Quinto episódio de Ctrl+Fake aborda aliança entre extrema direita e big techs

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Os principais executivos das big techs ocuparam as primeiras fileiras durante a posse presidencial de Donald Trump em 2025, escancarando uma aliança guiada por interesses econômicos que vinha sendo construída nos bastidores há muito tempo. O quinto e último episódio da série documental Ctrl+Fake, “Fatos artificiais, futuros sintéticos”, investiga o que esse pacto significa para o futuro da regulação digital.

O episódio examina como executivos de empresas como Meta, Google e X articularam estratégias para influenciar o debate público e resistir a marcos regulatórios ao redor do mundo. Sob o pretexto de defender a liberdade de expressão, essas empresas passaram a atuar diretamente contra iniciativas legislativas em diferentes países, inclusive no Brasil, onde projetos como o “PL das Fake News” e o Marco Legal da IA enfrentam resistência direta.

O episódio também reconstrói o caso do tarifaço americano contra o Brasil, apresentado inicialmente como resposta a uma suposta perseguição judicial contra a direita promovida pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Mais tarde, o conflito se revelou como uma disputa comercial e geopolítica que ia muito além da família Bolsonaro.

Tai Nalon, diretora executiva do Aos Fatos e apresentadora da série, discute ainda o cenário regulatório global, da revisão do artigo 19 do Marco Civil da Internet no Brasil à Lei de Serviços Digitais da União Europeia, abordando a disputa por minerais críticos e a corrida pela primazia da inteligência artificial.

Confira a transcrição completa do episódio, feita com o Escriba:

Introdução

Tai Nalon:

Agora nós vamos voltar para o começo.

Essa imagem já apareceu no primeiro episódio da série. São os principais donos e executivos das big techs na posse de Donald Trump em janeiro de 2025.

Você já sabe que aquele momento foi importante. Escancarou-se ali o alinhamento dos interesses das grandes plataformas de tecnologia a um presidente que retornava à Casa Branca com uma pauta ainda mais radical do que no seu primeiro mandato.

Ficou claro que essas empresas já não se sentiam desconfortáveis com a perspectiva de serem julgadas como conservadoras, liberais, socialistas ou comunistas. Pelo contrário, elas demonstraram ser, acima de tudo, pragmáticas.

Donald Trump:

“Acabamos com a tirania das políticas de diversidade, equidade e inclusão em todo o governo federal, no setor privado e nas nossas Forças Armadas. Nosso país não será mais woke.”

Tai Nalon:

Seja no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos, o interesse dessas plataformas é — grande novidade — maximizar lucros e minimizar o risco de multas, como as aplicadas na década passada.

A pauta da liberdade de expressão virou um fantoche para a violação de direitos constitucionais e para a interferência em processos legislativos, como no Brasil.

Este é o Ctrl+Fake. Neste episódio final, vamos falar das ligações entre executivos de plataformas digitais e a geopolítica.

Capítulo 1: Viciados nos próprios produtos

Jimmy Fallon:

“E você usa o ChatGPT para cuidar do seu bebê?”

Sam Altman:

“Eu não consigo imaginar como criar um bebê sem o ChatGPT. Claro que as pessoas fizeram isso por muito tempo, sem problemas...”

Tai Nalon:

Se até a eleição de Trump as empresas ainda se importavam em demonstrar alguma preocupação com os problemas sociais que causavam, esse verniz se desfez completamente após sua reeleição em 2024.

A aliança entre o presidente americano e as principais figuras do Vale do Silício ficou óbvia em público, mas foi construída primeiro nos bastidores.

Houve um longo caminho até Elon Musk despejar centenas de milhões de dólares na campanha presidencial e, após a vitória, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e companhia se derreterem em elogios ao presidente eleito.

Mark Zuckerberg:

“...Donald Trump se levantar depois de levar um tiro no rosto e erguer os punhos, com a bandeira americana, é uma das coisas mais duronas que eu já vi na vida.”

Tai Nalon:

E é verdade que o hábito das big techs de fazer doações às campanhas presidenciais antecede Trump. O ex-presidente Obama recebeu doações. Hillary também, assim como Joe Biden. A questão é que agora a coisa ficou diferente.

Grupos secretos no Signal e no WhatsApp passaram a reunir os mais influentes investidores de empresas de tecnologia nos Estados Unidos, conforme revelou o site Semafor no início de 2025.

As informações foram confirmadas por participantes desses grupos.

Nas conversas, magnatas de empresas de tecnologia combinavam estratégias para influenciar o debate público de acordo com seus interesses e divulgavam teorias da conspiração.

A convergência entre esses dois mundos, o da extrema direita populista e o dos líderes das big techs, se explica, em parte, pelas características dos personagens.

