Posts compartilham vídeos falsos e sem contexto sobre conflito entre EUA, Israel e Irã

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Diversas publicações nas redes têm compartilhado imagens descontextualizadas para conseguir engajamento com o conflito travado por Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os posts incluem cenas de outros confrontos, gravações geradas por IA e até passagens retiradas de jogos eletrônicos.

Ao todo, as publicações enganosas acumulam ao menos 3 milhões de visualizações no TikTok, 200 mil curtidas no Instagram e 4.000 compartilhamentos no Facebook.

Os posts passaram a viralizar no sábado (28), quando o presidente americano Donald Trump anunciou que um ataque coordenado com Israel havia causado a morte do líder do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Em resposta, o Irã bombardeou países do Oriente Médio que abrigavam bases dos EUA, como Bahrein e Emirados Árabes.

Aos Fatos tem monitorado as redes e irá atualizar este compilado com mais checagens ao longo desta segunda-feira (2). Veja as peças que checamos até agora:

  1. Vídeo não mostra incêndio na sede da CIA em Dubai
  2. Ataque ao Iêmen circula como se fosse bombardeio no Irã
  3. É falso que vídeo registrou ataque à residência de aiatolá
  4. Gravação de caça desviando de míssil é cena de videogame
  5. Vídeo não mostra israelenses em fuga após bombardeios do Irã
  6. Imagens de míssil partindo prédio no meio são gerada por IA
  7. Vídeo não mostra explosão de usina nuclear em Israel

Irã atacou a sede da CIA em Dubai

Post no Instagram mostra prédio alto envolto por fumaça escura, com chamas visíveis em alguns andares da fachada. No térreo, há carros estacionados e pessoas observando a cena à distância. Na parte inferior do vídeo, aparece a legenda: ‘Irã atacou a sede da CIA em Dubai’.

É falso que o vídeo de um prédio em chamas mostra um ataque do Irã à sede da CIA (serviço de inteligência americano) em Dubai, nos Emirados Árabes. Por meio de busca reversa, Aos Fatos verificou que o registro foi gravado durante um incêndio que ocorreu em um prédio residencial em Sharjah, nos Emirados Árabes, em 2015.

Não houve registro de mortes e as causas do incêndio não foram reveladas. Segundo a BBC, o fogo atingiu ao menos 26 andares.

Em busca na imprensa, Aos Fatos não localizou quaisquer registros de que uma instalação da inteligência americana tenha sido alvo de ataques iranianos neste fim de semana.

É fato, no entanto, que os Emirados Árabes foram alvo de ataques no fim de semana. De acordo com o Ministério da Defesa local, cerca de 200 drones e 137 mísseis foram lançados em direção ao país. A maioria dos projéteis foi interceptada. Sharjah e Dubai foram afetadas.

Iraque se junta com o Irã e bombadeia base americana na Arábia Saudita

Print no Instagram mostra explosão ao fundo de área urbana, com chamas intensas e coluna espessa de fumaça preta subindo ao céu. Em primeiro plano, aparecem prédios baixos, ruas e alguns veículos, sugerindo que a cena foi registrada de uma varanda ou ponto elevado. Sobre o vídeo, há textos em destaque afirmando que Iraque e Irã teriam bombardeado uma base americana na Arábia Saudita.

Não é verdade que um vídeo mostra uma base americana na Arábia Saudita em chamas após um ataque conjunto de Irã e Iraque. Por meio de busca reversa de imagens, Aos Fatos verificou que o registro foi gravado em julho de 2024 e mostra um ataque aéreo israelense contra o porto de Hodeida, no Iêmen.

O porto iemenita era administrado pelos houthis, que controlam boa parte do país. O grupo rebelde islâmico, que é um dos principais aliados do Irã na região, havia atacado dias antes Tel Aviv, capital de Israel.

Diferentemente do que alegam as peças enganosas, o Iraque não se juntou ao Irã no fim de semana para atacar os Estados Unidos e Israel. O país é um aliado americano na região, mas não participou de ataques até o momento.

Em resposta aos bombardeios realizados por americanos e israelenses, o Irã atacou vizinhos que abrigam instalações militares americanas, como o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos.

