Tudo o que checamos sobre a investigação que levou à prisão domiciliar de Bolsonaro

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O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes decretou nesta segunda-feira (4) a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo o magistrado, o ex-presidente descumpriu medidas cautelares ao aparecer em posts, vídeos e ligações para apoiadores durante as manifestações deste domingo (3). Essa era uma das restrições impostas a ele no inquérito sobre a atuação do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA por sanções a ministros da corte e ataques ao governo brasileiro e à soberania nacional.

Na decisão, Moraes também proíbe Bolsonaro de receber visitas, a não ser de advogados e pessoas autorizadas nos autos, e de usar celulares, diretamente ou por terceiros. De acordo com o ministro, o descumprimento da domiciliar pode levar à decretação da prisão preventiva do ex-presidente.

Em 18 de julho deste ano, o magistrado impôs medidas cautelares ao ex-presidente após operação da PF (Polícia Federal) para apurar indícios da atuação de Bolsonaro para obstruir o processo em que é réu no STF por tentativa de golpe de Estado. Na ocasião, o presidente teve que colocar tornozeleira eletrônica e foi proibido de usar redes sociais, inclusive por meio de aliados.

Porém, neste domingo (3), Bolsonaro apareceu em fotos e vídeos nas redes sociais de aliados durante as manifestações em seu apoio. O ex-presidente falou ao público nos atos de São Paulo, por meio de ligação ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), e do Rio de Janeiro, ligando para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O parlamentar chegou a publicar um vídeo de Bolsonaro durante a ligação, mas apagou pouco tempo depois. Esses casos são citados na decisão de Moraes como prova de que o ex-presidente infringiu a proibição.

Bolsonaro sentado em uma cadeira dentro de casa, vestindo uma camisa amarela da seleção brasileira e shorts escuros. Ele segura um celular na mão direita, próximo ao rosto, aparentando participar de uma chamada de vídeo ou ligação. A perna esquerda está cruzada sobre a direita. Ao fundo, há uma parede branca, uma planta em vaso e alguns móveis. A imagem é uma captura de tela de uma postagem no Instagram feita por Flávio Bolsonaro, com legenda mencionando palavras de Jair Bolsonaro em Copacabana. Há também texto na parte superior da imagem com uma citação atribuída a Jair Bolsonaro.
Publicação de Flávio Bolsonaro com foto de ex-presidente foi citada na decisão de Moraes como violação de medida cautelar (Reprodução)

“A participação dissimulada de Jair Messias Bolsonaro, preparando material pré fabricado para divulgação nas manifestações e redes sociais, demonstrou claramente que manteve a conduta ilícita de tentar coagir o Supremo Tribunal Federal e obstruir a Justiça, em flagrante desrespeito às medidas cautelares anteriormente impostas”, afirmou o ministro na decisão.

Desinformações sobre o caso

Desde que Eduardo se mudou para os EUA, em fevereiro deste ano, uma série de desinformações passou a circular nas redes sociais, com mensagens que instigam ataques ao STF e defendem uma intervenção estrangeira em decisões do judiciário brasileiro.

A situação se agravou quando o presidente Donald Trump enviou uma carta ao governo brasileiro anunciando tarifas de 50% sobre produtos do país acusando, entre suas justificativas, o Estado brasileiro de perseguir Jair Bolsonaro. Na sequência, o governo americano anunciou a revogação de vistos da maioria dos ministros da corte e a aplicação de sanções financeiras a Moraes, por meio da Lei Magnitsky.

Desde então, o filho do ex-presidente já admitiu, por exemplo, que tem mantido “intenso diálogo” com autoridades do governo de Donald Trump e que o anúncio das tarifas “confirmou o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade”.

O objetivo de Eduardo, segundo ele mesmo, é buscar a anistia ampla, geral e irrestrita aos envolvidos no ataque à sede dos Três Poderes em 8 de janeiro, decisão que beneficiaria seu pai — réu por supostamente arquitetar, junto a aliados, um golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022.

Essa atuação motivou uma abertura de inquérito pelo STF para apurar a articulação de pai e filho com autoridades americanas para pressionar contra a condenação de Bolsonaro no processo em curso no tribunal.

A desinformação nas redes acompanhou a escalada da crise. Veja a seguir a cronologia das checagens sobre o caso até agora.


18 de julho: Moraes decreta medidas cautelares contra Bolsonaro
Entre as medidas aplicadas por Moraes estavam o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica, a proibição de se ausentar da comarca de Brasília, o recolhimento domiciliar noturno, e a proibição de uso das redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros.

