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Reconduzido à liderança do PMDB, Picciani é tão infiel ao governo quanto seu opositor

22 de fevereiro de 2016, 03h55

Depois da vitória do deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ) para a liderança do partido na Câmara, o presidente da Casa, Eduardo Cunha, afirmou na última quarta-feira (17) que a derrota de seu apadrinhado para o cargo não significava seu fracasso. Segundo Cunha, o deputado Hugo Motta (PB), adversário de Picciani na contenda, é mais governista que o próprio.

Para saber se essa afirmação se sustenta, Aos Fatos investigou o comportamento de ambos nas votações mais importantes para o governo na Câmara desde o ano passado. Comprovou, então, que os deputados votaram de maneira semelhante em todas as ocasiões. No entanto, Motta se movimenta, desde 2014, na órbita do senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), que, por sua vez, é próximo do senador Aécio Neves (PSDB-SP) e apoiador do impeachment de Dilma. Veja, abaixo, o que checamos.


FALSO
Hugo Motta é até mais defensor do governo que o próprio Picciani, porque ele votou na Dilma e sempre com o governo aqui.

É um exagero dizer que Motta é "mais defensor do governo" que Picciani por um motivo: de nove votações em plenário analisadas por Aos Fatos, ambos contrariaram o Planalto em cinco oportunidades e só votaram a favor do governo se houvesse orientação do PMDB — e, em particular, de Cunha. Ou seja, neste sentido, não há diferença objetiva entre ambos.

No quadro abaixo, é possível ver o comportamento dos dois deputados nas nove ocasiões em questão. As votações foram selecionadas por Aos Fatos de acordo com a importância dada à época pelo governo — seja por meio de falas da presidente Dilma Rousseff a favor (ou contra) os projetos, seja pelo engajamento público de seus ministros.

O levantamento mostra que apenas nas votações das medidas provisórias do ajuste fiscal, no fim do primeiro semestre de 2015, Picciani votou com o Planalto. Nas demais, junto com o colega de bancada, votou contra a orientação do governo.

Fonte: Câmara dos Deputados

É verdade, porém, que a maioria das votações enumeradas acima aconteceram no primeiro semestre do ano passado, quando o clima entre a Câmara e o Planalto — e, particularmente, entre Dilma e Cunha — já estava conflagrado. Picciani só ganhou ascendência sobre a bancada peemedebista e se descolou do presidente da Câmara quando este último entrou oficialmente em rota de colisão com o governo. Antes, votava junto com ele.

Conforme Aos Fatos já mostrou, Cunha perdeu influência sobre parte dos deputados a partir do momento em que o lobista João Augusto Rezende Henriques afirmou ter feito depósitos numa conta no exterior em seu favor. Isso foi no fim de setembro.

Desde então, o peemedebista deflagrou a análise do pedido de impeachment de Dilma na comissão especial da Câmara, virou alvo de apuração no Conselho de Ética da Casa em decorrência dessas suspeitas e, devido à crise instalada, diminuiu o ritmo de análise de projetos em plenário.

Mesmo com crescente interlocução com o Planalto, Picciani votou em agosto a favor da redução da maioridade penal e contra o fim do financiamento privado de campanha, em dois movimentos hostis ao governo. Apenas no fim de dezembro, já reconduzido ao cargo de líder do PMDB após ser apeado pela ala de oposição ao Planalto, trabalhou para a aprovação do projeto que regulariza remessas de dinheiro enviado por brasileiros ao exterior sem declaração à Receita Federal. Nessa ocasião, Motta se ausentou.

Já o deputado paraibano, nem mais ou menos fiel a Dilma do que o colega fluminense, não é exatamente um governista. Mesmo que o PMDB da Paraíba tenha apoiado a petista durante a campanha presidencial passada — e que ele tenha posado em fotos e peças publicitárias acompanhado da então candidata à reeleição — Motta declarou publicamente em 2014 apoio ao tucano Cássio Cunha Lima na corrida pelo governo do Estado, conforme nota publicada em sua página no Facebook. Cássio, por sua vez, é próximo de Aécio e notório apoiador do impeachment de Dilma.

Além disso, uma série de matérias da imprensa paraibana aponta que, às vésperas das eleições de 2014, Motta tentou costurar uma aliança entre o PMDB e o PSDB locais. "Se o PSDB vier votar na gente, votaríamos em Aécio Neves sem dificuldades. Queremos a aliança com Dilma, mas é preciso que os dois queiram", disse à época.

De qualquer modo, ainda que Cunha esteja certo e que o flerte tucano de Motta tenha sido interrompido em benefício de Dilma, é impossível checar em quem o deputado de fato votou para presidente.

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