Quarto episódio de Ctrl+Fake mapeia escalada golpista de Bolsonaro até o 8 de Janeiro

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Em 8 de janeiro de 2023, milhares de apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, em uma manifestação golpista contra o resultado das urnas. O quarto episódio da série documental Ctrl+Fake, "O sequestro da democracia", mostra como esse ataque foi alimentado por uma retórica desinformativa que começou muito antes de 2018.

O episódio recupera as declarações golpistas do ex-presidente e as mentiras usadas por ele e seus aliados para desacreditar as urnas. Tai Nalon, diretora executiva do Aos Fatos, mapeia a escalada autoritária de Bolsonaro desde antes das eleições que o alçaram à Presidência até o silêncio após a derrota em 2022, passando por momentos-chave, como a anulação dos processos contra o presidente Lula (PT) no STF (Supremo Tribunal Federal) em 2021.

A série também traça um paralelo com o ataque ao Capitólio americano, em janeiro de 2021, identificando o denominador comum entre os dois eventos: movimentos radicalizados criados em torno de uma narrativa de sistema corrompido, amplificada pelas plataformas digitais.

O objetivo é mostrar o que a escalada golpista revela sobre o estado da democracia no século 21 e por que o espaço digital continua sendo um terreno em disputa.

Confira a transcrição completa do episódio, feita com o Escriba:

Introdução

Tai Nalon:

Na noite de 30 de outubro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro. O presidente derrotado não reconheceu o resultado. E, mais grave, se calou.

Jornais:

“Jair Bolsonaro segue calado.”

“Nenhuma palavra dele, silêncio.”

Tai Nalon:

Esse silêncio ecoou como um sinal. Nas redes, predominavam teorias conspiratórias já cultivadas havia anos entre seus seguidores. A falsa promessa de uma “intervenção militar constitucional” e a ideia errada de que as eleições seriam anuladas em 72 horas foram essenciais para o engajamento de grupos cada vez mais radicalizados.

Manifestantes:

“Forças Armadas, salvem a nação. Forças Armadas, salvem a nação!”

Tai Nalon:

Com Bolsonaro ausente e sem dar uma palavra sobre a transição, o vácuo foi preenchido por boatos e comandos difusos.

Autor de vídeo compartilhado nas redes:

“A população tem que acordar e ter ciência é que ela tem que vir por si só, por si só, e não ficar à espera de um comando do presidente que não vai haver.”

Tai Nalon:

Em questão de horas, mais de 800 trechos de rodovias foram bloqueados em todo o Brasil. As articulações ocorreram em grupos de WhatsApp e Telegram, onde fotos e vídeos de caminhoneiros eram recebidos como resistência patriótica.

Quando o presidente finalmente falou, 40 horas depois, condenou a violência, mas chamou os atos de bem-vindos. Essa ambiguidade serviu de combustível para a chama golpista.

Jair Bolsonaro:

“Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas.”

Tai Nalon:

Plataformas de vídeo tornaram-se palcos da mobilização. Transmissões ao vivo dos bloqueios receberam doações via Pix e monetização. A tentativa de golpe começou a ser gravada, narrada e compartilhada em tempo real, numa dinâmica de retroalimentação entre criadores, seguidores e desinformação.

Manifestante:

“Essa live é muito, muito importante e que vocês entendam isso entrelinhas da importância dela. Vocês acreditam que as urnas foram fraudadas?”

Manifestantes:

“Sim!”

Tai Nalon:

A partir de novembro, o ataque às urnas ganhou novo fôlego. O Ministério da Defesa, ainda sob as ordens de Bolsonaro, entregou ao TSE um relatório que não provava nada, mas lançava suspeitas sobre o sistema eleitoral.

Nesse ambiente, o argentino Fernando Cerimedo, influenciador ligado à extrema direita, transmitiu uma live para mais de 400 mil espectadores.

Ali, ele espalhou a tese falsa de que modelos antigos de urnas seriam manipuláveis — uma mentira que o Partido Liberal e o próprio Bolsonaro tentaram usar judicialmente para anular o segundo turno.

Enquanto isso, no Senado, aliados de Bolsonaro promoveram audiências públicas com desinformadores e investigados. Cortes desses encontros viralizaram nas redes, tratados como denúncias oficiais. O discurso era um só: o sistema estava corrompido.

Bárbara Destefani (influenciadora):

“Parabéns pela coragem de todos que estão e estiveram aqui, que pegaram essa luta. A todos os meus amigos que eu estou vendo censurados pela democracia, que não deveria, porque ela é proibida pela Constituição.”

Tai Nalon:

Com a proximidade da posse de Lula, os acampamentos golpistas se consolidaram diante de quartéis em todo o país. Ali, qualquer movimento militar era interpretado como sinal de uma intervenção iminente.