A análise é do sociólogo italiano Giuliano da Empoli. Ele explica que, assim como líderes que chama de “nacionalistas populistas”, citando no Trump, Bolsonaro e Javier Milley, os magnatas da tecnologia são quase sempre personagens excêntricos que tiveram que quebrar as regras para chegar ao topo.

E regra, agora, é “woke”.

Donald Trump:

“Woke. Woke. Woke. Woke.”

Tai Nalon:

Para permanecerem incógnitos e darem certo ar de naturalidade à mudança de curso ideológico das suas corporações, esses executivos usavam grupos de mensagens do Signal, aplicativo que dá ênfase à proteção de dados e à privacidade, ao contrário daqueles criados por eles e usados em massa ao redor do mundo.

A origem desses chats também ajuda a explicar a simbiose entre as visões de quem controla as big techs e de quem tira proveito do uso político delas. O que ocorre agora é que a máscara de muitos executivos das plataformas caiu.

Ivar Hartmann:

“Cai a máscara no sentido de que não tem nenhuma atuação com base em princípios. Não tem nenhuma decisão em que a Meta, que o TikTok, que o YouTube tomam em função de princípios.”

Tai Nalon:

Quem diz isso é o professor de Direito de Tecnologia do Insper, Ivar Hartmann, em entrevista ao Aos Fatos.

Ivar Hartmann:

“E não tem nada de errado. São empresas com finalidade lucrativa. É só a gente não ser ingênuo de achar que elas vão botar o lucro em segundo lugar.

Também não é dizer: ‘não, então não tem que ser empresa lucrativa, não tem que visar o lucro’. Não, tem, é para isso que serve. A solução é outra. Mas eu acho que é cair em máscara no sentido de, pelo menos, a gente não achar que existe uma cooperação possível, no sentido de se deixar margem para tomada de decisão, a plataforma vai fazer algo que é no interesse dos usuários. Isso não existe.”

Tai Nalon:

As conversas privadas dos executivos das plataformas serviram para difundir desinformação científica sobre a Covid-19 e as vacinas. São falsidades que têm público consolidado até hoje e que nos Estados Unidos viraram política pública sob Trump.

Capítulo 2: Das redes à realidade

Donald Trump:

“Isso é uma fraude contra o povo americano. Isso é uma vergonha para o nosso país. Nós estávamos nos preparando para ganhar essas eleições. Francamente, nós ganhamos essas eleições. Então agora o nosso objetivo é garantir a integridade, para o bem desta nação. Este é um grande momento. Esta é uma grande fraude contra nossa nação.”

Tai Nalon:

Se no primeiro mandato as mentiras de Trump foram frequentemente tratadas como mera distração midiática — a tal da “cortina de fumaça” —, agora a grande ficha parece estar caindo. Não para todos, e o grande problema segue sendo a normalização da mentira. Mas a reeleição do republicano em 2024 transformou a desinformação em matéria-prima das políticas públicas do governo dos Estados Unidos.

Donald Trump:

“A propósito, acho que posso afirmar que existem certos grupos de pessoas que não tomam vacinas nem remédios e não têm autismo. Isso lhe diz alguma coisa?”

Tai Nalon:

Muitas das decisões de Trump encontraram eco no Project 2025, documento elaborado pela fundação conservadora Heritage que propõe medidas baseadas na distorção de conceitos como diversidade, mudança climática, saúde reprodutiva e, pasmem, ela mesma: a “ideologia de gênero”.

Tanto que uma das primeiras ações de Trump ao tomar posse em janeiro de 2025, foi determinar que o governo só reconhecesse dois gêneros: masculino e feminino, e dois sexos: homem e mulher.

Donald Trump:

“Assinei uma ordem que torna política oficial do governo dos Estados Unidos a existência de apenas dois gêneros: masculino e feminino.”

Tai Nalon:

No que talvez seja a ofensiva mais agressiva do governo Trump, os Estados Unidos patrocinam ações violentas da ICE, sua Agência de Imigração e Alfândega. Tudo isso baseado em desinformação e no fantasma sobre o qual falamos lá atrás, no primeiro episódio: o pânico moral.

Um dos pilares da justificativa para operações amplas da ICE é a ideia mentirosa de que imigrantes são majoritariamente criminosos violentos.

Noticiário americano:

“Estamos seguindo o desenvolvimento da história. Milhares de pessoas participaram de uma vigília em Minneapolis durante a madrugada em memória à mulher de 37 anos, uma cidadã americana, que foi assassinada a tiros por um agente federal de imigração em frente a uma multidão de manifestantes ontem.”

