Posts listam benefícios da ivermectina que não foram comprovados cientificamente

Por Marco Faustino

22 de fevereiro de 2021, 15h52

Publicações nas redes sociais (veja aqui) enganam ao afirmar que, além de antiparasitária, a ivermectina seria antiviral, anticancerígena e anti-inflamatória. Nenhuma dessas propriedades foi comprovada cientificamente, apesar da existência de estudos preliminares em laboratório nesse sentido. É falso ainda que a droga não é metabolizada pelo fígado e nem pode causar problemas cardíacos, como demonstra a bula do remédio.

Esta peça de desinformação reunia ao menos 1.000 compartilhamentos no Facebook nesta segunda-feira (22) e foi marcada com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


A Merck e os cavalheiros do genocídio têm muitos motivos para odiar a Ivermectina. Além de antiparasitário, antimicrobiano, antiviral, anticancerígeno e antinflamatório, não é metabolizado no fígado, não é eliminado pelos rins, não afeta o coração e, ainda por cima, sem patente

Não há comprovação científica de que a ivermectina ofereça proteção contra todos os tipos de micróbios, incluindo vírus, inflamações e tumores cancerígenos, apesar da existência de estudos em laboratórios que apontam para essas propriedades em circunstâncias bastante específicas. A eficácia do remédio nas doses comercializadas hoje para humanos é atestada apenas contra infecções parasitárias específicas, como a sarna e os vermes nematoides que atacam o sistema gastrointestinal.

Conforme demonstrado pelo Aos Fatos em checagem anterior, estudos mostraram que a droga inibiu a replicação do vírus Sars-CoV-2 em ambiente laboratorial. Porém, ainda não há evidências que comprovem que ela aja no corpo humano para combater a Covid-19.

Em 9 de dezembro de 2020, a Sociedade Brasileira de Infectologia reforçou que não recomenda a ivermectina contra Covid-19 dada a falta de resultados positivos oriundos de estudos clínicos randomizados com grupo controlado.

Uma revisão sistemática publicada no ano passado, no periódico The Journal of Antibiotics, apontou uma potencial ação do medicamento em modelos animais contra outros tipos de vírus. Porém, o documento ressalta que a comprovação do efeito em seres humanos, que não aconteceu desde então, só ocorrerá por meio de ensaios clínicos.

A atividade anti-inflamatória e contra outros tipos de micróbios consta em apenas em alguns poucos estudos in vitro (confira aqui, aqui e aqui) e em animais (confira aqui, aqui e aqui), mas não há pesquisas que comprovem esse tipo de benefício da ivermectina em humanos.

E embora pesquisas sugiram que o medicamento pode ter algum efeito para inibir células tumorais, ainda não há comprovação de que ele seja anticancerígeno. “O fato de existirem estudos que investigam o potencial anticâncer não quer dizer que ele possa ser usado na prática. Não existe autorização para esse tipo de uso”, disse Laura de Freitas, microbiologista e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo), ao Aos Fatos.

Fígado. As postagens checadas enganam ainda ao sustentar que a ivermectina não seria metabolizada pelo fígado e não causaria danos ao coração. Essas alegações podem ser ser desmentidas pelas bulas dos medicamentos das farmacêuticas Vitamedic (vendida pelo nome genérico) e Neo Química (sob o nome Ivermeo).

Consta nas duas bulas que a metabolização do medicamento é hepática, ou seja, por meio do fígado e que, entre as reações adversas, está a taquicardia.

Referências:

1. Aos Fatos
2. SBI
3. The Journal of Antibiotics
4. NCBI (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7)|
5. Frontier
6. Vitamedic
7. Neo Química


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