Notícias falsas afirmavam que Lula havia morrido e seria substituído por um sósia, ou que não poderia assumir por causa da Lei da Ficha Limpa.

Até publicações antigas no Diário Oficial foram reinterpretadas como mensagens secretas das Forças Armadas.

Bolsonaro, cada vez mais isolado, reapareceu em silêncio ao lado de militares, alimentando novas teorias.

No dia da diplomação do Lula, a capital entrou em tumulto. Houve incêndios, depredação e boatos de infiltrados. Uma tentativa de atentado ao aeroporto de Brasília por pouco não causou uma carnificina.

Às vésperas do Ano Novo, Bolsonaro fez sua última live e embarcou para os Estados Unidos.

Jair Bolsonaro:

“Como foi difícil ficar dois meses calado, trabalhando para buscar alternativas.”

Tai Nalon:

Não houve transição nem despedida. Para seus seguidores, foi uma retirada estratégica, não uma rendição. Eles continuaram acampados, à espera de um novo sinal.

No início de janeiro de 2023, correntes no WhatsApp convocaram um grande ato em Brasília, mas sem especificar exatamente do que se tratava.

Autora de vídeo compartilhado nas redes:

“Pessoal, fui convidada para uma grande festa, a festa da Selma!”

Tai Nalon:

Ônibus de todas as partes do país chegaram à capital federal levando manifestantes que ainda acreditavam que Lula não era presidente legítimo.

Manifestante:

“Nós ganhamos na urna, nós fomos roubados na urna e nós não admitimos ser roubados na urna!”

Tai Nalon:

Em 8 de janeiro, dezenas de milhares de pessoas avançaram sobre a praça dos Três Poderes. As câmeras dos próprios golpistas registraram o ataque ao vivo.

Manifestante:

“Nós somos cupins roedores de mármore!”

Tai Nalon:

O que inclusive viria a incriminá-los depois.

O Congresso, o Supremo e o Planalto foram invadidos e depredados. O ciclo da desinformação, que ganhou tração no silêncio de Bolsonaro, terminou em Brasília, com a democracia sitiada e o país diante das suas próprias ruínas.

Mas a gente sabe que não foi de um dia para o outro e que na grande democracia do Norte algo semelhante havia ocorrido dois anos antes.

Nesse episódio, vamos entender qual é o denominador comum.

Este é o Ctrl+Fake, uma série documental em cinco episódios sobre a história da desinformação na última década.

Capítulo 1: Pré-2022

Tai Nalon:

A desconfiança contra o sistema eleitoral brasileiro antecede o governo Bolsonaro. Sempre houve críticas ao hermetismo com que a Justiça Eleitoral tratava os testes de segurança das urnas eletrônicas e antes de Bolsonaro ser alguém relevante na política nacional, pouca gente sabia o que era, por exemplo, uma cerimônia de lacração das urnas eletrônicas.

E isso diz muito sobre como essa sensação de que as instituições democráticas são inalcançáveis foi instrumentalizada pelos radicais de direita para descredibilizar aquilo que é de mais vulnerável em democracias pouco estabelecidas: o direito ao voto.

Jair Bolsonaro:

“A grande preocupação, realmente, não é perder o voto, é perder a fraude.”

Tai Nalon:

Essa frase foi dita por Bolsonaro numa live de setembro de 2018. Naquele momento, o então candidato à Presidência estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, se recuperando de uma facada sofrida semanas antes.

A desconfiança contra o sistema eleitoral sempre teve presente na faceta antissistema da campanha de Bolsonaro. O que não estava tão claro é que questionar a validade dos votos faria parte de um arsenal conspiratório que radicalizaria grupos de tal maneira que o resultado seria muito violento e muito traumático para o sistema político brasileiro.

Manifestante:

“Houve fraude no processo eleitoral, no primeiro turno, no segundo turno.”

Tai Nalon:

Ao todo, durante o seu mandato, conforme o Aos Fatos apurou, Bolsonaro mentiu sobre o sistema eleitoral do país pelo menos 350 vezes.

Jair Bolsonaro:

“Eu fui eleito no primeiro turno. Eu tenho provas materiais disso. Mas o sistema, a fraude, que existiu sim, me jogou para o segundo turno.”

Tai Nalon:

Da mesma maneira que conceitos como “liberdade de expressão”, “censura” e “ideologia de gênero” estavam em disputa na arena ideológica das redes e nos palanques globais, o conceito do que é de fato uma democracia também passou a ser reinterpretado.

O autoritarismo delirante dos apoiadores do ex-presidente partia da ideia de que não havia cenário possível para fazer valer o que, na versão distorcida deles, seria democrático.

Manifestantes:

“S.O.S! Forças Armadas! S.O.S!”