“Oficiais federais dizem que foi por defesa pessoal, mas o prefeito descreve como irresponsável e desnecessário. O assassinato desencadeou protestos ao redor do país, incluindo a área da Filadélfia.”

Tai Nalon:

Além disso, apenas nos oito primeiros meses de governo, o presidente americano declarou emergência nacional nove vezes. Guarda Nacional para atuar em cidades governadas por opositores, processou empresas jornalísticas, universidades e escritórios de advocacia e demitiu funcionários públicos em massa.

E é aí que entram num bar Trump, o tarifaço contra o Brasil, a família Bolsonaro, as plataformas digitais e a liberdade de expressão.

Mark Zuckerberg:

“Finalmente, nós vamos trabalhar com o presidente Trump para afastar governos ao redor do mundo que estão indo atrás de empresas americanas, pressionando para mais censura. Os Estados Unidos têm as mais fortes proteções constitucionais para a liberdade de expressão do mundo. Países da América Latina têm cortes secretas que podem obrigar empresas a silenciosamente derrubar as coisas.”

Tai Nalon:

Esse vídeo do Zuckerberg foi publicado em 7 de janeiro de 2025, antes mesmo de Trump tomar posse. Ele dava o tom sobre a ofensiva antirregulatória que as empresas de tecnologia articularam ao longo dos últimos anos e que foi encampada pela campanha republicana.

Nesse caso, o CEO da Meta serviu de porta-voz dos anseios de outros tantos executivos do setor que, sob o pretexto de defender a liberdade de expressão, queriam uma vida mais fácil na Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos e nas várias cortes ao redor do mundo.

Tudo para dizer que, embora o julgamento de Bolsonaro tenha sido usado, a princípio, como justificativa para o tarifaço dos Estados Unidos contra as exportações brasileiras, com o passar do tempo, ficou evidente que os objetivos de Trump iam além do que queriam Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, os principais lobistas da medida.

A retórica inicial de “defesa da democracia” ou de “proteção a aliados políticos” serviu apenas como um verniz para uma política comercial que, desde o primeiro mandato de Trump, tem sido guiada por um amplo projeto de protecionismo estratégico e de reindustrialização forçada dos Estados Unidos. E os interesses comerciais das grandes empresas de tecnologia entram nesse pacote.

Quando aconteceu o anúncio de Trump, a percepção entre os integrantes do governo brasileiro era de que as ações do presidente americano buscavam influenciar as eleições de 2026, o que dependia de duas condições: Bolsonaro concorrer e as plataformas digitais ficarem livres para fazer o que quiserem.

Com o passar do tempo, porém, ficou claro que uma das coisas importava muito mais do que a outra.

Capítulo 3: O Tarifaço e o Julgamento

Donald Trump:

“O Brasil agora enfrenta grandes tarifas em resposta aos seus esforços sem precedentes de interferir nos direitos e liberdades de nossos cidadãos americanos e outros com censura, repressão, instrumentalização, corrupção judicial e perseguição dos críticos à política nos EUA.”

Tai Nalon:

O tarifaço anunciado por Donald Trump contra o Brasil foi apresentado como uma reação econômica, mas logo se revelou parte de um cenário político e informacional mais amplo.

Enquanto setores da indústria e da agricultura brasileira eram afetados, a medida era celebrada por aliados de Jair Bolsonaro como um gesto de apoio político.

Eduardo Bolsonaro:

“E, desde o começo, a nossa ideia foi sancionar o Alexandre de Moraes. E depois, caso isso daí não surtisse efeito, seguir adiante em todas as demais autoridades que dão suporte para esse regime, porque o Alexandre de Moraes não age sozinho, ele age com o amparo de outras autoridades brasileiras.”

Tai Nalon:

Nos bastidores, ele e seus aliados pediam sanções ao Brasil com base na Lei Magnitsky, um dispositivo criado para acuar corruptos e violadores de direitos humanos no exterior, acusando o país de “censura” e “perseguição judicial”.

A Magnitsky, aliás, chegou a ser usada contra Moraes em 2025, mas foi revogada meses depois.

Só que a questão central não era a censura, era tanto livrar os patrocinadores do 8 de Janeiro de condenações que usavam a desinformação como ferramenta golpista, quanto livrar plataformas de sanções por veicularem conteúdos criminosos em suas redes.

Um casamento ideal, baseado numa noção estrangeira de liberdade de expressão.

Eduardo Bolsonaro:

“E assim foi julgado a decisão do STF de regulamentar, fazer um novo modelo, onde o Brasil — talvez talvez até o Xi Jinping esteja com inveja do Brasil, né? — Onde o Brasil criou um novo modelo de censura, onde aqui você responsabiliza a plataforma por aquilo que os usuários postam.

