A verdade tem sido uma das vítimas na troca de ataques entre os presidenciáveis nesta pré-campanha eleitoral. Aos Fatos checou como desinformativas declarações em que Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) citaram uns aos outros nos últimos meses.
Enquanto o senador do PL critica Lula por falas que ele não disse, o atual presidente erra fatos históricos quando acusa Flávio de traição à pátria. O petista distorce ainda dados sobre um acordo de terras raras assinado por Caiado, que inventa que Lula criou o MST. Já Zema e Renan desinformam ao criticar ações do PT e de Flávio.
Veja abaixo o que checamos:
Lula
Por menos que isso, Joaquim Silvério dos Reis, delator de Tiradentes, foi enforcado. Esse cidadão [Flávio] hoje aparece lá em pé: 'Eu não falei nada'. Todo covarde é assim, fala a merda que fala, e por não ter coragem de assumir o que fala, fica tentando mentir — 2.jun.2026
Em discurso, Lula criticou Flávio Bolsonaro e seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), após os EUA ameaçarem novas sanções comerciais. Porém, ao traçar paralelo com a Inconfidência Mineira, o petista desinformou: Joaquim Silvério dos Reis, delator de Tiradentes, não foi enforcado.
Reis, que era comandante do Regimento de Cavalaria, traiu o movimento da Inconfidência Mineira e, por isso, foi recompensado pela coroa portuguesa. Segundo os registros, ele morreu de causas naturais em São Luís (MA) em 1819.
Quem morreu enforcado foi o próprio Tiradentes. Sua execução foi realizada no dia 21 de abril de 1792. Depois de morto, seu corpo ainda foi esquartejado e exposto ao público para desencorajar novas rebeliões contra o controle português.
Por causa dessa fala, Flávio Bolsonaro acionou o STF (Supremo Tribunal Federal) para que Lula fosse investigado por ameaça e incitação ao crime.
Caiado fez acordo com empresas americanas, fazendo concessão de coisas que ele não pode fazer porque é da União. Então se a gente não tomar cuidado, essa gente vai vender o Brasil e nós não podemos permitir. — 8.abr.2026
Nesta fala, Lula criticava a assinatura de um memorando entre o então governador de Goiás Ronaldo Caiado e o governo dos EUA, em meados de março deste ano, para a venda de minerais críticos, ou terras raras, grupo de 17 elementos químicos de difícil extração.
Ao afirmar que a assinatura do memorando colocaria o Brasil “à venda”, o petista desconsidera que o país já exporta minerais críticos para outros países.
Segundo o Comex Stat, plataforma do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), desde o início do governo Lula, o Brasil exportou cerca de US$ 14 milhões em compostos de metais de terras raras para a China (US$ 2,1 milhões em 2024 e US$ 11,9 milhões em 2025).
Outros países que adquiriram materiais provenientes de terras raras brasileiras nesse período foram Estônia, Canadá, Alemanha, EUA e México (veja abaixo).
Estima-se que o Brasil tenha a segunda maior reserva desses materiais (cerca de 23% das reservas mundiais).
Esses minerais estão no centro de uma disputa geopolítica porque são usados em smartphones, TVs e lâmpadas de LED, e para o aparato militar. Por causa disso, o governo Trump tem avançado em negociações com produtores deste tipo de minério, como o Brasil.
Memorando. A declaração de Lula ainda distorce o memorando assinado pelo governo goiano. Apesar de o documento não ter sido divulgado, alguns veículos da imprensa tiveram acesso ao seu conteúdo. Segundo a CNN Brasil, o texto seria um “arranjo voluntário”, sem contratos ou compromissos legais para venda de materiais.
A parte mais crítica do memorando, segundo o próprio governo federal, é o compartilhamento de dados produzidos em levantamentos geológicos feitos em projetos apoiados pelos EUA.
À Folha de S.Paulo, um representante do Serviço Geológico do Brasil disse que o acordo seria preocupante caso o compartilhamento de dados fosse tratado de forma comercial e sigilosa com os EUA, o que poderia criar uma exclusividade para os americanos.
O secretário de Governo de Goiás, no entanto, diz que não há esse risco e alega que o memorando não entra em atribuições do governo federal.
Como a íntegra do documento não foi divulgada, também há divergências entre juristas se o memorando invadiu ou não as competências da União.
Baixa produção. Mesmo com a vasta reserva, o Brasil não possui uma grande produção desses minerais. Segundo o último relatório do Departamento Americano do Interior, o país produziu 2.000 toneladas desses materiais em 2025, ficando atrás de países com reservas menores, como Austrália e Rússia.
O país possui apenas uma mineradora de terras raras: a Serra Verde, em Minaçu (GO), proprietária da mina de Pela Ema. A empresa foi comprada pela americana USA Rare Earth em abril de 2026.