Tai Nalon:

Para esses grupos, democracia deixou de ser um sistema baseado em regras, representatividade e resultados eleitorais verificáveis. Ao contrário, passou a ser um sistema cuja função básica era confirmar suas próprias crenças, mesmo que elas contrariassem a própria democracia.

Esse modus operandi foi praticamente uma imitação do que aconteceu nos Estados Unidos ao longo do primeiro mandato de Donald Trump e que resultou nos ataques ao Capitólio, em Washington D.C, em 6 de janeiro de 2021.

Capítulo 2: O link com os Estados Unidos

Tai Nalon:

O ataque ao Capitólio se tornou um marco internacional de radicalização política mediada por plataformas digitais.

Nos Estados Unidos, a invasão ocorreu após meses de alegações infundadas de fraude eleitoral.

Robert Barnes, em entrevista ao Real America’s Voice:

"Há mais evidências de irregularidades eleitorais, votação ilegal e fraude ocorrendo nesta eleição do que em toda a história das eleições americanas."

Jornalista na Fox News:

“Estão dizendo que houve um lote de cédulas onde 60% tinham a mesma assinatura. Estão dizendo que 35 cédulas não possuíam registro de eleitor, mas foram contadas mesmo assim e que 50 cédulas foram passadas várias vezes por uma máquina de tabulação.”

Tai Nalon:

Aliás, para explicar a sucessão de atos contra a democracia do início dessa década, é preciso entender o contexto em que os Estados Unidos se encontravam em janeiro de 2021.

Joe Biden havia acabado de vencer a eleição presidencial, enquanto Donald Trump saía derrotado do pleito. O mundo tentava lidar naquele momento com as consequências da pandemia de Covid. O período foi marcado por um ambiente de forte fragmentação social, agravado pela ausência de espaços físicos comuns de convivência e pelo isolamento social imposto pela crise sanitária.

Nesse contexto, grupos que sequer tinham afinidade política com a extrema direita, como uma galera New Age, como defensores de animais, por exemplo, encontraram nas redes sociais um espaço que acolhia os seus medos.

Dentre os movimentos mais influentes, destacaram-se grupos antivacina, que passaram a orbitar a ambientes políticos mais extremados.

Manifestante antivacina:

“Por que vocês continuam esperando? Quando vai ser suficiente? Qual é o limite, além de ser forçado a injetar algo no seu corpo?”

Tai Nalon:

Esses atores sustentavam a narrativa de que haveria uma conspiração global conduzida por líderes de centro ou de esquerda, cujo objetivo seria impor uma agenda que, pra eles, negava a identidade e o que significava efetivamente “ser americano”.

Esse discurso encontrou terreno fértil entre aqueles que defendiam a ideia de que os Estados Unidos deveriam “voltar a ser grandes”. Foi também nesse período que as plataformas digitais intensificaram os esforços de moderação de conteúdo, em resposta ao boom de desinformação sobre a pandemia.

A retórica adotada passou a atacar diretamente as plataformas digitais, acusando elas de promover censura. Essa suposta censura era, por sua vez, apresentada como um ataque à democracia. Sob o argumento de que o espaço público estaria sendo capturado por elites políticas de esquerda ou por setores centristas favoráveis às políticas de vacinação.

Mas assim, que espaço público? São plataformas privadas.

Max Fischer, em “A Máquina do Caos”, cita o episódio da morte de George Floyd, em maio de 2020, como um ponto de virada na percepção entre o que era público — o uso de aparato policial, a violência de Estado, a morte de um cidadão, as manifestações nas ruas do Black Lives Matter — e o que era privado — o direito de atacar grupos organizados na, digamos, vida real, por meio das redes sociais.

Max Fischer conta que essa mobilização expôs as desigualdades estruturais dos Estados Unidos.

Max Fischer:

“Você pode notar isso ao entrar em qualquer discussão online: ela inevitavelmente acabará girando em torno de estarmos todos com raiva de algo ou de alguém. Existe um grupo que é o 'nós' e um grupo que é o 'eles', e nós não gostamos desse ‘grupo de fora’.”

Tai Nalon:

Para amplos setores da direita, especialmente aqueles já organizados em comunidades digitais coesas, o Black Lives Matter passou a ser percebido não como um movimento por direitos civis, mas como uma ameaça existencial ao status quo cultural e político.

É lógico que isso ganha cores mais intensas no debate mediado pelas redes sociais.

Durante anos, redes como Twitter, Facebook e YouTube haviam operado sob uma lógica permissiva, tolerando discursos inflamatórios em nome de uma interpretação maximalista da liberdade de expressão.

Donald Trump se beneficiou diretamente desse ambiente. Tweets falsos, conspiratórios ou incitadores funcionavam como gatilhos de mobilização.

