Aviso: este texto é uma análise e foi publicado originalmente na newsletter O Digital Disfuncional.
❌ Quem matou e quem ajudou a matar a verdade
Às 13h20 de um sábado, 17 de março de 2018, Aos Fatos publicou uma de suas mais importantes checagens nestes oitos anos de história. “Não, Marielle não foi casada com Marcinho VP, não engravidou aos 16 e não foi eleita pelo Comando Vermelho” era o título, e mais de 1 milhão de acessos quase derrubaram o site ao longo daquele fim de semana. Uma inédita campanha pelo compartilhamento de informações factualmente corretas sobre a vereadora carioca havia sido posta em curso espontaneamente.
A publicação foi um marco porque, segundo relatório divulgado dias depois pela FGV-Dapp (Diretoria de Análise de Políticas Públicas), o desmentido havia superado no Twitter os boatos envolvendo a vereadora, assassinada duas noites antes no Rio de Janeiro. Meses depois, a empresa anteriormente conhecida como Facebook, atual Meta, antecipava a chegada ao Brasil de seu programa de checagem de fatos.
Uma campanha até aquele momento sem precedente de descredibilização por meio de informações falsas insinuava que Marielle tinha ligação com o crime organizado — e que havia sido assassinada por esse motivo. Já sabíamos antes que não era nada disso, mas, nesta semana, descobrimos ainda mais.
- Na última segunda-feira (24), a Polícia Federal divulgou parte de um depoimento prestado em 14 de junho pelo ex-policial militar Élcio Queiroz — preso em 2019 ao lado do também ex-policial militar Ronnie Lessa por suspeita de participação na morte da vereadora;
- O ex-PM confessa que participou do crime, aponta o autor dos disparos que vitimaram Marielle e o motorista Anderson Gomes e dá detalhes sobre os procedimentos adotados para destruir provas;
- A PF também prendeu o ex-bombeiro Maxwell Corrêa, conhecido como Suel, apontado como um dos participantes do crime, detido em 2020 por atrapalhar as investigações.
Tal mexida no caldeirão da verdade provocou troca de farpas entre o influenciador Felipe Neto e figuras da intelligentsia do conservadorismo brasileiro, como Arthur do Val, que teve o mandato de deputado estadual cassado por falas misóginas.
- O primeiro acusou o MBL de ter sido um dos responsáveis por associar a imagem de Marielle ao crime nos dias seguintes à sua morte;
- O segundo veio em socorro de seu antigo grupo político para dizer que havia apenas replicado informações da imprensa;
- Ambos têm alguma razão na discussão, embora revelem, na verdade, como é difícil atribuir intencionalidade àqueles que se engajam em campanhas de desinformação.
Objetivamente, o que o MBL fez foi compartilhar o link para um texto do falecido site de extrema-direita Ceticismo Político, que, por sua vez, registrara uma nota da coluna da jornalista Monica Bergamo na Folha de S.Paulo. O jornal reproduzia acriticamente uma publicação no Facebook da desembargadora Marília Castro Neves, segundo quem Marielle estava “engajada com bandidos”.
A mera reprodução do relato sobre algo que nunca aconteceu — sem seu contraditório — estimula a desconfiança de pessoas que eventualmente visualizarão aquele conteúdo. A publicação de informações que jamais seriam notícia dá margem para que pessoas cheguem a conclusões erradas sobre o que efetivamente aconteceu. Sites desinformadores usam dessa tática para não se responsabilizarem juridicamente pela propagação de mentiras.
Foi com base nesse argumento que Marília Castro Neves conseguiu ser absolvida por imputar à vereadora associação ao crime. A Corte Especial do STJ (Superior Tribunal de Justiça) considerou suficientes as retratações públicas feitas pela desembargadora. Em sua defesa, Castro Neves afirmou ter sido enganada por uma campanha de boatos nas redes sociais e que apenas reproduziu o que leu.
No caso do MBL, porém, a ficha corrida de engajamento em campanhas de desinformação é extensa.
- O jornal O Globo relatou ainda em 2018 ter encontrado indícios de publicação coordenada entre o site Ceticismo Político, que veiculou as informações falsas sobre Marielle, e o MBL;
- A Universidade Federal do Espírito Santo também;
- O dono do site, que usava o pseudônimo Luciano Ayan nas redes, era sócio de Rafael Rizzo, então coordenador de comunicação do MBL;
- Fernando Holiday, hoje deputado federal pelo PL-SP e ex-líder do grupo, disse, um ano depois da morte da vereadora, que “Marielle era extremista e defendia ideais perturbadores”.
A reprodução acrítica de mentiras sob o manto da ignorância não deveria livrar indivíduos com funções públicas e instituições políticas organizadas do dolo de se engajarem em campanhas de desinformação. Os danos podem ser permanentes.
No caso de Marielle, Aos Fatos continua desmentindo boatos que atacam sua imagem. “Acusados de matar Marielle não são filiados ao PT”; “É falso que polícia concluiu que Marielle foi morta pelo tráfico de drogas”, por exemplo, são títulos de checagens feitas nos últimos cinco anos por jornalistas que aguardam, num futuro próximo, o triunfo da verdade.




