Posts tiram de contexto frase de Damares sobre abuso sexual de crianças

Por Bernardo Barbosa

21 de agosto de 2020, 18h51


Uma frase da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, sobre abuso sexual de crianças circula fora de contexto nas redes sociais nos últimos dias (veja aqui). Os posts omitem o contexto completo da declaração, na qual a ministra fala sobre a culpa que vítimas deste tipo de abuso sentem.

Em uma entrevista de 2019, Damares afirmou: “Tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar, onde tocar, e às vezes desperta prazer”. No entanto, ela também disse na mesma declaração: “Eu digo que não se sintam culpadas, eram crianças e não tinham controle sobre seus corpos”.

Posts com a frase fora de contexto vêm sendo publicados pelo menos desde segunda-feira (17), em meio à repercussão do caso da menina do Espírito Santo que era estuprada pelo tio, engravidou dele e teve que passar por um aborto. Ativistas e políticos da oposição levantaram suspeitas de que o ministério de Damares teria relação com o vazamento de dados pessoais da vítima, o que a pasta nega.

Os posts com a frase fora de contexto somavam pelo 15.000 compartilhamentos no Facebook e foram marcados com o selo DISTORCIDO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona). Esta classificação é usada quando uma informação verdadeira é tirada de contexto com o objetivo de induzir uma interpretação errada sobre um fato.


DISTORCIDO

Uma frase sobre abuso sexual de crianças dita pela ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, em uma entrevista dada em 2019 circula fora de contexto em posts compartilhados ao menos 15.000 vezes no Facebook.

Durante entrevista à BBC publicada em 18 de dezembro do ano passado, Damares falava sobre o abuso que sofreu quando tinha 6 anos de idade. Em determinado ponto da resposta, a ministra passou a falar sobre a culpa que vítimas de abuso infantil sentem. O trecho é reproduzido na íntegra a seguir:

“E tem outro detalhe com relação ao abuso: há adultos que, quando olham para trás no abuso, sentiram prazer no abuso. Nem sempre o abuso é como no meu caso, com dor, com sangue, com violência. Tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar, onde tocar, e às vezes desperta prazer. O nosso corpo foi feito pelo prazer. Eu encontro muitos adultos, especialmente mulheres, que se sentem culpadas porque sentiram prazer. Eu digo que não se sintam culpadas, eram crianças e não tinham controle sobre seus corpos”.

No entanto, os posts que distorcem a fala da ministra destacam apenas o trecho: “Tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar, onde tocar”.

Na quinta-feira (20), via Twitter, a ministra falou sobre a disseminação da frase fora de contexto.

“É preciso colocar essa fala no contexto. Explicava sobre as dificuldades de identificar os casos de violência sexual contra crianças, pois estas nem sempre essas mandam sinais claros de sofrimento e, até mesmo, não percebem que aquela situação é abusiva contra elas”, disse. “Por isso é importante ensinar desde cedo nossas crianças. Pais, não tenham vergonha. Conversem com elas. Isso as protege dos abusos. Se souber de algum caso, não fique calado. Disque 100, use o app Direitos Humanos Brasil ou o site.”

As publicações distorcidas começaram a ser compartilhadas no Facebook na segunda-feira (17), em meio à repercussão do caso da menina de 10 anos do Espírito Santo que era estuprada pelo tio, engravidou dele e teve que passar por um aborto. O homem está preso desde terça (18).

Depois que a militante de extrema-direita Sara Winter divulgou dados pessoais da vítima, ativistas e políticos da oposição ao governo de Jair Bolsonaro levantaram suspeitas de que o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos teria relação com o vazamento dos dados pessoais. Sara chegou a ocupar um cargo na pasta em 2019, nomeada por Damares.

Segundo reportagem da revista piauí, o Ministério Público do Espírito Santo suspeita que assessores do ministério comandado por Damares tenham acessado os dados da vítima durante visita ao estado para acompanhar o caso. O Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos nega o vazamento de dados.

A suspeita está sendo investigada pelo Ministério Público estadual capixaba e pelo Ministério Público Federal no Espírito Santo, além do Conselho Regional de Medicina local. Na quarta (19), Damares pediu ao Ministério da Justiça que a apuração do vazamento fosse encaminhada à Polícia Federal.

O Comprova e o Estadão Verifica também fizeram checagens sobre esta peça de desinformação.

Referências:

1. BBC

2. Twitter Damares Alves

3. UOL

4. piauí

5. A Gazeta

6. G1 (1, 2 e 3)

7. Comprova

8. Estadão Verifica

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