A transação, no entanto, depende de aprovações regulatórias e de acionistas para ser concluída. Procurada, a Serra Verde disse que o processo de venda está em andamento e deve ser concluído ainda em agosto.
Outro lado. Contatado, o Palácio do Planalto não respondeu ao pedido de comentários feito por Aos Fatos.
Flávio Bolsonaro
Eu lembro de uma frase que o Luiz falou, aquele mesmo Luiz, disse assim, ele falou: eu vou fazer o diabo para me eleger. — 16.mai.2026
Flávio tem citado a suposta declaração de Lula para tentar criar uma contraposição: enquanto ele estaria “do lado de Deus”, o petista estaria alinhado com o diabo. Lula, no entanto, nunca disse isso.
Na verdade, a declaração mais próxima dessa foi dita pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em março de 2013.
Em evento em João Pessoa (PB) com políticos do PSB, então adversário do seu governo, ela usou a expressão “fazer o diabo” para dizer que, independente da disputa eleitoral, é preciso respeito entre rivais que ocupam cargos públicos.
“Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição, mas, quando se está no exercício do mandato, temos de nos respeitar, pois fomos eleitos pelo voto direto”, afirmou a petista na ocasião.
A declaração foi distorcida, na época, por diferentes veículos para tentar relacioná-la ao satanismo.
Uma coluna do jornalista Reinaldo Azevedo, por exemplo, trouxe o título “Dilma confessa: ‘Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição’. Entendi!”. Nela, o colunista primeiro questiona se a frase não seria uma força de expressão, depois pergunta se não haveria outra maneira de dizer isso.
A fala foi resgatada em 2025 em um editorial do Estadão, também fora de contexto, para dizer que, com a impopularidade do terceiro mandato, “resta ao lulopetismo aplicar a máxima de Dilma e ‘fazer o diabo’ para ganhar a eleição”.
Ele mesmo [Lula] falou ‘quanto mais inteligente for o povo menos o povo vota no PT’ — 13.jun.2026
O senador replica nesta fala uma desinformação que circula nas redes desde 2023. Na realidade, Lula não disse que, quanto mais inteligente, menos o brasileiro vota no PT.
Essa alegação nasce de uma distorção de uma fala do petista na Conferência Eleitoral do PT em dezembro de 2023. Em discurso, Lula propôs uma reflexão para a sigla tentar entender porque elegeu menos deputados federais do que gostariam:
“Nós temos que nos perguntar por que um partido que muitas vezes no discurso pensa que tem toda verdade do planeta, só conseguiu eleger 70 deputados. Por que tão pouco se a gente acha que poderia ter muito mais? É preciso que a gente tente encontrar a resposta dentro de nós. Será que estamos falando aquilo que o povo quer ouvir de nós? Será que nós estamos tendo competência para convencer o povo das nossas verdades ou será que temos que aprender com o povo como a gente fala com ele?”, diz ele (minutagem 2:17:50 do vídeo).
Logo após (minutagem 2:19:37 do vídeo), Lula diz:
“Se você pega as pesquisas de opinião pública, a gente tá percebendo que quem vota majoritariamente no PT são pessoas que ganham até dois salários mínimos. Um metalúrgico de São Bernardo, que ganha R$ 8 mil, já não quer mais votar na gente. Pega a pesquisa e vocês percebem que quem ganha acima de cinco salários mínimos já tem dificuldade de votar na gente. É por que essa pessoa ficou ruim? Não, é porque possivelmente essa pessoa elevou um milímetro padrão de vida dela, de aprendizado dela e nós não aprendemos a conversar com ela”.
Em nenhum momento, portanto, Lula diz que as pessoas “mais estudadas” não votam no PT. Na verdade, o que ele fala é que, segundo as pesquisas de opinião, o partido tem apresentando menores votações entre as classes mais ricas e, por isso, a sigla deveria aprender a dialogar com elas.
Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de Flávio, mas não houve resposta até a publicação desta checagem.
Ronaldo Caiado
O Lula criou o MST, e eu criei a UDR. O MST para invadir propriedade rural e a UDR para proteger o direito de propriedade – 14,jul.2026 (58’37)
Presença recorrentemente em falas do ex-governador de Goiás para dizer que Lula seria contrário ao agronegócio, o argumento é falso porque o petista não participou da criação do MST.
O movimento foi fundado em janeiro de 1984 quando 92 líderes camponeses se reuniram durante o 1º Encontro Nacional de Trabalhadores Sem Terra, em Cascavel (PR). O evento tinha apoio da Pastoral da Terra da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), mas queria se desvincular da Igreja Católica ou de partidos.
Lula participou do 1º Congresso Nacional do MST em Curitiba (PR), que aconteceu um ano depois do movimento ser criado, em janeiro de 1985.

