Foram gerados por inteligência artificial os vídeos que mostram a população da Venezuela comemorando a captura do ditador Nicolás Maduro. Aos Fatos analisou as imagens e encontrou indícios de que as cenas não são reais, como deformidades corporais e distorções em objetos. Os registros também foram publicados originalmente por perfis nas redes especializados em conteúdo sintético.
Os posts enganosos acumulavam cerca de 160 mil curtidas no Instagram, milhões de visualizações no TikTok, milhares de compartilhamentos no Facebook e ao menos centenas de curtidas no Threads.
Multidão de venezuelanos celebra com lágrimas e gritos de liberdade

Publicações nas redes têm compartilhado como reais cenas geradas por IA em que venezuelanos comemoram a captura de Nicolás Maduro por forças americanas.
No primeiro vídeo, uma senhora aparece ajoelhada, chorando e agradecendo aos Estados Unidos pela ação. Em seguida, surgem dois jovens gravando depoimentos em formato de selfie, também celebrando a prisão, e, ao final, a mesma mulher retorna em um novo trecho da gravação.
Aos Fatos localizou o vídeo original e constatou que ele foi publicado por um perfil especializado em conteúdos gerados por IA. Após a viralização, a peça foi removida.
Outros elementos também que indicam que o registro foi gerado artificialmente:
- A bandeira da Venezuela aparece com o número incorreto de estrelas em diferentes momentos;
- As placas dos veículos não seguem o padrão de cores e números usado no país;
- Há discrepâncias entre a área focal (rosto das pessoas) e o fundo, que está sem nitidez para disfarçar imperfeições;
- Há assincronia entre a voz e os movimentos da boca dos manifestantes;
- As pausas, as respirações e o ritmo de fala não são naturais.

A outra gravação, que mostra uma multidão chorando, também foi criada por um perfil especializado em vídeos gerados por IA. A peça original está no ar e foi marcada pelo criador como conteúdo sintético (veja abaixo):
@ia_comediante Una multitud de venezolanos celebra con lágrimas y gritos de libertad. #guerra #venezuela #maduro #usa #trump #felizes ♬ som original - ia_comediante
A cena apresenta diversos indícios de que foi criada artificialmente:
- Há deformidades nas mãos e nos braços dos manifestantes;
- Há objetos que aparecem pela metade, como o colar usado por um dos supostos manifestantes;
- Parte de um dos edifícios está distorcido;
- Há objetos que desaparecem ao longo do vídeo.

Registros da imprensa indicam que, no sábado (3), dia da captura de Maduro por forças americanas, Caracas amanheceu sem grandes concentrações populares, com ruas majoritariamente vazias e sem celebrações em larga escala.
Houve manifestações pontuais em comemoração à prisão do ditador, mas a maior parte dos atos registrados no país desde então foi organizada em sua defesa, com pedidos por sua libertação (veja aqui, aqui e aqui).
Já fora da Venezuela, a prisão foi celebrada de forma mais expressiva por comunidades de imigrantes venezuelanos em países como Argentina e Chile.
Maduro e sua mulher, Cilia Flores, serão julgados pela Justiça americana em um tribunal de Nova York por crimes como narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína e posse de armamentos.
Em audiência na manhã de segunda (5), o ditador venezuelano se declarou inocente de todas as acusações e alegou ser um “prisioneiro de guerra” de Donald Trump.
Esta peça de desinformação também foi checada pelo Estadão Verifica.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou os vídeos virais e realizou buscas reversas para identificar sua origem, localizando as publicações iniciais feitas por perfis conhecidos pela criação de conteúdos gerados por inteligência artificial.
Em seguida, a reportagem examinou os registros e encontrou inconsistências visuais e sonoras típicas de registros gerados por IA, como deformações e falta de sincronização entre áudio e imagem.
A checagem foi complementada com informações da imprensa sobre a situação nas ruas da Venezuela nos dias seguintes à captura de Maduro.




