Por que documentar a mentira

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Se existe algo de angustiante no exercício intelectual de lidar com a cobertura da desinformação na última década, certamente tem a ver com a forma com a qual tentamos localizar historicamente e dar sentido ao modo como a comunicação política tem evoluído. Sem uma perspectiva cronológica crítica, é fácil cair em discursos catastrofistas – ou, pior, num certo cinismo crônico incapacitante. Em tempos de incertezas, é muito difícil estar certo sobre qualquer coisa, e é da dificuldade que nasce o medo. Estar sob constante estado de ameaça nos torna coletivamente vulneráveis a discursos que prometem nos salvar. E discursos… bem, discursos são uma performance válida, mas é na realidade prática que encontramos o valor da verdade dos fatos e o sentido das coisas.

Nos últimos anos, tenho me dedicado a compreender não apenas como a mentira circula, mas que tipo de mundo ela ajuda a construir. Essa inquietação é o ponto de partida de Ctrl+Fake, uma série documental em cinco episódios que investiga a ascensão da desinformação digital como projeto de poder.

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Desde o início, ficou claro para mim que esse não era um tema a ser tratado apenas como objeto de um documentário clássico. Havia uma história a ser contada, mas que ocorre nos salões e corredores aos quais o jornalismo tem acesso vedado. Também acontece por meio de códigos, algoritmos e dispositivos intangíveis. O que tentamos contar é uma história que foi moldada, na última década, em aplicativos de comunicação privada, no consumo ultrassegmentado, nos sentimentos de revolta convertidos em engajamento por ragebait. O que é visível é a performance nas redes.

Ctrl+Fake tem um formato híbrido, que combina ensaio e documentário. O aspecto ensaístico aparece na tentativa de ir além da descrição dos fatos (e porque resolvi experimentar uma coisinha ou outra em frente às câmeras, tenham paciência comigo). É nossa tentativa de reconstituir eventos, interpretar processos, conectar camadas históricas e formular perguntas sobre o tipo de sociedade que as plataformas digitais ajudaram a consolidar. Ao mesmo tempo, a dimensão de documentário ancora essa reflexão em evidências: arquivos, falas públicas, pesquisa e o uso expandido da base de dados histórica do Aos Fatos.

No primeiro episódio, contamos a história a partir da reunião dos principais executivos de tecnologia na posse de Donald Trump em 2025. Essa cena sugere que as plataformas digitais deixaram de ser meros intermediários da comunicação pública para se tornarem atores centrais da vida política, econômica e cultural — com capacidade de moldar comportamentos, reorganizar o debate público e redefinir os limites do aceitável.

Ao longo do episódio, fica claro que essa transformação não ocorreu de forma súbita. Ela foi sendo construída gradualmente, acompanhando a massificação dos smartphones, a concentração da infraestrutura digital, a transição de uma internet mais aberta para ambientes fechados e a consolidação do engajamento como principal métrica de valor. Esse percurso ajuda a entender por que termos como “liberdade de expressão”, “censura”, “checagem de fatos” e “fake news” passaram a ser disputados com tanta intensidade.

Uma das ideias centrais deste capítulo é deixar claro que a desinformação digital grassa na internet não por uma falha pontual, mas por ser compatível com a lógica de funcionamento das plataformas. Quando emoções como indignação, medo e ultraje geram mais engajamento, elas deixam de ser ruído e passam a integrar a engrenagem. Nesse contexto, a desinformação não é apenas tolerada — torna-se funcional em uma economia baseada na atenção.

Também interessava recuperar um ponto que, muitas vezes, se perde no debate público: a internet nunca foi uma “terra de ninguém”. Desde cedo, ela foi estruturada por empresas que definem regras de visibilidade, formatos de interação e critérios de relevância. O que mudou foi a escala e a centralidade desse poder. Quando algoritmos passaram a organizar a experiência informacional de bilhões de pessoas e líderes políticos passaram a se comunicar diretamente com suas bases, a mediação não desapareceu — ela apenas mudou de mãos.

Ctrl+Fake nasce, portanto, da necessidade de organizar essa história de forma mais ampla e inteligível. Em vez de olhar para a desinformação como uma sucessão de crises e episódios isolados, a série tenta mostrar as condições que permitiram que ela se consolidasse como parte estrutural da vida pública.

Este primeiro episódio é uma porta de entrada para essa investigação. Ele propõe uma leitura sobre como chegamos até aqui — e por que a disputa entre verdade, mentira e poder passou a organizar a experiência de sociedades cronicamente online.

Se você quiser acompanhar essa jornada desde o começo, convido você a assistir ao primeiro episódio de Ctrl+Fake.

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