“Apesar do Lula ter participado do 1° Encontro Nacional do MST, e o movimento ter se inspirado também no sindicalismo combativo, o MST não foi fundado por Lula, foi criado e consolidado como uma organização autônoma, protagonizada pela classe trabalhadora rural”, disse a assessoria da organização ao Aos Fatos.
Já a UDR de fato foi criada por Ronaldo Caiado em maio de 1985. Na época, o então presidente José Sarney havia lançado o PNRA (Plano Nacional de Reforma Agrária), que previa a desapropriação de terras produtivas. Caiado, que é de família de ruralistas, além de ter sido um dos fundadores, foi presidente da organização por anos.
Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de Caiado por mensagem no WhatsApp e por email disponibilizado no site da campanha. Porém, Aos Fatos não recebeu retorno até a publicação desta checagem.
Romeu Zema
O Brasil, naqueles dois anos [2015 e 2016], foi o único país do mundo que engatou marcha ré. O mundo todo crescendo, todos os alunos tirando nota nove e o Brasil tirando nota dois por causa do PT, do Lula e da Dilma. – 12.jun.2026
É fato que o Brasil registrou um período de recessão econômica no biênio 2015-2016, mas não foi o único, como afirma o ex-governador de Minas Gerais. De acordo com o Banco Mundial:
- Ao menos outros quatro países — Venezuela, Suriname, Líbia e Belarus — também apresentaram retração nos dois anos citados;
- A Rússia apresentou PIB negativo de 1,97% em 2015 e, no ano seguinte, cresceu apenas 0,19%;
- Outro país que teve um saldo negativo no biênio foi a Ucrânia: -9,77% em 2015 e 2,44% em 2016;
- E diversos outros países apresentaram retração em algum dos anos citados. A Argentina, por exemplo, fechou 2015 com 2,08% de retração.
O Brasil, por sua vez, sofreu queda de 3,8% no PIB em 2015 e de 3,6% em 2016. O último ano registrou retração nos três setores que entram no cálculo do PIB: agropecuária (-6,6%), indústria (-3,8%) e serviços (-2,7%).
Outro lado. Aos Fatos enviou mensagem para a assessoria do ex-governador, bem como um email para a campanha, mas não recebeu retorno.
Renan Santos
[O Flávio] apoiou a maior parte das nomeações dos ministros do STF ligados ao petismo agora. — 5.mai.2026
A declaração é falsa porque, além de as votações das nomeações de ministros do STF serem secretas, Flávio declarou ter votado contra as três indicações feitas por Lula.
Em seu terceiro mandato, iniciado em 2023, o petista fez três nomeações:
- Cristiano Zanin, indicado em junho de 2023;
- Flávio Dino, em novembro de 2023;
- Jorge Messias, em novembro de 2025, rejeitado pelo Senado.
Zanin foi aprovado por 21 votos a 5 na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e por 58 votos a 18 no plenário do Senado. Durante a votação na Comissão, apesar de ter elogiado o perfil “garantista” de Zanin, Flávio não disse, em nenhum momento, que apoiava o advogado.
O senador já disse, diversas vezes (veja exemplos aqui e aqui), ter votado contra a indicação de Zanin. Como a votação é secreta, não há como comprovar ou desmentir essa declaração.
Já em relação a Dino, Flávio declarou voto contrário antes mesmo da sabatina. Durante a discussão na CCJ, o senador disse que Dino adotou tom “belicoso” quando ministro da Justiça e lembrou os “mais absurdos adjetivos” que ele teria usado para se referir a Jair Bolsonaro.
Dino, ao final, foi aprovado por 17 votos a 10 na CCJ e por 47 votos a 31 no plenário.
Por fim, Flávio também declarou, antes da apreciação pela CCJ, que iria votar contra a indicação de Jorge Messias. Durante a sabatina, o senador ainda acusou o ex-AGU de deixar sindicatos de fora das decisões sobre os desvios do INSS e o criticou por ser contra o projeto de anistia dos condenados pelo 8 de Janeiro.
A fala faz parte de um argumento maior de Santos, que defende que Flávio seria o “Judas” da direita. Segundo o pré-candidato do Missão, como Flávio precisou, diversas vezes, de intervenções de ministros do STF e do centrão para desviar o foco de seus escândalos, ele iria na direção contrária dos interesses da direita.
Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa da campanha de Santos, que não respondeu até a publicação desta checagem.
O caminho da apuração
Aos Fatos reuniu as declarações feitas pelos cinco principais candidatos segundo as pesquisas de opinião. Na sequência, a reportagem checou as declarações e consultou dados públicos e reportagens publicadas pela imprensa.
As assessorias de todos os citados foram contatadas e, em alguns casos, além do pedido de comentários, também abrimos espaço para que eles respondessem às alegações feitas pelos outros pré-candidatos.