AGORA: Momento em que mísseis antibunker atingiram a residência de Ali Khamenei.

Quadro de vídeo com cena urbana registrada de cima, exibindo rua com diversos carros brancos e veículo amarelo, prédios residenciais ao redor e explosão com fumaça escura próxima a edifício à esquerda. Na parte superior, há um banner vermelho com a inscrição ‘World in Last 24 Hour’ e a data ‘04 July 2025’, além do texto em português: ‘AGORA: Momento em que mísseis antibunker atingiram a residência de Ali Khamenei!!!’. Na parte inferior, aparece a legenda em inglês: ‘Iran releases CCTV footage of Israeli air strike on Tehran in June: Video goes viral | WATCH’, seguida de uma linha menor informando que o vídeo foi compartilhado por mídias iranianas e israelenses. Também são visíveis a marca ‘Hindustan Times’ e a barra de reprodução do vídeo.

Também é antiga a gravação que tem circulado como se mostrasse o momento em que a residência do aiatolá Ali Khamenei foi atingida por um míssil americano. O vídeo, que mostra uma explosão em uma área urbana, foi registrado em Teerã no dia 15 de junho do ano passado.

A gravação, feita por uma câmera de segurança, mostra o momento em que um míssil israelense atingiu o distrito de Tajrish, na capital iraniana.

A residência oficial de Khamenei, que foi alvo de um ataque bélico no último sábado (29), ficava no distrito 11, a cerca de 15 km do distrito de Tajrish.

Print do Google Maps mostra rota entre casa oficial do aiatolá iraniano e distrito de Tajrish. O caminho mais demorado leva 55 minutos e o mais rápido 47 min.
Distância entre o ataque de junho de 2025 e o do último sábado, que matou o aiatolá Khamenei (Reprodução/Google Maps)

O presidente americano Donald Trump anunciou que um ataque coordenado com Israel levou à morte de Khamenei no sábado (28). A informação foi confirmada posteriormente por autoridades iranianas, que anunciaram 40 dias de luto oficial.

Caça F-18 Hornet escapa, milagrosamente, de míssil iraniano e imagens ganham o mundo: ‘surpreendente’

Caça militar em voo contra céu azul claro, visto de perfil, com asas inclinadas e trem de pouso recolhido. À direita da aeronave, aparece um projétil em deslocamento, deixando rastro de fumaça no ar. Na parte inferior da imagem, há texto que diz: ‘Caça F-18 Hornet escapa milagrosamente de míssil iraniano e imagens ganham o mundo: “surpreendente”’.

Páginas e sites de notícias também têm compartilhado uma cena retirada de um jogo eletrônico como se fosse um registro de um caça americano desviando de mísseis iranianos.

Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou que o vídeo foi publicado pelo perfil @cre8comp2, especializado em cenas semelhantes. Em algumas publicações, o autor adiciona a hashtag “FlightSim”, que significa “simulador de voo”.

As publicações editam o vídeo para retirar o primeiro segundo da gravação original. Nele, é possível verificar que o cenário terrestre tem baixa resolução e aspecto artificial — uma das árvores, por exemplo, tem folhas poligonais (veja abaixo). Além disso, duas árvores idênticas se repetem na cena.

 Cena mostra campo amarelado com casas e árvores. As casas são feitas de madeira envelhecida. As árvores têm aspectos estranhos, com folhas artificiais. Também é possível ver, à direita, que um mesmo modelo de árvore se repete na cena.
Em trecho retirado das peças de desinformação, é possível ver cenário com gráficos de videogame de menor qualidade em comparação com a resolução da aeronave (Reprodução)

As imagens parecem ter sido extraídas do jogo War Thunder, que já teve cenas compartilhadas fora de contexto durante outros conflitos. Aos Fatos, no entanto, não conseguiu confirmar essa informação.

O caos se instaurou em Israel, com o povo correndo por suas vidas na tentativa de garantir uma vaga em abrigos subterrâneos. Após diversos mísseis iranianos conseguirem passar pela defesa antiaérea de Israel, os israelenses perderam sua confiança no sistema defensivo do país.