O Trump, ele certamente não quer que isso sirva de modelo para o resto do mundo. O que ele vai fazer? Ele vai usar de tudo que tiver na mesa dele para brecar a exportação do modelo de censura brasileiro.”

Tai Nalon:

Tá, você entendeu que o que para uns é regulação — ou seja, criar regras gerais de funcionamento — para outros é censura?

O que eles omitem nessa história é o que, exatamente, eles pretendem deixar livre na internet.

Nessa entrevista, o Eduardo Bolsonaro se refere especificamente à revisão, feita pelo Supremo ao longo de 2025 após longos debates, do artigo 19 do Marco Civil da Internet, a lei que estabelece os princípios básicos para o funcionamento da internet e dos órgãos públicos e privados que oferecem seus serviços nela.

Sancionado em abril de 2014, o Marco Civil foi criado em um contexto muito diferente do que temos hoje. E, sob inúmeros pretextos, dentre eles a necessidade de estabelecer limites para responsabilização das plataformas digitais por conteúdo golpista nas redes sociais, voltou a ser discutido no STF.

Ivar Hartmann:

“E, certamente, o artigo 19 não serve para isentar a plataforma de qualquer coisa que tenha a ver com o conteúdo do usuário. Ela não servia para isso em 2014, não foi pensada para isso em 2010, 2009, nas primeiras versões, certamente não serve para isso hoje.

Ou seja, se eu pegasse uma postagem de usuário, se o Mark Zuckerberg pegasse uma postagem de usuário, imprimisse lá a postagem, aí colasse a postagem do texto do usuário num porrete e saísse batendo na cabeça das pessoas e depois dizer: ‘não, imunidade, porque isso aqui é o conteúdo postado por usuário’. Não é assim que funciona. Existe um sentido dessa imunidade. E o sentido, claramente, é a publicação, não é qualquer coisa precisa que a plataforma faça com esse conteúdo.

Só que a recomendação não era um fator, ela não existia na época em que foi pensado e aprovado o artigo 19. Agora ela é um fator.

Se o usuário publica e a plataforma depois vai lá e recomenda para alguém aquele conteúdo e depois se descobre que o conteúdo é ilegal, obviamente que a plataforma não tem imunidade sobre o ato de recomendar. E a responsabilidade é objetiva. A plataforma não precisa nem ser notificada. Se ela nunca foi notificada, mas ela pegou um post, um vídeo no YouTube e proativamente recomendou pra alguém, e era um vídeo racista, era um vídeo que tinha desinformação e traz um problema para a saúde pública, não tinha nem que notificar a plataforma, a plataforma é automaticamente responsável.

Isso já ia, sem nenhuma legislação nova, só esse reconhecimento por parte do STF, já iria ser um avanço em relação a melhorar a situação que nós temos hoje, gigantesco. Absolutamente colossal. Só isso. Só essa diferença entre publicação e recomendação.”

Tai Nalon:

Então, basicamente, o que temos é que o Supremo revisou a interpretação de um dispositivo de uma lei já existente que o Congresso se recusou repetidamente a analisar. Não se trata da Câmara ter derrubado uma lei ou reprovado um projeto. Ele sequer chegou a ser colocado em pauta, porque não tinha força para ser aprovado. E porque, na encolha, deputados que se mostravam contra essa iniciativa também têm certo medo da liberdade restrita das redes afetar suas campanhas eleitorais na hora do “vamos ver”.

Então, assim, não é que agora existe uma nova regulação. Na verdade, o que o Judiciário fez foi deixar mais claro que, se determinado conteúdo for crime de acordo com a legislação brasileira, a plataforma pode se tornar responsável.

E eu digo pode porque a gente sabe o que acontece na prática.

Depois de afrouxar suas regras de moderação, a Meta deixou circular nas suas plataformas imagens que sexualizavam adolescentes, mesmo isso sendo contra a lei.

O Aos Fatos teve acesso ao Manual de Moderação da Meta, que é entregue a quem faz esse tipo de serviço para a empresa. O manual orienta os profissionais a não vetar posts que reforçam estereótipos e preconceitos raciais, étnicos, religiosos e contra pessoas com deficiência. Contra a legislação brasileira.

A chinesa ByteDance, dona do TikTok, também distribui vídeos com desinformação e discurso de ódio. Ao permitir, por exemplo, vídeos feitos com o IA, que promovem piadas estigmatizantes contra minorias, a plataforma também viola leis brasileiras que criminalizam discursos racistas e homofóbicos.

O problema é que a defesa dos interesses econômicos dessas plataformas, sob a bandeira norte-americana, torna o restante do mundo um pouco pior também, permitindo que aquilo que surge em redes e aplicativos com moderação precária se espalhe por toda a internet e represente um desafio para as outras plataformas.

