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Por que casos de Covid-19 em pessoas vacinadas não significam que imunizante é ineficaz

Por Priscila Pacheco

22 de fevereiro de 2021, 18h30

Relatos de pessoas que adoeceram ou morreram de Covid-19 após terem sido vacinadas se multiplicam nas redes sociais dentro de uma narrativa distorcida de que os imunizantes não são capazes de proteger alguém da doença. Desde janeiro, quando as vacinas foram aprovadas para uso emergencial no Brasil, postagens que levantam suspeitas sobre a eficácia da imunização acumulam ao menos 600 mil visualizações e 22,5 mil compartilhamentos no Facebook, além de circularem no WhatsApp.

Mas, afinal, quem já foi vacinado pode contrair Covid-19 ou contaminar outras pessoas? Os imunizantes em uso no país são seguros? Explicamos a seguir.

  1. É possível pegar Covid-19 depois de vacinado?
  2. É possível contaminar alguém mesmo estando vacinado?
  3. As vacinas são seguras?

1. É possível pegar Covid-19 depois de vacinado?

Sim. As vacinas têm uma taxa de eficácia global que indica a capacidade de o imunizante reduzir as chances de um vacinado contrair a doença. A taxa da CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan, é de 50,38% – ou seja, quem receber as duas doses pode ficar 50,38% menos suscetível à contaminação pelo novo coronavírus. Já a vacina Oxford/AstraZeneca, produzida em parceria com Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), alcança uma eficácia global de 82,4% após a segunda aplicação.

Nos dois casos, são necessárias duas doses para que a imunização seja eficaz, e a proteção não se dá imediatamente após a aplicação. Na CoronaVac, a imunidade prevista pela taxa de eficácia global geralmente é alcançada duas semanas após a segunda dose, que deve ser aplicada em um intervalo de 14 a 28 dias depois da primeira, segundo nota do Instituto Butantan. Além disso, o número de anticorpos pode continuar em crescimento até um mês após a segunda imunização, dependendo do organismo.

Já quem tomar a primeira dose da Oxford/AstraZeneca pode ficar 76% menos suscetível a contrair a Covid-19 entre o 22ª e o 90ª posterior à aplicação, segundo um estudo preprint (não revisado por outros cientistas) publicado na revista The Lancet no início de fevereiro. Depois desse período, a segunda dose deve ser aplicada para completar os 82,4% de eficácia geral.

Apesar da diferença entre as taxas de eficácia global da CoronaVac e da vacina de Oxford, é importante que não haja comparação entre elas. Conforme explicou Laura de Freitas, microbiologista e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo), as taxas variam de acordo com o tipo de vacina e do método de pesquisa realizado. O Aos Fatos explicou mais sobre o assunto em janeiro.

Além da taxa de eficácia global e do tempo que demora para a produção de anticorpos, para que a imunidade seja eficaz é preciso levar em consideração também a cobertura vacinal. Isso porque apenas quando grande parte da população estiver imunizada é que será possível controlar a propagação do vírus e reduzir os casos graves. Até o início dessa semana, apenas 2,79% da população havia sido vacinada no Brasil, segundo a Fiocruz.

2. É possível contaminar alguém mesmo estando vacinado?

Ainda não se sabe ao certo se as vacinas são capazes de bloquear ou não a transmissão do vírus. Em meados deste mês, a CoronaVac começou a ser aplicada massivamente na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, para avaliar o seu potencial de diminuição da taxa de transmissão do vírus. A divulgação dos resultados está prevista para a segunda quinzena de maio.

O preprint sobre a vacina de Oxford/AstraZeneca publicado no início de fevereiro afirma, com base na carga viral avaliada em voluntários, que a chance de transmissão do vírus foi reduzida 67% após a primeira dose do imunizante. Entretanto, os estudos clínicos seguem em andamento.

No momento, enquanto a grande maioria da população ainda não foi vacinada, é necessário continuar com as medidas de prevenção, por exemplo, usar máscara e evitar aglomerações.

3. As vacinas são seguras?

Sim. Nenhuma das mortes relatadas nas redes sociais provou ter relação com as vacinas em uso no Brasil, CoronaVac e Oxford/AstraZeneca. Além disso, os resultados das pesquisas realizadas com os dois imunizantes não mostraram efeito colateral grave.

A CoronaVac não apresentou efeitos adversos graves nas duas primeiras fases do ensaio clínico. O estudo publicado na revista científica The Lancet em novembro mostrou que, na fase 1, a taxa ficou entre 13% e 38%, com predomínio de sintomas leves, como dor no local da injeção. Como grave e possivelmente relacionado à vacina, foi relatado apenas um caso de urticária em que o participante foi medicado, se recuperou e não apresentou outras reações ao tomar a segunda dose.

Os resultados apresentados na The Lancet no dia 8 de dezembro sobre a vacina de Oxford/Astrazeneca também não indicaram efeito adverso grave ou morte. Durante os testes, 175 eventos graves foram observados, mas apenas três deles (anemia hemolítica e mielite) poderiam ter relação com a vacinação.

Essas informações também estão disponíveis nas bulas autorizadas em janeiro pela Anvisa tanto da CoronaVac quanto da de Oxford/AstraZeneca.

Publicações sobre mortes após a vacinação contra Covid-19 relacionadas a outros imunizantes contra Covid-19 têm sido recorrentes em diferentes países, mas também não houve comprovação de alguma relação.

Ilustração: Luiz Fernando Menezes

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
2. Instituto Butantan
3. The Lancet (Fontes 1, 2 e 3)
4. Nature
5. Anvisa (Fontes 1 e 2)
6. Fiocruz
7. G1
8. BBC Brasil
9. Deutsche Welle


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