feira (6). Para isso, recorreram a desinformação sobre supostas fraudes eleitorais e acusaram, sem provas, movimentos antifascistas e antirracistas de estarem por trás dos atos violentos, mostra análise do Radar Aos Fatos.

A insurreição dos apoiadores do presidente americano visava reverter o resultado das eleições e impedir a certificação do mandatário eleito, Joe Biden. Ao menos cinco pessoas morreram no tumulto.

O Radar analisou como perfis brasileiros no Twitter e no Facebook reagiram ao episódio e identificou que, na primeira rede social, bolsonaristas foram minoritários no debate (respondem por 14% dos perfis que falaram sobre o tema no Twitter), mas barulhentos (somaram quase 30% dos retweets).

E, embora poucos tenham declarado apoio explícito aos atos violentos, tampouco os condenaram. Das 200 mensagens mais populares publicadas pela rede bolsonarista no Twitter, 47 (23,5%) tentaram relativizar o ataque ao parlamento americano ao compará-lo com protestos dos movimentos Black Lives Matter e Antifa.

Segundo o argumento mais recorrente entre esses apoiadores do presidente brasileiro, as manifestações à esquerda teriam sido mais violentas e, ainda assim, não receberam críticas de autoridades e da imprensa.

Nesse universo, a publicação de maior engajamento foi uma resposta de uma usuária à mensagem do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Luís Roberto Barroso, condenando a ocupação do Capitólio. Além de sugerir que o movimento Black Lives Matter é fascista, ela também compartilhou a denúncia infundada de que houve fraude nas eleições norte-americanas, já desmentida pelo Aos Fatos.

Desinformação. Dos 200 tweets do campo bolsonarista analisados, 57 (28,5%) apresentaram algum tipo de desinformação. A alegação mais comum (presente em 30 posts) foi a de que “esquerdistas” ou "antifas" (antifascistas) teriam se infiltrado no ato e seriam responsáveis pela violência na invasão do Capitólio. Como o Aos Fatos mostrou, alegações falsas similares circularam nos últimos dias. Outras 20 publicações voltaram a afirmar que houve fraude em massa nas eleições presidenciais americanas realizadas em novembro.

Apesar de ter perdido na Justiça nas diversas ocasiões em que tentou provar que a vitória de Biden foi irregular, Trump continua sustentando que houve fraude. A repetição das alegações falsas sobre o resultado do pleito, assim como a interpretação de que Trump estaria incitando a violência na invasão do Capitólio, levou empresas de tecnologia a suspenderem as contas do presidente americano em suas plataformas.

Facebook. Uma análise dos cem posts mais compartilhados sobre o assunto no Facebook mostra um cenário parecido com o do Twitter, em que o apoio ou a minimização da invasão no Capitólio são minoritários (10% do total de publicações) e restritos ao círculo bolsonarista.

Nesses casos, também aparecem referências críticas ao movimento Black Lives Matter e à morte da veterana da aeronáutica Ashli Babbit, que participou da invasão e levou um tiro no pescoço, como na publicação do deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ):

Uma parcela maior (39%) das publicações mais populares condenou o ato, e parte desse universo culpou Donald Trump pelo desfecho violento (25% do total analisado). Outros (9%) usaram o episódio para criticar Jair Bolsonaro, que é próximo do presidente americano.

Os grupos em debate. Para entender como se deu o debate sobre a invasão do Capitólio no Twitter, a reportagem capturou postagens de 102.963 perfis que continham termos relacionados ao episódio publicadas até quinta-feira (7). Em seguida, usou uma técnica chamada análise de modularidade, que divide um universo de usuários em grupos de acordo com o nível de interação entre eles (usuários que se retweetam muito, por exemplo, tendem a ficar no mesmo grupo).

O gráfico acima ilustra essa classificação automática. A maior dessas redes, representada pela cor laranja, reuniu atores políticos de esquerda, intelectuais e parte da imprensa brasileira. Esse segmento respondeu por 30,6% dos perfis e 30,8% das interações da amostra.

A análise dos 50 posts com mais interações (curtidas e retweets) neste grupo mostrou que seus integrantes classificaram a invasão como uma tentativa de golpe de Estado orquestrada por Trump (54% dos tweets analisados). Também houve críticas à polícia (12%), principalmente pela comparação com a postura das forças de segurança diante dos manifestantes do movimento Black Lives Matter.

Entre os 50 tweets com mais engajamento no grupo, destacaram-se publicações de nomes como Guilherme Boulos, que disputou a Prefeitura de São Paulo pelo PSOL; do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); do professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) Silvio Almeida; do youtuber Felipe Neto; e do presidente da Cufa (Central Única de Favelas), Preto Zezé.

Apesar de a rede bolsonarista, mostrada na cor verde, ter bem menos perfis do que a laranja (17,5% contra 30,6%), os dois grupos quase se igualam quando se trata da proporção de interações obtidas: o "cluster" verde teve 28,44% das interações da amostra, contra 30,8% do laranja. Ou seja: embora menos numerosos, os perfis da rede bolsonarista conseguiram um engajamento muito próximo de um grupo com quase o dobro da quantidade de usuários.

Os outros três grupos tiveram quantidades similares de perfis e interações; cada um obteve aproximadamente 12% dos perfis e 7% das interações da amostra. A rede identificada na cor marrom foi marcada pelo uso do humor, do sarcasmo e da ironia para comentar a invasão do Capitólio. Entre os 50 tweets com mais engajamento nesta rede, o humor foi usado para criticar a ação da polícia diante dos militantes pró-Trump na comparação com a postura frente aos manifestantes do movimento Black Lives Matter, assim como para ironizar uma suposta tentativa de golpe de Estado nos EUA.

A rede azul se conformou em torno do perfil do advogado e professor Thiago Amparo. Apesar de este grupo ter praticamente a mesma quantidade de usuários que os grupos marrom e preto, o nome de Amparo se sobressaiu porque seu perfil respondeu por 95% das interações da rede. Em seu tweet mais popular no universo analisado, o acadêmico classificou como “privilégio branco” a abordagem policial diante dos invasores do Congresso dos EUA.

Já a rede exibida na cor preta não teve as interações concentradas em poucos perfis, e, por isso, ela aparece menor no grafo apesar de ter um volume de usuários e interações similar às redes marrom e azul. O grupo preto misturou ativistas de esquerda, jornalistas, perfis de humor e artistas. Entre os 50 tweets que mais obtiveram interações nesta rede, o tom geral foi de crítica à invasão do Congresso e de ironia ao tratamento dado pela polícia americana aos invasores. A presença de neonazistas entre os militantes também foi destacada.

Outro lado. O Aos Fatos tentou contato com o deputado Otoni de Paula, citado na reportagem, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Referências:
1. Folha de S. Paulo
2. Aos Fatos (1, 2)
3. UOL

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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