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Prisão de professor de Harvard ligado à universidade de Wuhan não tem relação com Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes

9 de abril de 2020, 15h53

Não é verdade que um professor de química da Universidade de Harvard foi preso por ter “vendido” o novo coronavírus para a China. Charles Lieber de fato foi detido, em janeiro deste ano, mas por outro motivo: segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ele ocultou o financiamento recebido de uma universidade em Wuhan para desenvolver uma bateria de lítio. A denúncia das autoridades americanas não traz qualquer menção a vírus ou pesquisa biológica.

O conteúdo enganoso (veja aqui) tem circulado em diversos países, como França, Espanha e EUA, para reforçar a teoria conspiratória de que o novo coronavírus foi criado em laboratório. No Brasil, a desinformação consta em publicações que já acumulavam ao menos 10 mil compartilhamentos no Facebook até esta quinta-feira (9). Todos foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

EUA descobre o homem que fabricou e vendeu o virus Covid-19 à China. Chama-se Dr Charles Lieber, Chefe do Departamento de Quimica e Biologia na Universidade de Hravard, EUA. Acabou de ser preso hoje segundo fontes do Departamento Americano.

De fato, o professor de química da Universidade de Harvard, Charles Lieber, foi preso no dia 28 de janeiro em Massachusetts, nos Estados Unidos. No entanto, sua detenção não tem qualquer relação com a pandemia de Covid-19, de acordo com a denúncia apresentada pelas autoridades dos EUA e o depoimento que ele prestou.

Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o professor ocultou que estava recebendo financiamento da Universidade Tecnológica de Wuhan e foi acusado por falso testemunho. Segundo depoimento de um agente do FBI, Lieber teria assinado um acordo com a instituição chinesa para “conduzir uma pesquisa avançada e a produção de uma bateria de lítio baseada em nanotecnologia com alta performance para veículos elétricos”. Não há nos documentos qualquer informação a respeito de vírus.

Ainda de acordo com o documento do FBI, o professor teria recebido US$ 50 mil mensais, além da quantia de US$ 1,5 milhão como investimento para estabelecer um laboratório de pesquisa na Universidade Tecnológica de Wuhan. Lieber foi solto dois dias depois de sua prisão com o pagamento de uma fiança de US$ 1 milhão.

Outro indício que desmonta a tese de que o professor estaria trabalhando para criar um vírus é que a Universidade Tecnológica de Wuhan não possui projetos ligado à área biológica. A instituição concentra pesquisas de transportes, automação e logística.

Outras prisões. Além de Lieber, outro pesquisador de Harvard também foi preso na mesma época. Zaosong Zheng foi detido em dezembro de 2018 enquanto tentava sair do país com células roubadas do laboratório que pesquisa principalmente câncer e é localizado em Boston. Segundo as autoridades americanas, o pesquisador admitiu que queria impulsionar sua carreira acadêmica publicando uma pesquisa na China com seu nome. O pesquisador foi solto em março de 2020.

Por fim, a pesquisadora Yanqing Ye, ligada à uma pesquisa de robótica na Universidade de Boston, teve voz de prisão em janeiro deste ano por esconder que era um tenente do Exército da Libertação Popular e que continuava cumprindo missões dadas pelo governo chinês enquanto estava na universidade, como acessar sites militares americanos e enviar documentos dos Estados Unidos à China. Segundo o FBI, Yanqing atualmente está na China, foragida.

A mesma peça de desinformação circulou também em outros países, como Estados Unidos, Indonésia, Índia, Espanha, França e México, tendo sido checada pelas agências locais. No Brasil, a Agência Lupa, o Fato ou Fake e o Boatos.org também desmentiram essas publicações.

Referências:

1. Departamento de Justiça
2. Science
3. Washington Times
4. Universidade Tecnológica de Wuhan
5. NY Times
6. Telegram
7. FBI


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