Mas o que isso tudo tem a ver com o episódio do tarifaço?

Na verdade, foi durante esse episódio que ficou transparente essa a relação simbiótica entre interesses econômicos estrangeiros e a adesão a pautas totalitárias locais para fazer valer esses interesses.

Mas vamos lembrar só um instantinho como o Brasil se viu enredado nessa defesa fake de liberdade de expressão por parte do governo Trump.

A tentativa de golpe de Estado que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023 teve a desinformação como um dos seus principais pilares. Ela aparece no julgamento de Jair Bolsonaro, condenado pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal pelos atos do 8 de Janeiro, como um elemento central de planejamento e execução da trama golpista.

De acordo com os ministros, a mentira deliberada foi usada para corroer a confiança pública nas instituições, mobilizar apoiadores e preparar o terreno psicológico para a violência.

Durante o julgamento da trama golpista no STF, os ministros enfatizaram que a desinformação antecedeu os atos de violência, forneceu a narrativa legitimadora para os seus participantes e funcionou como cola ideológica da organização criminosa liderada por Jair Bolsonaro.

Alexandre de Moraes:

“O réu Jair Messias Bolsonaro deu sequência a essa estratégia golpista estruturada pela organização criminosa sob a sua liderança para já colocar em dúvida o resultado das futuras eleições, sempre com a finalidade de obstruir o funcionamento da Justiça Eleitoral, atentar contra o Poder Judiciário e garantir a manutenção do seu grupo político no poder, independentemente dos resultados das eleições vindouras.”

Tai Nalon:

A mentira foi usada como arma, planejada e amplificada por grupos organizados, as chamadas “milícias digitais”, e serviu de combustível para os ataques às sedes dos Três Poderes.

Jair Bolsonaro:

“Podemos acreditar nas urnas, se elas não podem ser auditadas, como diz a própria Polícia Federal? Eu tive muito, mas muito mais votos do que os 57 milhões. E só fui eleito exatamente por causa disso.”

“Então mais um indício fortíssimo de fraude. Essa possibilidade que eu tenho falado aqui — não posso comprovar, não posso afirmar — de 12 milhões de votos que já haviam sido acertados com os hackers, por ocasião das eleições de 2018.”

“Esse então é o indício mais forte da probabilidade de o sistema não ser seguro.”

“O voto auditável, para ter a certeza de que em quem o povo votar, vai ser eleito. Como está aí, a fraude está escancarada. E não vai ser só para presidente, não. Vai ser para governador, para senador. Fraude!”

“Se o povo estiver comigo, nós vamos fazer com que a vontade popular seja cumprida.”

Alexandre de Moraes:

“Algum de nós aqui, e o nosso eminente decano, algum de nós permitiria e afirmaria que isso é liberdade de expressão e não crime?”

Tai Nalon:

Agora, vem comigo no replay.

Donald Trump:

“O Brasil agora enfrenta grandes tarifas em resposta aos seus esforços sem precedentes de interferir nos direitos e liberdades de nossos cidadãos americanos e outros, com censura, repressão, instrumentalização, corrupção judicial e perseguição dos críticos à política nos EUA.”

Tai Nalon:

Esse foi o discurso de Trump na Assembleia Geral da ONU em 2025. Ele envelheceu rápido. Uns momentos antes, de improviso, ele relatou um breve encontro com o Lula.

Donald Trump:

“Estou feliz que eu esperei, porque essa coisa não funcionou tão bem. Mas nós tivemos uma boa conversa, e nós concordamos em nos encontrar na próxima semana, se isso for interessante. Mas ele parece um bom homem, na verdade. Ele gostou de mim. Eu gostei dele.”

Tai Nalon:

Havia uma distância clara entre o texto preparado pela diplomacia americana e a boa vontade demonstrada pelo presidente dos Estados Unidos em relação a Lula.

O gesto desmontou a narrativa de que Eduardo Bolsonaro exercia muita influência sobre Washington e que a liberdade de expressão de Jair Bolsonaro ou dos golpistas do 8 de Janeiro tinha qualquer coisa a ver com o tarifaço.

Jair Bolsonaro:

“Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso.”

Tai Nalon:

Dias depois, o Supremo condenou Jair Bolsonaro.

O conflito entre o Brasil e os Estados Unidos diminuiu em intensidade após uma série de decisões do governo Trump revogarem várias das tarifas impostas contra o Brasil. Ao mesmo tempo, por aqui, o governo Lula limitava a pauta de regulação das plataformas ao aumento da responsabilização das empresas de tecnologia pelo conteúdo que violava direitos das crianças e dos adolescentes.

