Procedimento mostrado em vídeo não é capaz de fraudar urnas eletrônicas do TSE

Por Luiz Fernando Menezes

18 de novembro de 2020, 17h18


Um procedimento mostrado em vídeo que circula nas redes sociais não seria capaz de programar uma urna eletrônica da Justiça Eleitoral para transferir votos de um candidato ao outro, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Além de o equipamento exibido nas imagens ser um protótipo feito em uma impressora 3D, as urnas usadas hoje no Brasil passam por uma série de medidas de segurança que impediriam irregularidades do tipo.

As urnas eletrônicas estão submetidas a meios de auditoria para verificar mecanismos maliciosos nos seus softwares e firmwares, segundo o TSE. Além disso, os equipamentos não permitem a instalação de softwares alheios e passam por uma cadeia de confiança que verifica autenticidade e integridade de seus componentes. Toda urna contém ainda um código de identificação exclusiva, que impediria a substituição do objeto por outro, falso. E, em caso de irregularidades, o tribunal afirma que os votos da urna não são registrados.

A pedido do Aos Fatos, o professor Marcos Simplicio, da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), analisou o vídeo e concluiu que, por mais que a linguagem do código mostrada nas imagens seja semelhante, o programa não é o mesmo usado pela Justiça Eleitoral e não está submetido às etapas de verificação previstas pelo TSE.

Ao todo, as publicações que utilizam o vídeo para sugerir a existência de fraude eleitoral nas eleições municipais somavam ao menos 15 mil compartilhamentos no Facebook até o começo da tarde desta quarta-feira (18) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação (veja como funciona).


FALSO

Um vídeo em que um homem supostamente ensina um passo a passo de como fraudar uma urna eletrônica vem circulando nas redes sociais para sugerir que esse processo seria algo simples. Na gravação, o autor explica que inseriu um comando no código do equipamento para redirecionar votos para um determinado candidato e questiona se isso poderia ser feito por um mesário no dia da eleição. As peças, no entanto, omitem o contexto verdadeiro das imagens.

Intitulado “É possível fraudar uma urna eletrônica? Fizemos uma com Arduino para tentar”, o vídeo foi publicado originalmente no dia 14 de novembro no canal do Youtube Brincando com Ideias, especializado em programação e construção de brinquedos com o auxílio da tecnologia. Em suas publicações, é possível ver, por exemplo, guias para construção de árvores de natal e até robôs por meio do Arduino, plataforma de prototipagem utilizada na produção de software e hardwares.

A gravação original não estava disponível no canal na manhã desta quarta-feira (18), mas, pelos trechos disponíveis nas redes e pelo título da publicação, é possível ver que o autor sugere que uma urna eletrônica poderia repassar votos sem que ninguém percebesse, o que é falso.

Nos trechos compartilhados pelas peças de desinformação, é possível ver que o autor estava trabalhando com um equipamento construído por meio de uma impressora 3D e programada com Arduino, muito diferente de uma urna original.

Após analisar o vídeo, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) afirmou em nota que, "em termos de dispositivo de hardware, a urna é um computador. Porém, não é um computador comum de mercado, mas sim projetado conforme exigências estabelecidas pelo TSE para garantir a segurança de seu hardware".

O equipamento oficial, portanto, não seria "tão simples nem desprotegido como aquela [urna] apresentada no vídeo. Além disso, há meios de auditoria para se verificar se os softwares e firmwares executados na urna contém algum mecanismo malicioso”, segundo o tribunal.

A pedido do Aos Fatos, Marcos Simplicio, professor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), também analisou o procedimento do vídeo e disse ser um cenário muito diferente do real, com um programa que não é utilizado pela urna, embora a linguagem do código seja semelhante. Isso, porém, não bastaria para provar a chance de irregularidades, segundo o especialista, “porque qualquer código de ‘fraude’ na urna eletrônica precisaria afetar diferentes elementos”.

De acordo com o TSE, as urnas eletrônicas não permitem a instalação de softwares alheios e integram uma cadeia de confiança que verifica a autenticidade e a integridade de seus componentes. Caso essa cadeia identifique alguma irregularidade, os votos daquela urna não chegam a ser registrados.

George Maciel, secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do TRE-PE (Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco), que também analisou o vídeo a pedido do Aos Fatos, diz ainda que mesmo se o código original da urna estivesse programado para permitir fraude semelhante, ela seria facilmente identificada nas auditorias anteriores ao pleito e também após a eleição. Segundo o servidor, as urnas permanecem lacradas por até 90 dias para eventuais verificações.

E, mesmo que alguém conseguisse construir uma urna idêntica às utilizadas nas eleições, ela não seria aceita no resultado final, já que os equipamentos oficiais têm uma identificação exclusiva, que é conferida antes e depois da votação. “Se uma urna não corresponder àquela que foi carregada, há meios para que ela não seja considerada válida, permitindo ainda que sejam verificadas as evidências, caso se confirme alguma tentativa de fraude”, afirma o tribunal.

O Aos Fatos entrou em contato com o canal Brincando com Ideias por meio de e-mail e mensagem no Telegram na manhã desta quarta-feira (18) para que o canal pudesse comentar as peças que estão utilizando seu vídeo para desinformar. Até a publicação desta checagem, no entanto, não houve retorno.

Referências:

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