A partir de 2020, esse arranjo começou a se alterar. Escrutinados pelo Congresso americano em audiências públicas, executivos das empresas de tecnologia prestavam contas sobre que tipo de violência podia e não podia nas suas plataformas. Eram questionados em relação ao que faziam e ao que deixavam de fazer de salvaguarda contra a pandemia.

Sundar Pichai:

“Deputado, acreditamos na liberdade de expressão e há muito debate no YouTube sobre maneiras eficazes de lidar com a Covid. Permitimos debates acalorados, mas, durante uma pandemia, consultamos as autoridades de saúde locais, por exemplo, nos EUA, o CDC, seria a fonte de orientação sobre desinformação médica, especialmente em casos específicos que podem causar danos no mundo real.”

Tai Nalon:

Sob pressão política, as redes sociais passaram a moderar conteúdos de maneira mais explícita.

Em maio de 2020, Trump teve um tweet classificado pela plataforma como glorificação da violência. Ele ameaçou manifestantes contra a morte de George Floyd com mais violência policial. A publicação de Trump permaneceria visível, mas nenhum usuário mais poderia engajar normalmente com ela. Isso viria a ocorrer repetidamente ao longo de 2020.

Em outubro daquele ano, o Facebook deletou uma publicação de Trump dizendo que a Covid era menos letal que um resfriado. O Twitter também marcou a informação como falsa.

Essa abordagem das plataformas, longe de produzir desradicalização, teve um efeito paradoxal. Conforme argumenta Fischer em “A Máquina do Caos”, a falta de critério na moderação foi interpretada por comunidades conservadoras e extremistas não como correção de um desequilíbrio, mas como prova material de uma conspiração.

O resultado foi a consolidação de uma narrativa segundo a qual democracia, plataformas e instituições haviam sido sequestradas por um inimigo interno. Isso teria permitido que diferentes agendas — antivacina, supremacista branca, conspiratória e autoritária — convergissem em torno de um mesmo diagnóstico: a necessidade de retomar o país à força, se necessário.

Donald Trump:

“Este talvez seja o discurso mais importante que eu já fiz. Quero atualizar vocês sobre nossos esforços contínuos para expor a enorme fraude eleitoral e as irregularidades que ocorreram durante as eleições ridiculamente longas de 3 de novembro.”

Tai Nalon:

Em menos de um mês, o Twitter marcou como desinformativos mais de 200 posts de Trump que alegavam fraude eleitoral.

Horas depois do ataque ao Capitólio, Twitter e Facebook anunciaram que trancariam a conta de Trump, de modo que ele não pudesse fazer mais nenhuma publicação.

Dias depois, ele seria permanentemente banido das plataformas. Não, espera. Permanentemente é muito forte.

Anúncio da Casa Branca:

“Senhoras e senhores, estamos aqui como testemunhas para o retorno triunfante do presidente Trump para a Casa Branca.”

Capítulo 3: Enquanto isso, no Brasil

Tai Nalon:

No dia seguinte à invasão do Congresso americano, Jair Bolsonaro declarou:

Jair Bolsonaro:

“Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior do que os Estados Unidos.”

Tai Nalon:

A partir dali, Bolsonaro intensificou ataques ao STF e ao TSE, sugerindo de forma cada vez mais explícita que o sistema eleitoral brasileiro não era confiável.

Veja, Bolsonaro já vinha antagonizando com o Judiciário desde 2020, no auge da pandemia. Em uma de suas declarações falsas mais repetidas, ele dizia que o STF o tinha impedido de governar e tomar medidas de contenção contra a Covid.

Jair Bolsonaro:

“Eu tenho a obrigação, como chefe de Estado, de tomar decisões. Estou de mãos amarradas por decisão do Supremo Tribunal Federal, que delegou a estados e municípios essas medidas.”

“O Supremo decidiu que quem decide essas questões são governadores e prefeitos. Então, cobrem deles!”

Tai Nalon:

Na verdade, o que a Corte entendeu foi que a União não poderia invadir as competências de municípios, de estados e do Distrito Federal. Bolsonaro não poderia, por exemplo, derrubar medidas de isolamento social colocadas em prática por prefeitos.

Mas foi em março de 2021 que uma reviravolta jurídica acirrou a empreitada de Bolsonaro contra o sistema eleitoral e o Judiciário.

Renata Vasconcellos no Jornal Nacional:

“O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou nesta segunda-feira todas as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Justiça do Paraná relacionadas às investigações da Operação Lava Jato. Com essa decisão, o ex-presidente Lula volta a ser elegível.”

Tai Nalon:

Com a anulação dos processos contra Lula relacionados à Lava Jato, há uma reorganização de todo o governo ao redor da agenda antidemocrática.

A narrativa central que pautou as instituições a partir de então era repetida à exaustão: o sistema eletrônico seria vulnerável, as eleições de 2018 teriam sido fraudadas e a Justiça Eleitoral escondia as provas.

