Posts usam vídeos já desmentidos ao sustentar que eleições são fraudadas

Por Luiz Fernando Menezes

25 de agosto de 2021, 16h01

Para sustentar uma alegação de que há fraude nas eleições brasileiras, postagens nas redes exibem um compilado de vídeos com acusações surgidas em pleitos passados e que já foram desmentidas ou nunca comprovadas (veja aqui). Das seis gravações mostradas, três citam denúncias que se provaram falsas e uma é montagem sobre uma fala do ministro Luís Roberto Barroso, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Aos Fatos não conseguiu verificar a autenticidade dos outros vídeos, mas eles tampouco atestam fraudes eleitorais.

Este conteúdo enganoso somava mais de 100 mil compartilhamentos em posts no Facebook nesta quarta-feira (25) e foi marcado com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (veja como funciona).


Acabei de digitar 17 e apareceu voto nulo

Um dos vídeos mostra um homem vestido com uma camiseta amarela que alega não ter conseguido votar no seu candidato para presidente porque a urna automaticamente anulou seu voto. Na realidade, ele errou a ordem de votação e, após a confusão, conseguiu registrar sua escolha normalmente.

O vídeo completo circulou nas redes em 2018 e foi registrado no Rio de Janeiro, como pode ser visto no minuto 2 ao observar o colete do fiscal que auxilia o homem, com a inscrição TRE-RJ (Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro). O eleitor registra quatro votos, como se pode verificar ao ouvir o som de confirmação da urna nas minutagens 0’41’’, 0’49’’, 0’56’’ e 1’00’’. Depois, ele sai da cabine de votação dizendo que seu voto “17” foi anulado.

Nas eleições de 2018, a ordem de votação era: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente. Como não havia candidato do PSL (número 17) ao governo do Rio de Janeiro, o eleitor recebeu a mensagem de anulação ao digitar 17 no momento de registrar o voto para governador. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) também desmentiu essa alegação na época.


A gente viu até vídeo que você clica no número um e já aparece a foto do capiroto, do Haddad”. Então, assim, é bem complicado, né?

Outro trecho da compilação mostra uma mulher que reproduz uma denúncia que circulou nas redes sociais durante as eleições de 2018: de que a urna eletrônica completava automaticamente o voto para Fernando Haddad (PT) ao digitar o algarismo 1. Três versões semelhantes desta alegação foram desmentidas pela Justiça Eleitoral.

O vídeo que mostrava esse suposto erro foi analisado por um técnico de vídeo do TRE-MG (Tribunal Eleitoral Regional de Minas Gerais), que concluiu que a peça apresentava indícios de montagem e que, em nenhum momento da gravação, a câmera exibiu a tela e o teclado da urna ao mesmo tempo. Em nota, o tribunal afirmou que não existe a possibilidade de a urna autocompletar o voto. Aos Fatos checou essa peça de desinformação na época.

Como o vídeo foi gravado em São Paulo, a Justiça Eleitoral paulista também analisou essa denúncia e descobriu que apenas uma urna, substituída antes do pleito, apresentou problemas nas teclas. Uma terceira denúncia, relativa a uma urna que estava em Morro Agudo (SP), foi apurada pela Polícia Federal, que apontou que se tratava de um erro mecânico do equipamento em questão, e que o número 3 era digitado automaticamente após diversos números, não só o 1.

Contatado por Aos Fatos, o TSE afirmou que “o aparelho não é capaz de alterar a vontade do eleitor”, uma vez que o voto só é computado após ser confirmado. Em 2018, a corte também desmentiu as alegações.


Olha o que achamos aqui na rua jogado. Todo material do mesário aqui na Vila Rosa

Uma denúncia feita durante as eleições de 2014 e que também já foi desmentida pela Justiça Eleitoral aparece em dois momentos diferentes da peça de desinformação. Nos trechos, um homem e duas mulheres apresentam documentos de mesários que, segundo eles, deveriam ter sido entregues ao TSE, mas foram encontrados jogados na rua. Apesar de os documentos serem reais, eles não têm qualquer relação com eventuais fraudes.

O caso ocorreu em Goiânia (GO) após o primeiro turno das eleições daquele ano. O homem encontrou, dentro de um saco de lixo, cadernos usados por mesários com fotos de eleitores, extratos de votação e até um disquete de urna. Segundo o TRE-GO (Tribunal Regional Eleitoral de Goiás), os documentos caíram durante o transporte até o cartório. Como os dados estavam armazenados nas urnas eletrônicas, o incidente em nada alterava o resultado naquela seção, que pode ser conferido no site do TSE ou no boletim de urna.


Luís Roberto Barroso: 'Há risco de fraude no sistema eleitoral brasileiro'

Há ainda no compilado de vídeos uma edição que altera o sentido de uma declaração do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso, durante um balanço do primeiro turno das eleições de 2020. A manipulação faz crer que o magistrado disse que “há risco de fraude” no sistema eleitoral, quando, na verdade, ele falou que “não há risco de fraude no sistema eleitoral brasileiro”, como mostra a íntegra, que começa aos 3 minutos e 13 segundos do vídeo.

Sem autoria. Dois dos vídeos que aparecem no compilado não foram identificados por Aos Fatos, porque não foi possível saber a autoria, a data e as pessoas que foram filmadas. Entretanto, eles não provam que houve fraude eleitoral.

Em um deles, uma mulher diz que não conseguiu votar porque alguém com o mesmo nome já havia votado em seu lugar. O registro completo não possui nenhuma informação sobre localização ou autoria, mas Aos Fatos detectou que ele circula nas redes desde maio deste ano. A eleitora grava o terminal do mesário de uma urna eletrônica que mostra os dizeres “já votou” para argumentar que alguém teria votado em seu lugar. Isso, por si só, não provaria uma fraude, já que ela poderia ter gravado o vídeo após registrar seu próprio voto.

Contatado por Aos Fatos, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) disse não ter informações sobre o vídeo. Contudo, a corte eleitoral acredita que as imagens foram registradas em São Paulo e as enviou ao TRE local para averiguar se houve algum registro de denúncia semelhante. Até a publicação desta checagem, Aos Fatos não havia recebido respostas.

O outro vídeo mostra um homem briga e questiona uma mulher em um cartório eleitoral sobre um suposto problema na hora de votar para presidente. Na gravação, ele pergunta apenas "por que os candidatos sai tudo certinho, até o governador, mas o presidente não sai?”. Como não há qualquer outro elemento que ajude a identificar o local, as pessoas filmadas ou a autoria das imagens, Aos Fatos não conseguiu verificar o contexto ou a autenticidade do vídeo.

Após receber as imagens, o TSE respondeu que o caso "se refere a um dos dois vídeos que circularam em 2018 nos quais eleitores afirmam não ter conseguido votar para presidente. Nestes dois episódios, houve confusão na hora de digitar os votos”. A corte não informou a autoria e o local das imagens.

O Estadão Verifica também publicou uma checagem sobre essa peça de desinformação.

Referências:

1. TSE (1, 2, 3, 4, 5)
2. Estadão
3. TRE-M (1 e 2)
4. Aos Fatos (1 e 2)
5. Folha de S.Paulo
6. TRE-GO
7. CNN Brasil
8. G1

Usamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concordará com estas condições.