A argumentação da família Bolsonaro e publicações nas redes se alinharam em mentir sobre o processo judicial e sobre comparações com o caso de Lula, preso entre 7 de abril de 2018 e 8 de novembro de 2019:

Donal Trump, homem grisalho à mesa em um escritório formal, vestindo terno azul, camisa branca e gravata vermelha. Ele segura uma folha com texto impresso e aparenta estar lendo ou revisando o conteúdo. Sobre a mesa de madeira escura há outros papéis, quatro telefones de mesa e objetos decorativos. Ao fundo, aparecem bandeiras, uma parede clara com quadro pendurado e dois bustos em destaque: um à direita, próximo aos telefones, e outro em primeiro plano, parcialmente desfocado. A cena ocorre no Salão Oval da Casa Branca.
Trump alegou que Moraes praticava uma ‘caça às bruxas’ contra empresas e cidadãos brasileiros e americanos (Daniel Torok/Casa Branca)

30 de julho: Trump aplica Lei Magnitsky contra Moraes
A medida visava o bloqueio de bens e empresas ligadas ao ministro que estivessem sediadas nos EUA, e impedir transações do magistrado com cidadãos e corporações do país. A violação das sanções pode resultar em penalidades civis ou criminais, tanto para cidadãos e empresas dos EUA quanto para estrangeiros.

Antes da aplicação das sanções, Trump ainda anunciou medidas contra outros magistrados, como o cancelamento de vistos, o que gerou uma onda de desinformação contra os ministros e seus familiares:

  • Presidente do STF, Barroso não foi alvo da Lei Magnitsky
    Posts nas redes enganaram ao afirmar que o presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso, foi sancionado pelos EUA e, por isso, teria perdido acesso a contas bancárias, cartões de crédito e até ao passaporte brasileiro. Na realidade, a única medida anunciada contra ele foi a suspensão do visto americano, divulgada em 18 de julho;
  • Vídeo não mostra filha de Barroso sendo escoltada por policiais em aeroporto nos EUA
    Também não era verdade que a filha do ministro Barroso foi flagrada deixando um aeroporto nos Estados Unidos com destino ao Brasil sob escolta da polícia americana. Em nota, o STF disse que essa alegação é falsa e reiterou que Luna reside no Brasil e não esteve nos Estados Unidos recentemente;
  • É falso que filhos de Barroso foram deportados dos EUA
    Aos Fatos também verificou ser falsa a alegação de os filhos de Barroso estivessem à bordo de uma aeronave da Força Aérea americana junto a imigrantes ilegais com destino a Manaus (AM). A corte afirmou que os filhos do ministro não foram deportados e sequer estão nos EUA, e que não há informações oficiais sobre cancelamentos de vistos;
  • Vídeo de protesto contra o STF na Casa Branca foi gerado por IA
    Brasileiros e americanos não realizaram recentemente um protesto contra o STF em frente à Casa Branca, residência oficial do presidente dos EUA, como alegam posts nas redes. O vídeo viral que circulou nas redes foi gerado por IA (inteligência artificial).
Grupo de pessoas reunidas em uma via urbana durante um evento ao ar livre. Muitas delas vestem roupas com as cores da bandeira do Brasil, especialmente verde e amarelo, e algumas carregam bandeiras enroladas nos ombros. No centro da imagem, três bandeiras estão hasteadas: a do Brasil, dos Estados Unidos e de Israel. Ao fundo, há prédios altos, incluindo um edifício com fachada de concreto onde se vê parcialmente a inscrição “SESC”. Também é visível uma placa de trânsito indicando área de restrição de estacionamento.
Dezenas de milhares de apoiadores do ex-presidente se reuniram em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília no último domingo (Cadu Pinotti/Agência Brasil)

3 de agosto: Manifestações contra STF
Bolsonaristas realizaram protestos em diversas cidades brasileiras no último domingo (3). Os atos pediam a anistia dos presos pelo 8 de Janeiro, o impeachment de Lula e Moraes e contaram com cartazes de apoio a Trump.

Nesta segunda-feira, apoiadores do ex-presidente passaram a compartilhar vídeos antigos para tentar inflar os atos, enquanto opositores usaram registros fora de contexto para sugerir uma adesão menor aos protestos:

O caminho da apuração

Aos Fatos obteve acesso à decisão de Moraes desta segunda-feira (4) e reuniu informações sobre o que motivou a decretação da prisão domiciliar de Bolsonaro.

Também reunimos todas as desinformações checadas sobre o caso desde que o ex-presidente foi obrigado a usar tornozeleira até o momento, passando por toda a escalada da crise que envolveu outros ministros da Corte e o presidente americano Donald Trump.

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