A ideia nunca foi provar fraude: era estabelecer, com antecedência, que uma derrota só poderia ser explicada por fraude. O objetivo era desacreditar o árbitro do processo eleitoral passado para reduzir o custo político de rejeitar o resultado futuro.

Em 8 de julho, Bolsonaro resgatou, durante uma conversa com apoiadores, a história de um vídeo que fala de fraude nas eleições de 2014.

Nele, a ex-candidata a deputada federal pelo PSL Naomi Yamaguchi — irmã da Nise, sim, aquela médica defensora da cloroquina e próxima do presidente — alega que a apuração minuto a minuto mostraria a manipulação dos resultados da disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, o que não era verdade.

Bolsonaro então marcou para o dia 29 de julho de 2021 uma live em que prometia apresentar as supostas provas de suas acusações. Nesse dia, por horas, a mensagem “voto impresso auditável” esteve em destaque. Bolsonaro apresentou alegações de fraude em 2018, além de suspeitas sobre o TSE e o Supremo.

Jair Bolsonaro:

“As reclamações só tinham uma mão: queria votar no 17 e aparecia nulo ou automaticamente o 13. Quem queria votar no 13 não aparecia 17 e nem nulo.”

Tai Nalon:

O enredo incluiu o relato de que haveria uma “sala secreta” onde votos seriam manipulados e a contagem seria feita por pessoas comprometidas politicamente. Tudo falso. Tudo transmitido para centenas de milhares de usuários de redes sociais, sem contexto, sem checagem, nada.

Em 10 de agosto de 2021, a PEC do Voto Impresso foi rejeitada na Câmara, mas teve a maioria simples dos votos. Foi justamente nesse mês em que Bolsonaro bateu o recorde de falas contra o sistema eleitoral. Foram pelo menos 84 declarações enganosas, de acordo com o monitoramento do Aos Fatos. E aí veio o 7 de Setembro.

Jair Bolsonaro:

“Sai, Alexandre de Moraes. Deixa de ser canalha!”

Tai Nalon:

Alexandre de Moraes passou a ser um dos principais alvos da direita porque, a partir de 2019, ocupou uma posição central no enfrentamento institucional à desinformação e aos ataques às instituições democráticas.

Ele foi um dos que concederam liminares determinando que o governo federal não podia contrariar ações de estados e municípios que adotavam quarentenas, isolamento social e outras medidas de combate à pandemia. Bolsonaro considerava uma afronta.

Jair Bolsonaro:

“Queremos a liberdade para poder trabalhar. Queremos o nosso direito de ir e vir. Ninguém pode contestar isso.”

Tai Nalon:

Antes disso, porém, Moraes havia sido nomeado relator do Inquérito das Fake News, em março de 2019. Aberto pelo Supremo com o objetivo de conter, a princípio, ataques a membros da Corte, o inquérito acabou virando o principal meio legal do Judiciário brasileiro para combater a escalada de ameaças, campanhas coordenadas de desinformação e ataques diretos contra o regime democrático.

Foi de Moraes a decisão de obrigar o governo federal a restabelecer a divulgação diária dos dados epidemiológicos durante a pandemia. Também foi dele a decisão de abrir um inquérito para investigar uma declaração de Bolsonaro que associava a vacina contra a Covid à Aids.

E também foi de Moraes a decisão de suspender as contas de mais de uma dezena de influenciadores da extrema direita no Twitter e no Facebook após autorizar uma ação de busca e apreensão contra financiadores de fake news contra o Supremo.

Mas voltando ao 7 de setembro de 2021…

Jair Bolsonaro:

“Dizer a vocês que qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes esse presidente não mais cumprirá!

Não podemos admitir um sistema eleitoral que não oferece qualquer segurança por ocasião das eleições.

Dizer também que não é uma pessoa no Tribunal Superior Eleitoral que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável, porque não é!”

Tai Nalon:

Ninguém sabia naquele momento, mas esse discurso de Bolsonaro seria visto como um ponto de inflexão das suas aventuras radicais contra o sistema de votação.

Jair Bolsonaro:

“Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso!”

Capítulo 4: O ineditismo brasileiro

Tai Nalon:

As ações de governo que levaram milhares de brasileiros a invadir as sedes dos Três Poderes em Brasília em 8 de janeiro de 2023 foram classificadas pelo Supremo Tribunal Federal, numa decisão de setembro de 2025, como os atos preparatórios para um golpe de Estado.

Carmen Lúcia:

“Então, eu tenho para mim que há um acervo enorme de provas a indicar os planos de tomada do poder pela ruptura institucional ou pela permanência forçada, o que não ficou no mundo das ideias nem de registros particulares.

Os documentos apreendidos, por exemplo, sobre a minuta do golpe, em muitas cópias, são compartilhados por mensagens, são editados, são discutidos em reuniões, são exibidos em projeções. O que se afirma que foi resumido por fulano só corrobora mais e mais e, portanto, não se cuidam de atos preparatórios.

