Pressionados por redes sociais, bolsonaristas levam desinformação ao Telegram e quintuplicam audiência no app em um mês

Por Bernardo Barbosa, Bruno Fávero, Débora Ely e João Barbosa

4 de fevereiro de 2021, 18h04

Alvo de bloqueios em redes sociais por publicarem desinformação, influenciadores bolsonaristas têm recorrido cada vez mais ao Telegram para chegar a seus seguidores. Em um mês, os maiores canais de apoiadores do presidente dobraram o ritmo de suas publicações e quase quintuplicaram o número de visualizações que acumulam no aplicativo, mostra levantamento do Radar Aos Fatos.

A reportagem encontrou 282 canais de blogueiros de direita na rede e coletou dados dos 20 que somavam mais seguidores. Quatro deles foram abertos no mês passado, e os outros 16 tiveram um aumento explosivo em seu alcance: somados, passaram de 27,7 milhões de visualizações em dezembro para 134,6 milhões em janeiro, crescimento de 386% em apenas um mês.

A disparada é sustentada tanto em um aumento no volume de mensagens publicadas quanto no crescimento do público. Os 16 canais foram de 3.294 para 6.447 posts de um mês para o outro, alta de 95%. Já a média de visualizações de cada post do grupo subiu 150%, de 8.400 para 21.202.

As mensagens enviadas nesses canais, que incluem perfis de nomes como o do escritor Olavo de Carvalho e do jornalista Allan dos Santos, mostram que eles reproduzem no Telegram o comportamento que levou a suspensões em outras redes — 17 dos 20 canais analisados compartilharam conteúdo enganoso em ao menos uma de suas dez mensagens mais populares.

Migração. O impulso ao uso do aplicativo de origem russa entre grupos de direita acontece desde o ano passado, mas ganhou força recentemente depois que outras grandes plataformas deram sinais de que podem adotar práticas mais rígidas contra desinformação e discurso de ódio.

Nos EUA, Facebook, Twitter e YouTube suspenderam as contas do ex-presidente Donald Trump em resposta à invasão ao Capitólio americano, no dia 6 de janeiro. No Brasil, as plataformas miraram apoiadores de Bolsonaro.

Olavo, por exemplo, teve publicações apagadas do Twitter em janeiro por divulgar desinformação sobre Covid-19. A plataforma também suspendeu temporariamente a conta de Allan dos Santos, que ainda teve seus canais de YouTube excluídos nesta quarta-feira (3).

Bolsonaristas, por sua vez, responderam à pressão estimulando a migração de seus seguidores. “Alô, tchurma, estou no Telegram. Daqui a uns dias passarei a publicar lá em vez de só aqui”, escreveu Olavo no Twitter em 27 de dezembro. No último dia 13, voltou a postar: “Estou no [aplicativo] Gab e no Telegram. Se eu desaparecer daqui, vocês sabem onde me procurar.”

Allan fez apelo similar no Twitter, em 5 de janeiro: “Sigam-me no Telegram, onde tenho liberdade para divulgar aquelas notícias que incomodam os globalistas”.

O próprio presidente Jair Bolsonaro abriu um perfil no aplicativo de mensagens em janeiro, onde já acumula mais de 300 mil seguidores. Seu canal, assim como os de outros políticos, não foi incluído neste levantamento.

Os maiores. Hoje, o maior perfil do Telegram bolsonarista é o "Allan dos Santos", do dono do site Terça Livre. Ele tem o maior número de inscritos (107 mil nesta quinta) e acumulou, em janeiro, a maior soma de visualizações (37 milhões, alta de 2.416% sobre o 1,4 milhão de dezembro), o maior número de posts publicados (900, alta de 1.300%) e a maior média de visualizações por post (41.156, alta de 78%).

É seguido pelo canal Brasil Paralelo (80 mil inscritos), o único dos 20 analisados que registrou queda em janeiro no número de visualizações e de mensagens publicadas.

Já o canal de Olavo (o terceiro maior, com 68 mil inscritos) está entre os cinco mais novos, criados nos últimos dois meses — completam a lista "Leandro Ruschel", "Patriotas", "Ludmila Lins Grilo" e "Mauro Fagundes".

Diferentemente do WhatsApp, que permite grupos de discussão de no máximo 256 pessoas, o Telegram libera até 200 mil participantes. Não há limite para os canais, formato usado pelos perfis mostrados neste levantamento. Nesse modelo, participantes recebem as mensagens publicadas pelo dono do perfil, mas não podem respondê-las a não ser que sejam autorizados pelos moderadores.

Eleições e pandemia. Além do crescimento expressivo, quase todos os canais têm em comum o fato de reproduzirem desinformação.

O Radar Aos Fatos analisou as dez mensagens mais visualizadas de cada um dos 20 canais monitorados. Como já mencionado, conteúdos enganosos foram identificados em 17 deles. Nesses canais, 58 mensagens (29% do total analisado) continham informações falsas.

O assunto predominante, com 22 mensagens, foi a eleição dos EUA, em alta no período analisado por conta da posse do presidente Joe Biden em janeiro. As mensagens desinformativas se referem sobretudo à infundada teoria de que houve fraude no processo. O Aos Fatos já checou alegações improcedentes sobre a disputa norte-americana aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A segunda temática mais recorrente foi a pandemia da Covid-19 (21 mensagens), o que incluiu principalmente desinformação sobre vacinas (nove publicações), além de alegações falsas sobre tratamento, uso de máscaras e a origem do novo coronavírus.

Lida por mais de 116 mil pessoas até o momento da coleta dos dados, uma publicação de Olavo foi a mensagem com desinformação que teve maior audiência no escopo analisado. O conteúdo disseminou a falsa teoria de fraude eleitoral nos EUA, questionando a lisura do resultado que deu a Biden a vitória nas urnas, em novembro.

A segunda publicação enganosa com maior audiência foi de Allan. Mais de 102 mil usuários visualizaram a alegação falsa de que a presença de Biden na Casa Branca era mera encenação. Na publicação, o influenciador usou uma imagem de um estúdio de TV compartilhada pelo perfil oficial do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.

O jornalista também foi o responsável pela terceira mensagem desinformativa com maior audiência, atingindo quase 99 mil pessoas. Allan postou que uma apresentadora de TV norte-americana riu, ao vivo, da eficácia geral de 50,38% da CoronaVac. Entretanto, o vídeo é antigo e foi manipulado, como o Aos Fatos mostrou no último dia 14.

Já o canal com maior incidência de desinformação foi o do médico Alessandro Loiola, clínico-geral em São José dos Campos (SP) que, recentemente, lançou um livro intitulado “Covid-19 – Fraudemia”. Das dez mensagens mais vistas, oito foram consideradas desinformativas.

Outro lado. O Aos Fatos entrou em contato por e-mail com 13 dos 17 canais que publicaram conteúdo com desinformação, mas nenhum deles respondeu ao pedido de posicionamento. Não foram localizados se-mails dos canais “Patriotas”, “Eu Sou de Direita” e não conseguiu contatar Olavo de Carvalho.

A reportagem também conversou por email com Bárbara Destefani, dona do canal de YouTube "Te atualizei", mas ela afirmou que não é a responsável pelo canal de Telegram “Te Atualizei - Clube Patriota”. Segundo Destafani, o perfil é mantido por um grupo de fãs que ela não conhece.

O Aos Fatos ainda procurou o Telegram para questionamentos sobre sua política de combate à desinformação. Até o momento, contudo, não teve retorno.

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Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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