A divulgação de um novo lote de arquivos sobre o caso de Jeffrey Epstein fez viralizar nas redes nesta semana uma série de imagens e documentos que detalham o esquema de tráfico humano e exploração sexual de menores capitaneado pelo empresário americano.
Junto dos registros verídicos compartilhados pelo Departamento de Justiça dos EUA, no entanto, têm circulado uma série de imagens falsas que tentam relacionar personalidades públicas aos crimes cometidos pelo financista.
Essas peças de desinformação acumulam cerca de 1 milhão de visualizações no X, milhares de compartilhamentos no Facebook e milhares de visualizações no TikTok.
Os registros falsos têm dois objetivos principais: apontar que figuras conhecidas — especialmente políticos — estariam entre as vítimas do empresário ou então fariam parte do esquema de abusos.
Ao longo de décadas, Epstein construiu uma extensa rede de conexões com empresários, acadêmicos, políticos e celebridades em diferentes países. Sua convivência com pessoas influentes é detalhada nos arquivos disponibilizados pelo Departamento de Justiça americano.
O próprio governo dos EUA, no entanto, sinaliza que os arquivos podem conter imagens, documentos ou vídeos falsos ou enviados de forma fraudulenta às autoridades. Até o momento, não há acusações formais contra as personalidades citadas nas peças de desinformação por envolvimento nas práticas criminosas.
Entenda o caso. As primeiras investigações formais sobre o americano tiveram início em 2005, quando a polícia de Palm Beach, na Flórida, recebeu uma denúncia dos pais de uma adolescente de 14 anos. Eles relataram que Epstein teria oferecido dinheiro à filha em troca de uma massagem.
A partir do caso, outras menores de idade afirmaram ter sido abusadas sexualmente na mansão do empresário. Em 2006, um júri no condado de Palm Beach o tornou réu por solicitação de prostituição, mas, após uma manobra da polícia local, o caso foi para a esfera federal e terminou num acordo judicial amplamente criticado — com pena de um ano de prisão em um regime brando.
Em julho de 2019, Epstein voltou a ser preso, dessa vez por acusações federais de tráfico sexual de menores, mas foi encontrado morto em sua cela um mês depois, antes do fim de seu julgamento.
As investigações indicam que uma de suas propriedades — uma ilha particular no Caribe — foi usada como ponto de encontro para parte dos abusos. A extensão do ocorrido, porém, ainda é objeto de apurações e disputas judiciais.
A seguir, Aos Fatos desmente cinco peças de desinformação que buscam criar falsas associações entre Epstein e pessoas públicas.
Zelenski foi mencionado nos arquivos de Epstein.

É uma montagem a foto que mostra o presidente ucraniano Volodimir Zelenski ainda jovem abraçado a Epstein. Por meio de busca reversa de imagens, Aos Fatos verificou que, no registro original, o empresário aparece junto da ex-socialite britânica Ghislaine Maxwell, condenada por participação no esquema de abusos.
A foto original consta nos arquivos do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York e foi obtida pela AFP em dezembro de 2021 — antes, portanto, da recente liberação dos arquivos relacionados a Epstein.

Nos documentos liberados pelo governo americano, não há indícios de contato direto entre Zelenski e Epstein. O nome do presidente ucraniano aparece de maneira pejorativa em mensagens atribuídas ao empresário.

O presidente ucraniano chegou ao poder em maio de 2019, dois meses antes da prisão do empresário, e o ponto crítico da relação com a Rússia era a tentativa de encerrar a guerra na região de Donbass, iniciada com a invasão da Crimeia pelos russos em 2014. Zelenski e Putin chegaram a participar de uma conferência de paz na França, em dezembro.
Ghislaine Maxwell foi condenada a 20 anos de prisão em 2022 por crimes relacionados ao tráfico sexual de menores e atualmente cumpre pena no Texas. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, ela ajudava Epstein a recrutar adolescentes, muitas vezes sob o pretexto de oferecer oportunidades de trabalho ou bolsas de estudo.
Quem diria que Epstein era Super Amigão da Corina Machado, que lançou um ex-agente da CIA para Presidente da República da Venezuela.

Também foi adulterada digitalmente a foto em que a líder da oposição venezuelana María Corina Machado supostamente aparece próxima a Epstein em um evento. Na imagem original, que faz parte de um lote de arquivos liberados pelo governo americano em dezembro de 2025, Corina não aparece.