Algo que na teoria já existia, mas como sempre, na prática…

Capítulo 4: Regulação, o cerne da questão

Ministro Dias Toffoli:

“E, na toada do esclarecimento de Vossa Excelência, também agregar que aqui não se trata de nenhum julgamento que diga respeito à censura ou a tolher liberdade de expressão. O que nós estamos aqui a discutir, no meu caso, é se o artigo 19, que estabelece que a responsabilização por dano só surge se houver um descumprimento de decisão judicial, é compatível com a Constituição ou não. Simples assim.”

Tai Nalon:

Tá, mas vamos voltar às big techs nessa história. Elas estiveram aqui o tempo todo e, ao que indica, não vão embora. A pressão regulatória acontece muito em função da dependência que temos em relação aos múltiplos serviços que elas nos oferecem.

Paulo Rená:

“TV, relógio, todas as nossas formas de interação estão atravessadas pela internet hoje. A lâmpada está conectada. E a TV, agora, você pode cada vez mais interagir pela TV, também pela internet.

Então, quando a gente não tem essas exigências regulatórias, seja na estrutura das empresas — o Google é uma empresa de navegação, é uma empresa que faz a busca, é uma empresa que faz videochamada, é uma empresa que, enfim, tem o nosso email.

Então, tem essas concentrações que não são afetadas de forma relevante até hoje no mundo, a gente tem algumas questões na Europa e nos Estados Unidos, mas nada muito drástico aconteceu.

Tai Nalon:

No fim, como explicitou Paulo Rená nessa entrevista ao Aos Fatos, a regulação é uma questão que não só tangencia a ideia de soberania nacional — por meio, por exemplo, da segurança de dados. É também uma discussão sobre quem tem a capacidade de inovar e o que é, na verdade, inovação.

Paulo Rená:

“Quando a gente fala que você não pode vender um produto fora da data do vencimento, quando a gente fala que você tem que ter certos requisitos de qualidade na produção dos alimentos, isso limita a inovação, isso limita o desenvolvimento e o crescimento econômico.

Mas aí tem priorizações de saúde, tem priorizações para a economia pública. Então é uma questão de quais são os princípios que a gente quer ver atendidos.”

Tai Nalon:

O Brasil é muito estratégico para essas empresas, de modo que, se, por um lado, estamos em um país muito grande para que essas plataformas e seus Estados-nação nos ignorem, qualquer impacto regulatório também gera impacto significativo no seu faturamento.

Isso ficou ainda mais evidente com a abertura de uma investigação comercial pelos Estados Unidos citando supostos ataques do Brasil contra empresas no âmbito digital.

Um dos pontos levantados foi o Pix, que, segundo a denúncia, representaria concorrência desleal contra empresas de pagamento americanas, ramo em que as gigantes do Vale do Silício ganharam mercado nos últimos anos.

A manifestação foi endossada pela Associação da Indústria de Computadores e Comunicações, que representa as principais empresas de tecnologia dos Estados Unidos, como a Amazon, a Apple, o Google e a Meta.

Um exemplo de como o Pix atrapalha as big techs ocorreu com o lançamento do WhatsApp Pay no Brasil, em junho de 2020.

O Banco Central determinou a suspensão dias após a Meta disponibilizar o sistema de pagamentos, sob o argumento de que não houve análise prévia e que poderia causar “dano irreparável”.

O lançamento do Pix, que foi desenvolvido pelo Banco Central, estava previsto para cinco meses depois.

Após a suspensão do WhatsApp Pay, o Banco Central publicou o regulamento do Pix em agosto e começou o cadastramento das chaves Pix para o público geral em outubro de 2020. E aí só liberou o WhatsApp Pay a partir de novembro daquele ano, ainda assim de forma progressiva.

Ou seja, desde o início, o Pix é uma pedra no sapato das big techs. E é uma tecnologia nacional, independente dos sistemas de pagamentos estrangeiros. Um caso claro de inovação e soberania nacional.

Paulo Rená:

“‘Ah, vai limitar a regra e eles vão embora?’ Não vão, não vão embora. Eles têm uma aposta de longo prazo de terem chegado nesse mercado e eles vão continuar aqui.

Mas, na minha visão, é muito limitado esse argumento do ‘quem está aqui vai embora’. O Brasil precisa se entender, se reconhecer e se valorizar como um mercado muito grande.”

Tai Nalon:

Assim como aconteceu com o PL das Fake News, que esteve próximo de ser votado na Câmara, mas foi naufragado por uma aliança entre deputados extremistas e as empresas, outros projetos que tramitam no Congresso e buscam regular o ambiente digital são alvo de estratégias semelhantes para impedir que prosperem.