Post do X mostra multidão reunida em espaço urbano durante a noite, cercada por grades metálicas e prédios iluminados ao fundo. As pessoas aparecem caminhando rapidamente ou olhando em direção à frente, enquanto outras estão paradas próximas a barreiras. No topo da publicação, há um texto que menciona caos em Israel e a busca por abrigo subterrâneo após ataques com mísseis.

É falso que um vídeo mostra israelenses fugindo para abrigos subterrâneos após os recentes ataques iranianos. Por meio de busca reversa, Aos Fatos verificou que o registro foi gravado em 29 abril de 2025 e mostra uma confusão causada pela prisão de um homem que tentou atacar a polícia em uma praça na capital israelense, Tel Aviv.

Na ocasião, estava sendo realizada no local uma cerimônia do Memorial Day, data em que são homenageados os soldados que perderam a vida defendendo o país. Centenas de pessoas que estavam reunidas na praça confundiram a ação policial com um atentado terrorista e começaram a fugir.

É fato, no entanto, que o Irã atacou Israel no fim de semana. No sábado (28), autoridades do país lançaram mísseis contra Tel Aviv em represália à morte do aiatolá Ali Khamenei. Segundo autoridades israelenses, ao menos uma pessoa morreu e 121 ficaram feridas.

Prédio em Tel Aviv é partido ao meio por um míssil iraniano.

Publicação com texto na parte superior afirma que Irã sofreu perdas significativas e menciona míssil iraniano atingindo prédio em Tel Aviv. Abaixo, há um quadro de vídeo noturno que exibe um edifício alto em área urbana no momento em que uma explosão ocorre na parte superior da construção, com chamas e clarão visíveis. Um rastro luminoso no céu indica a trajetória de um projétil em direção ao prédio.

Foi gerada por IA a imagem que supostamente mostra um míssil atingindo um prédio em Tel Aviv. Algumas peças de desinformação compartilham as imagens sem nenhuma edição, o que permite observar no canto inferior direito o logotipo do Veo, ferramenta de geração de imagens do Google.

Imagem semelhante a anterior, com um míssil atingindo um prédio. Desta vez, há um destaque circular branco no canto inferior direito para mostar o logotipo do Veo.
Logotipo do Veo é visível em algumas das publicações (Reprodução/X)

Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou que o mesmo vídeo sintético foi compartilhado em junho de 2025.

Naquela época, o Irã atacou as cidades Bat Yam e Tamra, próximas a Tel Aviv. Um míssil atingiu um complexo habitacional na primeira delas, matando três pessoas e ferindo outras cem.

Mísseis iranianos atingiram a usina nuclear de Dimona

Paisagem urbana vista à distância, com casas e edifícios baixos espalhados por área plana. Ao fundo, uma grande coluna de fumaça branca e cinza se eleva do solo, formando uma nuvem que ocupa boa parte do céu. Na parte superior da publicação, há um texto que afirma: ‘Mísseis iranianos atingiram a usina nuclear de Dimona’.

Também não é verdade que um vídeo mostra um ataque do Irã à usina nuclear de Dimona, em Israel. Por meio de busca reversa de imagens, Aos Fatos verificou que o registro retrata a explosão de um depósito de munições ucranianas em março de 2017.

Na época, autoridades do país acreditavam que militares russos ou separatistas pró-Rússia estariam por trás do ataque. A instalação armazenava cerca de 130 mil toneladas de munição, como projéteis de tanques e foguetes de artilharia.

Por meio de busca na imprensa, Aos Fatos não localizou informações sobre um ataque recente do Irã contra a usina nuclear israelense localizada na cidade de Dimona, no deserto de Negev.

O caminho da apuração

Aos Fatos monitorou conteúdos virais sobre o conflito e aplicou busca reversa para localizar as origens das imagens. A reportagem comparou os registros com materiais anteriores e identificou datas, locais e contextos originais distintos dos alegados nas redes.

Também foram analisadas características visuais dos vídeos, como padrões gráficos artificiais e indícios de manipulação, além da consulta a registros públicos e cobertura jornalística para verificar se os ataques descritos haviam ocorrido.

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