Publicações mentem ao afirmar que Globo inflou números da pandemia para prejudicar Bolsonaro

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Não é verdade que a TV Globo tenha inflado dados da pandemia de Covid-19 para prejudicar o então presidente Jair Bolsonaro (PL). As alegações distorcem a atuação de um consórcio de imprensa que compilou dados das secretarias de Saúde estaduais durante a pandemia. O argumento ganhou força após declarações feitas na Câmara por Mike Benz, ex-secretário do governo Donald Trump.

Os posts falsos acumulavam centenas de curtidas no Instagram e milhares de compartilhamentos no X. As peças também circularam no WhatsApp, plataforma em que não é possível estimar o alcance dos conteúdos (fale com a Fátima).

Globo mentia para prejudicar Bolsonaro! EUA apresentam provas de que números da Covid eram alterados

A imagem é composta por três partes principais, empilhadas verticalmente. Na parte superior, há um desenho de duas pessoas ao fundo, com um texto que diz: ‘Globo mentia para prejudicar Bolsonaro!’. A apresentadora tem cabelos castanhos, usa uma blusa preta e está posicionada no centro. Sobre ela, há a palavra ‘Eita!’. Na parte inferior dessa cena, há duas faixas de texto: a superior diz ‘Verdade revelada’; a inferior diz ‘PT e TSE deram golpe na democracia com ajuda do governo Biden’ e, logo abaixo, em letras menores, ‘ex-secretário de Trump também dez denúncias contra o grupo Globo. Na parte inferior da imagem, há um fundo escuro com o desenho de uma mão segurando um globo terrestre, e sobreposto a isso está o texto: ‘EUA apresentam provas de que números da Covid eram alterados’.

Publicações mentem ao afirmar que a Globo inflou os números da Covid-19 para prejudicar o governo de Jair Bolsonaro e que os Estados Unidos teriam apresentado provas disso durante a audiência de Mike Benz na Câmara, ocorrida na última quarta-feira (6).

Segundo os posts enganosos, o “programa Fato ou Fake, transmitido pela TV Globo” teria sido responsável por manipular artificialmente as estatísticas de casos e mortes, criando um cenário mais grave do que o real. Não há qualquer evidência que sustente a alegação.

As peças desinformativas distorcem o fato de que, durante a pandemia, a Globo integrou um consórcio de imprensa que compilava informações oficiais de secretarias estaduais de Saúde para garantir transparência nos dados, já que o governo federal, à época, atrasou ou dificultou o acesso aos registros de casos e mortes.

Em nenhum momento houve manipulação dos números — os veículos apenas reproduziam informações oficiais das secretarias.

Além disso, o Fato ou Fake não é um programa de TV, como afirmam as publicações, mas sim um serviço de checagem do Grupo Globo que nunca foi responsável pela contagem de casos ou mortes da Covid-19.

O consórcio de veículos de imprensa foi criado em 2020 para contornar a falta de transparência do Ministério da Saúde na divulgação dos dados da Covid-19. Sob diferentes gestões da pasta, o horário de publicação dos boletins foi postergado até chegar em atrasos de várias horas, mesmo em datas com recordes de óbitos.

Além disso, passados alguns meses do início da pandemia, o boletim oficial passou a omitir o total acumulado de óbitos e casos, dando mais destaque a registros diários e casos registrados como “recuperados”, mesmo sem conhecimento de cura da doença.

Ao encerramento do consórcio, em 28 de janeiro de 2023, a colaboração contabilizou 696.809 óbitos por Covid-19. No mesmo dia, o Ministério da Saúde registrava 696.757 óbitos em todo o país.

A imagem mostra um ambiente interno da Câmara, com mesas de madeira dispostas em fileiras e microfones individuais sobre elas. Várias pessoas estão sentadas, de costas para a câmera, voltadas para a frente da sala. Na parte frontal, há uma grande tela dividida em vários painéis que exibe a imagem de um homem careca, com barba, vestindo terno azul e gravata vermelha, usando fones de ouvido com microfone. Atrás dele, na imagem projetada, há uma estante com livros, uma lareira e uma escultura. À direita da tela, sentados à mesa principal, estão um homem de terno e gravata e uma mulher de cabelo comprido vestindo camisa rosa-clara. Ao fundo, à direita, está uma bandeira do Brasil.
Depoimento de Benz na Câmara impulsionou desinformação sobre dados inflados na pandemia de Covid-19 (Alan Santos/Câmara dos Deputados)

Audiência. Mike Benz é ex-funcionário do Departamento de Estado e fundador da Foundation for Freedom Online (Fundação pela Liberdade nas Redes, em inglês), organização que atua contra políticas de regulação de plataformas e moderação de conteúdo nas redes.

Ele mantém contatos frequentes com lideranças bolsonaristas, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), com quem compartilha pautas sobre supostos casos de censura e perseguição política.

Na última quarta-feira (6), ele participou de audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara, presidida pelo deputado Filipe Barros (PL-PR). Durante a sua fala, Benz não apresentou qualquer prova de que a TV Globo teria inflado os números da Covid-19, ao contrário do que afirmam as publicações enganosas.

O ex-secretário é conhecido por difundir teorias conspiratórias sobre censura nas redes e já declarou, por exemplo, que a pandemia foi “um dos eventos mais censurados da história”, além de questionar a eficácia das vacinas — não apenas as contra a Covid-19.

No depoimento da última quarta, o ativista retomou a teoria conspiratória que o projetou no Brasil, segundo a qual a Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) teria atuado para impedir a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2022.

Ele também repetiu a alegação de que a Usaid teria destinado milhões de dólares a ONGs e organizações de checagem para “instrumentalizá-las no controle da informação”, o que Aos Fatos já mostrou ser falso.

Esta peça de desinformação também foi desmentida pelo Boatos.org.

O caminho da apuração

A reportagem iniciou a checagem lendo a íntegra do depoimento de Mike Benz à Câmara dos Deputados. Em seguida, a equipe consultou dados oficiais de casos e mortes por Covid-19 divulgados pelo Ministério da Saúde para comparar com os números compilados pelo consórcio de veículos da imprensa.

Também foi verificado o funcionamento do consórcio, com base em informações de veículos integrantes e reportagens da época, para confirmar que os dados publicados eram reproduções das estatísticas oficiais estaduais. O levantamento incluiu ainda a análise de conteúdos semelhantes já desmentidos pelo Aos Fatos.

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