Você se lembra do vídeo do Felca que expôs argumentos e provas de como influenciadores produziam conteúdo para sexualizar crianças e adolescentes e, com isso, lucrar nas redes sociais?

Felca:

“Mas a parada deixa de ser engraçada e se torna criminosa quando os pais envolvem os filhos menores de idade nesse desespero por monetização, expondo e produzindo conteúdo em cima deles, adultizando ou até sexualizando.”

Tai Nalon:

Ele viralizou em meio ao tarifaço e a comoção que provocou levou o Congresso a ser pressionado a tomar alguma decisão que respondesse à sociedade. Só assim foi possível a aprovação do projeto que ficou conhecido como ECA Digital, que tramitava desde 2022 em meio à atuação contrária das big techs.

O projeto prevê a remoção imediata de conteúdos relacionados ao abuso ou à exploração infantil. Também impõe a adoção de ferramentas de controle parental e de verificação de idade, entre outros pontos.

O ECA Digital é só um de muitos exemplos de iniciativas para aumentar a responsabilidade das empresas, que costumam rechaçar essas tentativas e atuar para barrá-las.

Em setembro de 2025, o governo apresentou um projeto de lei sobre concorrência digital, o PL 4.675. Essa é uma das principais iniciativas legislativas do governo na área digital, idealizada pelo Ministério da Fazenda, e tem como objetivo estabelecer um marco para o tratamento de práticas anticoncorrenciais no ecossistema digital.

A iniciativa busca impor obrigações a agentes econômicos de “relevância sistêmica” denominados gatekeepers.

Os critérios estabelecidos no projeto são semelhantes aos adotados pelo Digital Markets Act, da União Europeia, que levam em conta não só a importância econômica das empresas, mas também a posição que elas ocupam entre consumidores e outras empresas menores.

Isso significa que, além das principais empresas americanas, também teriam mais responsabilidades empresas chinesas, como TikTok, e gigantes de tecnologias regionais, como o iFood e o Mercado Livre.

Tudo isso sem falar no projeto mais relevante, o PL 2.338, para regular o desenvolvimento e aplicação de inteligência artificial.

Agora, ele tramita em uma comissão especial na Câmara, onde já passou por mudanças relevantes. Ele passou o 2025 inteiro prestes a ser votado, mas nunca aconteceu. Agora, quando será votado ainda é uma incógnita. Difícil dizer se agora, enquanto você está assistindo a esse episódio, essa novela já vai ter acabado.

E, assim, o objetivo das empresas vai se cumprindo aos poucos. Nenhuma regulação entra em vigor.

Esse cenário de tentativas de avanço da regulação digital no Brasil ocorre no momento em que, com o Trump, os Estados Unidos passaram a emperrar a agenda digital no G20, bloqueando declarações ministeriais sobre economia digital e inteligência artificial.

O governo americano já deu sinais de que continuará a se empenhar em travar a agenda regulatória digital.

Ao mesmo tempo, o governo dos Estados Unidos já mostrou que não pretende medir esforços para defender os interesses das suas empresas de tecnologia pelo mundo.

A Intel fechou um acordo para o governo dos Estados Unidos ser dono de 10% da empresa em troca de subsídios e outros benefícios fiscais, além de facilidades para fechar acordos sobre chips e minerais raros.

A Nvidia, empresa com o maior valor de mercado do mundo, já declarou que tem a intenção de reindustrializar os Estados Unidos construindo chips para inteligência artificial e data centers, estruturas fundamentais para o futuro da IA.

O TikTok, após cinco anos de ameaças de fechar nos Estados Unidos, concordou em vender sua operação no país a controladores americanos, com a bênção do Partido Comunista Chinês.

No fim de julho de 2025, quando o governo dos Estados Unidos não dava nenhum sinal de que iria negociar com o Brasil, Lula rechaçou a possibilidade de incluir minerais raros nas negociações. Sempre com o discurso da soberania nacional.

Lula:

“Nós temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger e aqui ninguém põe a mão! Esse país é do povo brasileiro!”

Tai Nalon:

Depois, o discurso mudou.

Luiz Inácio Lula da Silva:

“O assunto que quiser ser discutido e colocado à mesa, nós vamos discutir. Se for relação comercial, se for relação com a China, se for relação com a Venezuela, não tem tema proibido comigo. Se quiser discutir a questão de minerais críticos e terras raras, sabe? Se quiser discutir etanol, se quiser discutir açúcar, não tem problema. Eu sou a metamorfose ambulante na mesa de negociação. Coloque o que quiser que eu estou disposto a discutir todo e qualquer assunto. É assim que eu aprendi a negociar."