Os crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado não são instantâneos, como nós já, desde algum tempo, estamos concluindo nos julgamentos que já aconteceram sobre esses fatos.”

Tai Nalon:

Em 5 de julho de 2022, numa reunião ministerial realizada no Palácio do Planalto, o então presidente Jair Bolsonaro orientou sua equipe a alinhar o discurso sobre a vulnerabilidade das urnas eletrônicas porque, segundo ele, os números das pesquisas do Datafolha estavam dando Lula como favorito nas eleições de outubro daquele ano e que os números da vitória de Lula já estariam dentro dos computadores do TSE.

Jair Bolsonaro:

“A gente vê que o Datafolha continua mantendo a posição de 45% e, por vezes, falando que o Lula ganha no primeiro turno. Eu acho que ganha sim. As pesquisas estão exatamente certas, de acordo com os números que estão dentro dos computadores do TSE.”

Tai Nalon:

Foi nessa mesma reunião que Bolsonaro cobrou a sua equipe que reagisse, porque já era provável que, qualquer que fosse o resultado das urnas, não seria uma vitória acachapante para ninguém.

Jair Bolsonaro:

“Daqui pra frente eu quero que todo ministro fale o que eu vou falar aqui e vou mostrar. Se o ministro não quiser falar, ele vai vir ter que falar pra mim por que ele não quer falar. Se apresentar onde eu tô errado, eu topo! Agora, se não tiver argumento pra me demover do que eu vou mostrar, eu não vou querer papo com esse ministro. Tá no lugar errado.

Se tá achando que eu vou ter 70% dos votos e vou ganhar como eu ganhei em 2018, eu vou provar… [falha no áudio]... que tá no lugar errado.”

Tai Nalon:

Ou seja, essa reunião estabeleceu três ideias-chave dentre os atos preparatórios para o golpe: que a eleição estaria decidida previamente, que o sistema eletrônico permitiria manipulação e que o Judiciário eleitoral seria parte do problema.

Jair Bolsonaro:

“Porque os caras estão preparando tudo, pô, pro Lula ganhar no primeiro turno, na fraude, vou mostrar como e por quê.

Alguém acredita aqui em Fachin, Barroso, Alexandre de Moraes? Alguém acredita? Se acreditar, levanta o braço.”

Tai Nalon:

As imagens dessa reunião foram reveladas apenas em 2024, pois foram apreendidas dentro do computador do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid.

O rastro é prova de que se tratava de uma estratégia robusta. Questionar as urnas não era uma questão de opinião individual, mas orientação que deveria ser sustentada pelo governo. Ou, nas palavras do general Heleno...

Augusto Heleno:

“Então, o que tiver que ser feito, tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa é antes das eleições, se tiver que virar a mesa é antes das eleições. Depois das eleições será muito difícil que tenhamos alguma nova perspectiva.”

Tai Nalon:

Poucos dias depois, em 18 de julho de 2022, essa mesma narrativa é levada ao plano internacional na reunião com embaixadores.

O encontro é organizado pelo próprio governo, transmitido por canais oficiais e amplamente difundido nas redes.

Alexandre de Moraes:

“No ponto possivelmente de maior tensionamento do discurso, o então presidente da República, em leitura distorcida de sua competência para exercer o comando supremo das Forças Armadas, enxerga-se como militar em exercício à frente das tropas.

A abordagem desconsidera uma conquista democrática de incomensurável importância simbólica no pós-ditadura, que é a sujeição do poderio militar brasileiro a uma máxima autoridade civil democraticamente eleita.”

Jair Bolsonaro:

“Os senhores devem estranhar: ‘o que as Forças Armadas estão fazendo no processo eleitoral?’ Nós fomos convidados. E eu sou o chefe supremo das Forças Armadas. Nós jamais, com esse convite, iríamos participar apenas para dar ‘ares de legalidade’.

Acharam que iriam dominar as Forças Armadas? Será que esqueceram que eu sou o chefe supremo das Forças Armadas? Será que se esqueceram da responsabilidade das nossas Forças Armadas, que gozam de um conceito excepcional perante a opinião pública? Jamais as Forças Armadas participariam de uma farsa.”

Tai Nalon:

De todo modo, a estratégia de envolver ministros, aliados no Congresso, influenciadores digitais, a Abin e as Forças Armadas para espalhar a desinformação foi eficiente.

O Radar Aos Fatos comprovou que, a partir de junho de 2022, a desinformação golpista nas redes sociais começou a crescer destacadamente em plataformas como o YouTube, o Facebook, o Twitter e o WhatsApp.

