Posts distorcem fatos ao alegar que ivermectina reduz 97% da carga viral da Covid-19 em 48 horas

Por Priscila Pacheco

12 de janeiro de 2022, 18h51

Não é verdade que foi comprovado que a ivermectina elimina em 48 horas 97% das cópias do novo coronavírus de pacientes com a Covid-19, como alegam nas redes sociais (veja aqui). A afirmação distorcida tem por base os resultados de um estudo preliminar feito na Austrália em 2020 apenas com células de laboratório e que empregou doses consideradas tóxicas para humanos. Uma revisão de 14 estudos randomizados e publicados até meados de 2021 concluiu que não há evidência da ação antiviral do vermífugo contra o Sars-CoV-2.

Publicações com alegação enganosa reuniam ao menos 19.100 compartilhamentos no Facebook nesta quarta-feira (12).


Selo distorcido

“Ivermectina elimina 97% dos vírus dentro de células em 48h”, diz infectologista Fernando Suassuna

As postagens checadas veiculam fora de contexto uma frase dita em junho de 2020 pelo médico infectologista potiguar Fernando Suassuna. Na época, ele deu entrevistas à imprensa em que afirmava que a ivermectina seria capaz de eliminar 97% das cópias do Sars-CoV-2 de células infectadas, mas omitiu que esse resultado foi reportado apenas em um estudo preliminar, feito com células de laboratório, e que a ação antiviral do vermífugo em humanos ainda não foi comprovada.

O estudo a que a peça desinformativa faz alusão foi liderado pelo Instituto de Biomedicina da Universidade de Monash, na Austrália, e publicado em junho de 2020 na revista Antiviral Research. Segundo a pesquisa, em até 48 horas, as células que receberam ivermectina em laboratório tiveram uma redução de 99,8% do RNA viral, material genético responsável pela replicação do vírus. Além disso, foi reportada uma redução de 93% do RNA viral no sobrenadante, material solúvel da célula.

A última informação sobre a pesquisa foi publicada no site da universidade em agosto de 2021. De acordo com a Monash, o estudo ainda não foi revisado por outros cientistas, etapa essencial para garantir a credibilidade dos resultados.

A ivermectina é autorizada para tratar verminoses e infestação de ácaro, piolho e outros insetos. Em julho do ano passado, uma metanálise (compilação de resultados de pesquisas) publicada pela Cochrane, entidade especializada em revisões sistemáticas de estudos, concluiu que as evidências da época não sustentavam a eficácia e segurança da ivermectina para prevenir ou tratar pessoas com Covid-19. A organização avaliou 14 estudos randomizados com atualizações até o fim de maio de 2021.

Em outubro, a FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora americana) ressaltou que a ivermectina não deveria ser usada para tratar Covid-19 por ainda não obter resultados favoráveis. O antiparasitário também não é recomendado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), pela EMA (European Medicines Agency, da União Europeia), pela OMS (Organização Mundial da Saúde), nem pela Merck, fabricante do medicamento nos EUA, para tratar a infecção pelo novo coronavírus.

Aos Fatos tentou contato com Suassuna, que não respondeu até a publicação desta checagem.

Referências:

1. Antiviral Research
2. Universidade de Monash
3. Cochrane
4. Anvisa (Fontes 1 e 2)
5. FDA
6. EMA
7. OMS
8. Merck


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