Tai Nalon:

Naquele momento, a China havia proibido a venda desses minerais aos Estados Unidos. E as principais interessadas são empresas de tecnologia, que usam esses insumos para produzir baterias. O Brasil, que tem a segunda maior reserva do mundo, logo se apresentou como uma possibilidade.

Durante o encontro, Trump, Lula e seus respectivos auxiliares posaram sorrindo para as fotos. Nem parecia que Bolsonaro já havia sido um problema.

No final de 2025, num café da manhã com os jornalistas que cobrem o Planalto, Lula fez um balanço do ano e disse que...

Lula:

“Todos vocês pensaram que eu ia entrar em guerra com o Trump. O Trump virou meu amigo. Com um pouco de conversa, dois homens de 80 anos de idade não têm porque brigar. Então nós estamos conversando direitinho, você pode ficar certo que tudo vai se acertar. Sem nenhum tiro, sem nenhuma arma, sem nenhuma bomba, sem nenhum navio bloqueando a costa brasileira.

Eu disse para o presidente Trump: o poder da palavra é mais forte do que qualquer arma que vocês possam ter. É só saber utilizá-lo.”

Tai Nalon:

Ou seja, a disputa tecnológica vai progressivamente mudando de eixo, transitando entre os Estados Unidos e China, para além de algoritmos e desinformação.

O avanço da inteligência artificial aponta para um futuro em que a mineração e o consumo de energia desempenham um papel fundamental no desenvolvimento e na soberania dos países. E a escassez de materiais que alimentam essa tecnologia pressiona o modelo econômico das empresas de tecnologia, cuja alavancagem financeira parece estar cada vez mais próxima do fim.

Paulo Rená:

“A gente está num cenário mundial de debate pela regulamentação das plataformas. É importante ver que essas dificuldades não são só do Brasil. Ninguém no mundo resolveu essas questões. Não tem um modelo, não tem um gabarito. Está todo mundo tateando.

E aí acho que nesse cenário vale muito a pena o Brasil tentar se colocar como uma vanguarda em favor da proteção de direitos humanos, em favor da proteção de um equilíbrio, de poderes, para o mercado não ficar muito concentrado e nem para o mercado sobrepujar o interesse público.

Acho que se a gente assumir esse papel de uma regulação que vai proteger e promover direitos humanos, a gente vai estar no caminho certo. E eu acredito plenamente que o capitalismo corre atrás e dá um jeito de continuar ganhando dinheiro em qualquer que seja o cenário. Acho que a gente não precisa ajudar o capitalismo a ganhar dinheiro, ele vai ganhar dinheiro de um jeito ou de outro.”

Tai Nalon:

O pragmatismo sem freios é a tônica.

Veja, por exemplo, o caso do Google, que modula o seu discurso conforme o interlocutor, ajustando princípios, preocupações e até convicções para atender a expectativas políticas distintas, às vezes opostas, sem jamais enfrentar consequências substanciais por isso.

Em 28 de agosto de 2025, ao publicar seu relatório de transparência previsto pela Lei de Serviços de Serviços Digitais da União Europeia, o DSA, o Google abre o documento com um aceno a Bruxelas.

Narração do relatório de transparência do Google:

“Recebemos com satisfação os objetivos da Lei de Serviços Digitais, a DSA, da União Europeia, que buscam tornar a internet ainda mais segura, transparente e responsável. O Google está comprometido em promover transparência para os usuários de nossos serviços.”

Tai Nalon:

Agora corta para 23 de setembro de 2025, menos de um mês depois.

Em testemunho enviado à Câmara na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, a mesma empresa afirma:

Narração de relatório de transparência do Google:

“A empresa há muito expressa sua preocupação com o risco que o DSA pode representar para a liberdade de expressão dentro e fora da União Europeia.”

Tai Nalon:

Nessa versão, a legislação europeia deixa de ser modelo de transparência e segurança para se transformar em um risco à liberdade de expressão global. A tônica muda completamente.

O DSA deixa de ser acolhido como avanço democrático e passa a ser descrito como uma ameaça potencial, uma ingerência regulatória custosa e com impactos extraterritoriais preocupantes — exatamente o tipo de narrativa que agrada a legisladores americanos que há anos acusam a União Europeia de distorcer o mercado para prejudicar empresas dos Estados Unidos.

Esse duplo discurso não é acidente, é estratégico. As grandes empresas de tecnologia aprenderam a operar simultaneamente em múltiplas arenas regulatórias, calibrando a sua retórica para minimizar riscos e maximizar influência.

Como dizem no Vale do Silício, “it's not a bug, it's a feature”. Em bom português: “não é um erro, é um recurso”.

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