Uma análise qualitativa de uma amostra aleatória de 400 mensagens publicadas no Twitter e no WhatsApp entre junho de 2022 e janeiro de 2023, sugere que o golpismo assume muitas formas: 35% do conteúdo continha algum tipo de desinformação objetiva. A mais comum era que as eleições foram fraudadas, seguida de tentativas de associar Lula ao crime organizado.

Nessa amostragem, uma parcela de 9,5% não continha desinformação checável, mas conteúdo abertamente golpista, como pedidos de intervenção militar ou convocações para a realização de atos antidemocráticos. A gente sabe como isso acabou.

Carmen Lúcia:

“Nós estamos em uma sociedade em que as pessoas querem tanto se mostrar mais do que ser, que elas querem mostrar que elas participaram, que elas fazem, que elas dão o golpe… E aí elas vão deixando rastros, porque elas fazem maquete do projeto, elas desenham, mostram, fotografam, como se fotografa a comida do dia a dia, dizendo: ‘olha, eu como’.”

Tai Nalon:

No 8 de Janeiro, em Brasília, golpistas lucraram com lives durante o ataque aos prédios da Praça dos Três Poderes.

Nas horas que seguiram a tentativa de golpe, monitoramento do Radar Aos Fatos mostrou que 23 das 47 transmissões ao vivo de canais de extrema direita tiveram alguma forma de monetização.

Sem qualquer interferência das plataformas digitais, o ato em si já era convocado cinco dias antes nas redes sociais.

Levantamento do Radar Aos Fatos, feito numa base de mais de 13 mil publicações identificou dezenas de posts que circularam na semana anterior aos ataques convocando bolsonaristas para garantir a liberdade, defender o país da “ameaça comunista” e tomar o poder.

No entanto, não era bem isso que o núcleo autoritário do governo propunha. A não ser que o sentido dessas palavras tenha sido também pervertido no processo de radicalização golpista.

Alexandre de Moraes:

“Quem pretende dar o golpe, dá o golpe, como se pretendeu aqui e se tentou, não conversando com o Legislativo, não conversando com conselheiros da República ou de Defesa, conversando e pedindo a lealdade e o apoio dos comandantes das Forças Armadas.

Em 6/12, Mauro César Barbosa Cid confirma que Jair Messias Bolsonaro recebeu um documento de Filipe Martins consistente de uma minuta de decreto de golpe de Estado com detalhamento de diversos considerandos, com supostos fundamentos das várias ações que seriam realizadas.

Essa minuta, todos se recordam, previa a prisão de alguns ministros do Supremo e do presidente do Senado Federal, o senador Rodrigo Pacheco, que sempre apoiou a democracia, o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal.

Aqui, esse dispositivo é importante encontrar, é importante dizer, foi apreendido pela Polícia Federal, dispositivo eletrônico vinculado ao general que é réu em outra ação penal, Mário Fernandes, também integrante da organização criminosa, e estruturava esse plano, esse planejamento de atentado contra a vida desse relator e dos então presidente e vice-presidentes eleitos, Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin. Há todo um detalhamento nisso.

Isso foi impresso, isso não foi impresso numa gruta, isso não foi impresso escondido numa sala de terroristas, isso foi impresso no Palácio do Planalto. Isso foi impresso na sede do governo brasileiro, no mesmo momento em que lá se encontrava, e a Polícia Federal comprova também, o presidente Jair Messias Bolsonaro.”

Tai Nalon:

Em 11 de setembro de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão por atentar contra a democracia.

Outros seis réus também responderam por organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado e deterioração do patrimônio tombado.

Diferentemente do vizinho da América do Norte com Donald Trump e seus simpatizantes, o Brasil responsabilizou Jair Bolsonaro e seus apoiadores pela tentativa de captura da democracia em favor de um projeto militarista autoritário. Porém, no que diferem tanto ambos os países a ponto de, na mesma década, viverem momentos políticos tão diferentes?

Capítulo 5: A democracia em disputa

Tai Nalon:

Nos últimos anos, ouvimos bastante que as democracias não morrem mais por meio de golpes clássicos, mas por um processo lento de erosão interna.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt sistematizaram essa ideia em “Como as Democracias Morrem”, ao mostrar que o colapso democrático contemporâneo costuma ocorrer a partir de dentro, pelas mãos de líderes eleitos e por meio do esvaziamento gradual de normas e instituições.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em “Como as Democracias Morrem”:

“As democracias podem morrer não nas mãos de generais, mas de líderes eleitos, presidentes ou primeiros ministros que subvertem o próprio processo que os levou ao poder.”

Tai Nalon:

Esse diagnóstico se tornou quase senso comum no debate público. Mas há outras formas de olhar para o mesmo processo.

Collin Crouch propôs, ainda no início dos anos 2000, o conceito de “pós-democracia” para descrever sociedades em que as instituições democráticas continuam funcionando formalmente, com eleições regulares, parlamentos e tribunais, enquanto as decisões centrais passam a ser tomadas fora do alcance da maioria dos cidadãos.

