Vídeo não mostra presos usando celular, mas atores de clipe musical

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Não mostra uma situação real o vídeo em que homens vestidos como detentos circulam pelo corredor de uma carceragem usando celulares. As imagens exibem atores nos bastidores de um videoclipe do MC Bó do Catarina na antiga sede do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) em Belo Horizonte (MG).

O vídeo tem sido usado em posts que criticam a proibição de visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e acumulava mais de 110 mil interações no TikTok nesta quarta-feira (15).

BRASIL DE LULA: ENQUANTO BOLSONARO NÃO PODE FALAR COM O FILHO, PRESOS DESFILAM COM CELULARES DENTRO DOS PRESÍDIOS.

Uma captura de tela vertical de um vídeo exibe a visão de um corredor comprido e estreito, característico de um presídio, com piso claro demarcado por linhas e portas de celas com grades metálicas em ambos os lados, sob iluminação artificial no teto. Ao fundo da passagem, duas pessoas vestindo uniformes compostos por calça e camisa vermelhas soltas movimentam-se pelo corredor. Ocupando a parte inferior da tela, em letras maiúsculas brancas alinhadas à esquerda junto a uma barra vertical azul, lê-se a seguinte frase: ‘BRASIL DE LULA : ENQUANTO BOLSONARO NÃO PODE FALAR COM O FILHO, PRESOS DESFILAM COM CELULARES DENTRO DOS PRESÍDIOS’. Logo abaixo, no canto inferior direito, um pequeno ícone triangular azul é acompanhado pelas palavras ‘COMPARTILHE’ dentro de uma pequena tarja rosa, e ‘CONHECIMENTO’ em letras menores brancas logo abaixo. Por fim, no canto inferior esquerdo, há uma área retangular horizontal que foi borrada digitalmente.

Posts enganam ao tirar de contexto um vídeo que mostra homens com uniforme de detento usando celulares no corredor de uma carceragem. As imagens foram gravadas nos bastidores de um videoclipe musical. As pessoas caracterizadas como presos são, na realidade, atores.

Em busca reversa, Aos Fatos identificou que imagens semelhantes foram divulgadas em dezembro do ano passado no TikTok pelo influenciador Mano Julin. No vídeo, ele diz que participou da gravação de um clipe do MC Bó do Catarina no antigo Dops de Belo Horizonte.

De fato, o vídeo da música “Vida Loka Também Ama”, que estreou naquele mês, mostra o mesmo cenário e as mesmas pessoas que aparecem no trecho usado pelas peças de desinformação (veja abaixo).

Uma imagem apresenta uma montagem com duas capturas de tela verticais, com bordas arredondadas, dispostas lado a lado sobre um fundo branco. Ambas as capturas retratam o mesmo homem jovem, negro, com cabelo curto escuro e barba rala, vestindo uma camiseta vermelha lisa. Na captura da esquerda, o homem aparece olhando em direção à câmera enquanto segura um aparelho celular escuro nas mãos, parcialmente visível no canto inferior esquerdo. O fundo é composto por uma parede rústica com textura irregular e pintura manchada em tons de bege. Sobreposta à parte inferior esquerda da imagem, há uma marca d'água de um botão circular escuro de reprodução ('play') com um triângulo branco no centro, além de um ícone quadrado translúcido menor próximo à orelha do homem. Na captura da direita, o enquadramento é ligeiramente mais fechado, focando no rosto e parte do tronco do homem. Ele não olha para a câmera; em vez disso, seu olhar está direcionado fixamente para a esquerda do quadro, com uma expressão séria. O fundo está em um ambiente um pouco mais escuro, mas é possível identificar a silhueta de outras pessoas atrás dele vestindo a mesma camiseta vermelha.
Homem que aparece no vídeo descontextualizado (à esq.) é um ator do videoclipe (à dir.) (Reprodução/YouTube)

Grades, piso, pintura e uniformes de detentos são idênticos aos que aparecem no videoclipe (Reprodução/YouTube)

O artigo 349 do Código Penal proíbe o uso de celulares em presídios, mas a entrada e uso desses aparelhos em penitenciárias é de fato um problema em unidades prisionais de Brasil todo. Segundo o Ministério da Justiça, 7.966 aparelhos foram apreendidos com detentos nos últimos três anos pela Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais).

Decisão de Moraes

O vídeo descontextualizado tem sido compartilhado nas redes em meio às críticas de bolsonaristas à decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes que proibiu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de visitar seu pai na prisão domiciliar por 90 dias.

O magistrado proferiu a decisão nesta segunda-feira (13) após Flávio ler, durante uma transmissão ao vivo, uma carta escrita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Para o ministro, o material foi produzido com o objetivo de ser divulgado nas redes, o que caracteriza, segundo Moraes, descumprimento da medida cautelar.

Flávio recorreu à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para tentar reverter a decisão argumentando que integra a defesa do ex-presidente e, por isso, deveria ter direito a ter uma comunicação livre com ele. A entidade concordou com o senador.

O caminho da apuração

Aos Fatos fez uma busca reversa pelas imagens e encontrou vídeos semelhantes no TikTok. A reportagem fez comparações entre as pessoas e o local que aparecem nas gravações e constatou que se trata do mesmo contexto.

Aos Fatos também consultou dados referentes à apreensão de celulares em presídio e procurou informações referentes à decisão de Alexandre de Moraes em relação à proibição de visitas de Flávio a Jair Bolsonaro.

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