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🕐 Esta reportagem foi publicada há mais de seis meses

Quantas crises cabem no governo Dilma?

Por Tai Nalon

26 de agosto de 2015, 06h03

Parte da estratégia da presidente Dilma Rousseff de desviar a atenção do noticiário da saída do vice-presidente Michel Temer foi convocar uma entrevista para jornais brasileiros nesta segunda-feira (24) (as três entrevistas estão aqui, aqui e aqui). Da coletiva saíram frases que atendiam ao pedido de oposição e governistas, de que faltava a Dilma fazer um mea culpa mais enfático pela crise econômica imposta ao país e colocar em contexto decisões recentes.

Entretanto, também ficaram públicas declarações contraditórias da presidente, que afirmou que a crise chegou para ficar a partir de meados do ano passado — quando, na verdade, já existiam indícios da deterioração do cenário econômico desde 2013. O próprio governo sempre declarou que vivia um contexto preocupante, devido à crise internacional.

Aos Fatos checou duas das declarações mais contundentes de Dilma.


FALSO

Errei em ter demorado tanto para perceber que a situação era mais grave do que imaginávamos. Talvez tivéssemos que ter começado a fazer uma inflexão antes. Não dava para saber ainda em agosto. Não tinha indício de uma coisa dessa envergadura. Talvez setembro, outubro, novembro.

(…)

A crise começa em agosto, mas só vai ficar grave, grave mesmo, mesmo entre novembro e dezembro [de 2014]. É quando todos os estados da federação percebem que a arrecadação caiu.

A Carta de Conjuntura do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de dezembro de 2013 já alertava para o esgotamento do modelo adotado pelo Planalto para reagir às condições externas desfavoráveis. Segundo o instituto, que é ligado à Presidência da República, "a perda de dinamismo da região se deve basicamente a três fatores: a deterioração dos termos de troca; o menor crescimento da economia mundial, especialmente com a recessão na Europa e a desaceleração chinesa; e o esgotamento do impacto das medidas anticíclicas adotadas em toda a região em reação à crise financeira de 2008–2009. Aparentemente, os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul) — em especial, a Argentina, o Brasil e o Paraguai — foram mais rapidamente afetados, de forma que o crescimento do PIB se desacelerou fortemente já em 2012".

O documento também registra que "as entradas de capital tornaram-se insuficientes para cobrir todo o deficit externo, de forma que o saldo geral do balanço de pagamentos tornou-se negativo pela primeira vez desde meados de 2009, quando o país sofria os efeitos da crise financeira internacional".

Segundo a Carta de Conjuntura, somente nos meses de agosto, setembro e outubro de 2013, o resultado foi negativo em US$ 8,9 bilhões, implicando perda de reservas da mesma ordem. "Com efeito, o quadro recente tem sido desfavorável às contas externas do país, tanto por fatores relacionados à economia mundial quanto por fatores domésticos."

Além disso, embora Dilma diga que o governo só teve ciência da gravidade do problema a partir de agosto, maio de 2014 já apresentava forte retração da arrecadação federal, conforme é possível ver no gráfico abaixo. O primeiro mês de arrecadação inferior ao mesmo período de 2013 é julho — cuja justificativa, segundo o governo, seria a realização da Copa do Mundo. Ali, registrou-se o pior resultado em quatro anos.

Fonte: Receita Federal

Segundo a análise mensal da Receita Federal para o mês de maio, a diferença ocorreu por conta da arrecadação extraordinária, em maio de 2013, de cerca de R$ 4,0 bilhões referentes ao PIS/Cofins, no valor de R$ 1,0 bilhão, e ao IRPJ/CSLL (Imposto de Renda sobre Pessoa Jurídica/Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), no valor de R$ 3,0 bilhões. Esta última contribuição está intimamente relacionada à produtividade. Sem os créditos extras, maio não teria queda tão acentuada, mas ainda patinaria em relação aos meses anteriores.

Os estados, que seguem trajetórias de arrecadação mais ou menos parecidas com a do governo federal, também registraram piora nas contas no mesmo período.

A questão, portanto, virou entender a que crise a presidente se refere agora.Aos Fatos fez um retrospecto no noticiário, desde 2012, de declarações em que Dilma reafirma cenário econômico complicado. Desde aquele ano, o país está em dificuldades, segundo a própria presidente. Veja:

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