Em “Post-Democracy”, ele escreve esse argumento mais ou menos assim:

Collin Crouch, em “Pós-Democracia”:

“Sob esse modelo, embora as eleições certamente existam e possam mudar governos, o debate eleitoral público é um espetáculo rigidamente controlado, administrado por rivais profissionais, enquanto a política é realmente moldada no privado pela interação entre governos eleitos e elites que representam principalmente interesses empresariais.”

Tai Nalon:

É discutível se em algum momento da história isso foi diferente. De qualquer forma, esse deslocamento ajuda a entender por que eleições continuam existindo, mas parecem produzir cada vez menos capacidade de resposta às demandas sociais.

Eleições livres e periódicas são fundamentais, mas não são suficientes. Reduzir a democracia ao momento do voto é um erro recorrente. Ou seja, o procedimento democrático, por si só, não garante inclusão, justiça ou igualdade. É por isso que a disputa em torno do conceito de democracia é legítima.

Democracia não é apenas escolher representantes, mas sustentar a ideia de que o poder público deve responder aos interesses coletivos. O problema começa quando essa promessa se enfraquece e o exercício da cidadania passa a ser deslocado do campo institucional para o campo simbólico.

No ambiente digital, consolida-se a sensação de que estar informado, comentar acontecimentos políticos ou expressar opiniões nas redes equivale ao pleno exercício da cidadania. Essa lógica também ajuda a entender por que a democracia do século 21 parece exigir cada vez mais participação, ao mesmo tempo em que oferece cada vez menos capacidade de pôr suas virtudes em prática.

As mídias digitais tornam mais fácil performar participação política, mas não necessariamente construir poder político consistente. Isso nos obriga a fazer uma pergunta incômoda, mas necessária: de que democracia estamos falando quando falamos em democracia no século 21?

A questão se torna ainda mais complexa quando pensamos nos direitos fundamentais. O que significa hoje garantir liberdade de expressão, acesso à informação confiável, liberdade de imprensa e o fim da censura, tal qual defendem todos os lados do espectro político?

Em que medida esses direitos, assim como foram formulados no século 20, são suficientes para lidar com as dinâmicas tecnológicas e informacionais atuais? Se a cidadania democrática não se esgota no voto, ela exige condições reais de participação nas decisões coletivas.

Ela demanda acesso à esfera pública, algo que os executivos das plataformas digitais dizem oferecer como serviço, mas que não passa de uma reprodução algorítmica das assimetrias de poder e representação que vivemos historicamente. Se o espaço digital é controlado por um número extremamente reduzido de empresas, concentradas em poucas nações.

A filósofa Nancy Fraser ajuda a aprofundar essa crítica ao lembrar que nunca existia uma esfera pública plenamente inclusiva. Ela defende o seguinte argumento, que eu resumi mais ou menos assim:

Narração de ideia de Nancy Fraser:

“A ideia de uma única esfera pública abrangente é uma ficção que obscurece as desigualdades estruturais que moldam quem pode falar e quem pode ser ouvido.”

Tai Nalon:

As plataformas digitais não apenas mediam a comunicação, mas extraem, modelam e comercializam comportamentos humanos e interferem diretamente nos processos de formação de opinião e decisão política.

Na última década, criamos uma sociedade mais diversa, conectada e consciente das suas desigualdades, mas que não teve todos os seus direitos plenamente consolidados.

Essa defasagem produz uma tensão permanente entre expectativas democráticas ampliadas e estruturas institucionais incapazes de absorvê-las. Ou seja, os ataques de 8 de Janeiro expõem a ruptura do consenso mínimo no Brasil sobre o que significa democracia.

Quando grupos distintos passam a operar com definições próprias e incompatíveis, muitas vezes reduzindo a democracia ao resultado eleitoral que lhes convém ou à noção abstrata de vontade do povo dissociada de direitos e obrigações, a democracia deixa de funcionar como um pacto compartilhado.

As plataformas digitais aprofundam essa divisão porque são ferramentas superficiais e imediatistas que pretendem substituir e simular estruturas democráticas complexas. O resultado é a subversão do termo democracia.

É difícil mesmo compreender algo tão amplo e abstrato dentro de ambientes efêmeros, privatizados e orientados por incentivos econômicos.

A democracia não está em crise apenas porque alguns políticos descobriram que o regramento dos países e o direito internacional só valem para alguns. Não há nada mais velho do que isso. O que há de novo é que as leis são violadas porque o espaço onde a política acontece ainda não foi assimilado como real. A internet ainda é um terreno em disputa.

No próximo capítulo, vamos tentar entender quanto da defesa de valores os valores democráticos pelas grandes plataformas é real e quanto é performática.

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