🕐 Esta reportagem foi publicada há mais de seis meses

Políticos patrocinam populismo de oposição para combater 'fake news'

Por Tai Nalon

22 de junho de 2020, 12h00

Em virtude da pandemia, as campanhas eleitorais nos Estados Unidos e também no Brasil devem ser travadas sobretudo nas redes sociais. Por contingência, a esfera pública será transferida em quase toda a sua totalidade para as grandes plataformas que, já influentes em 2016 e 2018, ainda encontram dificuldades em se apresentar como fiadoras da democracia.

Essa discussão encontra eco nas várias discussões que o Congresso tem empreendido para formular um projeto de lei que combata uma gama de atividades que parlamentares consideram "fake news". Entre textos anacrônicos, autoritários ou minimalistas, deputados e senadores se veem pressionados a proteger suas reputações individuais a tempo das eleições deste ano. Sem texto consensual até esta sexta-feira (19), fica difícil analisar o que de fato está em jogo na internet brasileira senão a tentativa de legislar em causa própria.

Porém, por mais isolados do restante do mundo neste momento, o descontentamento dos políticos brasileiros é compartilhado em países com democracias digitais igualmente conflagradas. Nesta semana, o pré-candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, lançou como plataforma de sua campanha o manifesto #movefastfixit. Ele propõe ao Facebook "promover notícias reais, e não falsas", "remover rapidamente desinformação viral", "acabar com o período de 'mentiras' eleitorais" e "reforçar medidas contra ações de supressão ao voto".

Esse chamamento democrata é muito parecido com a primeira movimentação nas redes brasileiras, coisa de um mês atrás, em que influenciadores exortavam o público para pressionar políticos a passar, de modo simplista, uma lei contra "fake news". No entanto, a proposta de censurar conteúdo nas redes sociais professada por um candidato a presidente americano é muito mais preocupante do que qualquer voo de galinha autoritário promovido por um conjunto de parlamentares brasileiros. O primeiro e mais óbvio motivo é que Biden transita facilmente entre os executivos que efetivamente criam e aprimoram as políticas das plataformas.

Diferentemente de políticos brasileiros, que acreditam que plataformas globais produzirão uma versão brasileira Herbert Richers do Facebook, do WhatsApp e de que tais, a pressão democrata vai ao encontro do discurso dos yuppies do Vale do Silício, em virtual rebelião contra o chefe Mark Zuckerberg. Ele, por sua vez, não só se nega a deletar esse tipo de conteúdo de suas redes, mas também se recusa a submeter publicações patrocinadas ao escrutínio dos checadores de fatos parceiros do Facebook (Aos Fatos é um deles).

As críticas ao comportamento de Zuckerberg se adensam à medida que o Twitter tem colocado marcações em tweets publicados pelo presidente Donald Trump, que concorre à reeleição e aposta no seu robusto repertório de mentiras como bem sucedida estratégia de campanha. Trump acusa o Twitter de censura, que acusa Trump de promover um rosário de ruídos que vão de incitação à violência até publicação de vídeo adulterado.

O problema é que, sem publicizar uma metodologia clara de verificação de conteúdo, como a qualificação de fontes que norteiam o processo de checagem dos tweets presidenciais, a plataforma entra na guerra política americana como um mediador pouco transparente. Dá munição à toa aos apoiadores de Trump, que, veja bem, demandam práticas honestas do Twitter. Ficamos todos sem parâmetros claros sobre para quem e por que atuam as plataformas.

Os políticos brasileiros com quem conversei nos últimos dias estão atentos à movimentação americana e hesitam patrocinar, ao menos publicamente, qualquer tipo de censura nas redes sociais por meio de projeto de lei. Dizem querer incentivar a checagem de fatos, como se o escrutínio de informações falsas e enganosas fosse panaceia.

A baixa qualidade do debate sobre combate à desinformação nos Estados Unidos dificulta a criação de uma estratégia global, verdadeiramente democrática. O que se tenta fazer aqui e lá, por enquanto, é instrumentalizar a atividade de verificação contra a agenda do momento. Ao patrocinar soluções simples para um problema grave, políticos subsidiam uma espécie de populismo de oposição. É necessário subir o nível dessa discussão.


Esta análise foi originalmente veiculada na newsletter AF+ #35 em 19 de junho de 2020 somente para apoiadores do Aos Fatos Mais. Para juntar-se ao grupo, contribua e garanta benefícios.

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