Entre os documentos liberados pelo governo dos EUA, há uma série de fotografias de outros ângulos que permitem atestar que María Corina Machado não estava no evento nem aparece sentada próxima a Epstein.
Nas imagens originais, o financista aparece ao lado do empresário Leslie Wexner e sua mulher, a também empresária Abigail Wexner. O registro foi feito em um evento equestre em Ohio, nos EUA, cuja data não é mencionada nos registros.
O site de checagem venezuelano Cazadores de Fake News apontou, em checagem similar, que uma foto publicada pelo jornal britânico The Telegraph em 2006 mostra a política venezuelana com as mesmas roupas e acessórios que aparecem na foto gerada por IA.

Este vídeo é um dos mais assustadores do mundo. Eles [Donald Trump e Jeffrey Epstein] formaram um círculo em volta de crianças pequenas, como se estivessem escolhendo suas vítimas.

Foi gerado por IA o vídeo em que Epstein e o presidente americano Trump aparecem sorrindo ao observar crianças durante um evento.
A gravação falsa é baseada em uma foto registrada em 8 de abril de 1997, que mostra Trump, Epstein e a modelo belga Ingrid Seynhaeve em uma festa da marca Victoria's Secret, em Nova York (veja abaixo).
Não há crianças no registro original nem em outras fotos tiradas de Trump e Epstein no evento (veja aqui, aqui e aqui).

O registro original foi feito pela fotógrafa Marina Garnier e aparece na página 222 do livro “Filthy Rich: The Shocking True Story of Jeffrey Epstein – The Billionaire's Sex Scandal”.
A foto foi republicada em 2025 pelo jornal The New York Post.
Citações. O novo lote de documentos divulgados menciona Donald Trump em trechos sobre uma denúncia de abuso sexual contra uma menor de idade supostamente ocorrida há mais de 30 anos em Nova Jersey. O material não traz detalhes adicionais e não indica a abertura de investigação posterior. Também não há verificação oficial sobre as denúncias.
Os arquivos ainda incluem mensagens atribuídas a Epstein nas quais ele afirma que Trump teria passado horas em sua casa com uma das vítimas e que “sabia sobre as meninas”, sem esclarecer o sentido da declaração.
O presidente americano nega participação nos crimes e afirma não ter conhecimento dos abusos cometidos por Epstein, de quem foi amigo próximo. Segundo ele, as acusações fazem parte de uma conspiração política e o país deveria “virar a página” sobre o escândalo.
Foto de 1997, Trump, Epstein e 6 crianças. Todas as fotos e arquivos vazados e ele continuar como presidente é uma vergonha para o mundo, e a humanidade!

Também não é real a foto supostamente registrada em 1997 que mostra Trump e Epstein cercados de crianças. A imagem, que circula ainda no formato de foto animada e vídeo, foi gerada por IA.
Embora Aos Fatos não tenha localizado a origem exata da imagem falsa, há evidências de que o conteúdo foi criado por ferramentas de inteligência artificial:

A mesma imagem também foi desmentida por organizações de checagem internacionais, como o Snopes e o Lead Stories.
Se Zohran for, de fato, o herdeiro genético desse submundo [Jeffrey Epstein], estamos diante de um dos segredos mais bem guardados da elite de Manhattan.

Também foi gerada por IA a imagem em que o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, supostamente aparece ainda bebê junto à mãe, a cineasta Mira Nair, Epstein e o ex-presidente americano Bill Clinton.
O registro foi publicado originalmente em 31 de janeiro pela conta satírica DFF no X. A página diz divulgar “conteúdo original com inteligência artificial”, como “memes, músicas, imagens e histórias feitas para quem entende do assunto”.
A foto falsa faz alusão a um email que consta nos documentos publicados pelo governo americano. A mensagem, datada de 21 de outubro de 2009, foi enviada a Epstein pela consultora de relações públicas Peggy Siegal.
“Acabei de sair da casa da Ghislaine... depois da festa do filme. Bill Clinton e Jeff Bezos estavam lá... Jean Pigoni, a diretora Mira Nair”, diz a mensagem. Não há citação a Mamdani.
Como mostrado anteriormente pelo Aos Fatos em outra checagem que compartilha uma foto falsa de Mamdani, a data do email revela uma inconsistência nas imagens: se o registro é de 2009, Mamdani, que nasceu em 18 de outubro de 1991, já teria 18 anos.
Colaborou Amanda Ribeiro
O caminho da apuração
Aos Fatos rastreou a origem das imagens compartilhadas nas redes, verificando datas de publicação, perfis responsáveis e descrições que indicavam uso de inteligência artificial ou edição digital.
Em seguida, analisamos os materiais em detalhe, buscando incoerências físicas e comparando-os com registros originais disponíveis em arquivos públicos, processos judiciais e coberturas jornalísticas anteriores. Também checamos cronologias e dados biográficos para verificar se as associações feitas pelas peças enganosas eram compatíveis com fatos verificáveis.




