Política supera pandemia e é o tema de desinformação mais checado em 2021

Por Luiz Fernando Menezes

30 de dezembro de 2021, 12h26

As eleições são apenas no ano que vem, mas o volume de desinformação relacionada a elas contribuiu para que a política se tornasse o principal tema das postagens verificadas por Aos Fatos em 2021. Das 608 publicações checadas, 261 (42,9%) continham alegações enganosas que, de algum modo, refletiam a disputa eleitoral antecipada entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No levantamento deste ano, a política desbancou a saúde, apesar de todo o ruído de informações sobre Covid-19 que ainda persiste nesta pandemia. Maior tema de 2020, agora ele figura em segundo lugar, com 195 (32,1%) checagens. Veja aqui como Aos Fatos seleciona os conteúdos nas redes sociais que serão checados.

Uma das peças de desinformação com mais engajamento no ano dizia, por exemplo, que o ex-presidente Lula (PT) teria doado uma refinaria da Petrobras à Bolívia. A publicação circulou em janeiro e acumulava cerca de 320 mil compartilhamentos no Facebook quando foi checada, além de viralizar em outras plataformas, como WhatsApp e Twitter.

Também ficou entre as mais virais uma postagem que dizia que a dupla sertaneja Teodoro e Sampaio teria produzido uma música de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (280 mil compartilhamentos). Nenhuma dessas alegações era verdadeira.

Já a desinformação sobre o sistema eleitoral, presente em 24 posts, foi impulsionada pela discussão sobre a possível implementação da impressão do voto eletrônico, capitaneada por Bolsonaro. No dia 29 de julho, ele fez uma live no Facebook, que foi retransmitida pela TV Brasil, com ataques às urnas eletrônicas. À época, alegações enganosas antigas e denúncias já apuradas e descartadas pela Justiça voltaram a circular para defender a proposta de voto impresso, que acabou rejeitada pela Câmara dos Deputados.

Em alguns casos, a política também adentrou na desinformação sobre saúde. Uma das publicações (317 mil compartilhamentos), por exemplo, dizia que uma mulher que se vacinou com uma camiseta com xingamentos a Bolsonaro teria morrido de Covid-19 meses depois. Outra sugeria que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), teria desrespeitado medidas de restrição ao se reunir com sua equipe para um almoço (150 mil compartilhamentos).

Coronavírus. Com o início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil em 17 de janeiro de 2021, o assunto mais frequente nas peças de desinformação sobre saúde passou a ser as vacinas – em 2020, as alegações falsas sobre o número de mortes pela doença eram o assunto mais recorrente.

Em 76 checagens sobre os imunizantes, Aos Fatos desmentiu, por exemplo, que eles alterariam o DNA humano ou que causaram mortes. Também circularam alegações falsas sobre vacinas específicas: a vacina da Pfizer foi citada 13 peças desinformativas, a CoronaVac em 12 e a AstraZeneca em duas.

Ainda sobre saúde, houve alegações enganosas sobre isolamento social e métodos de cura da Covid-19 (32 peças desinformativas sobre cada). Entre elas, estavam posts que criticavam políticos e famosos por supostamente desrespeitarem medidas de distanciamento, que alertavam para decisões inexistentes de governadores ou prefeitos e que defendiam tratamentos ineficazes como uso de ivermectina, hidroxicloroquina e o chamado “tratamento precoce”.

Principais personagens. Citado em 121 publicações checadas pelo Aos Fatos, Bolsonaro permaneceu neste ano como a figura pública ou instituição mais recorrente nas peças de desinformação. Lula, que ficou em quinto lugar no ano passado, voltou para a segunda posição ocupada em 2019, com 57 menções. Já China e OMS (Organização Mundial da Saúde), que figuraram entre os dez mais citados em 2020, não aparecem no ranking atual.

A maior parte das publicações que mencionava Bolsonaro (104 posts, cerca de 86%) trazia alegações que, de alguma forma, eram favoráveis ao presidente por inflar a sua imagem ou as ações de seu governo. Com teor negativo foram 16 postagens, como a que dizia que o metrô de Nova York teria exibido um anúncio que comparava Bolsonaro ao personagem Pinóquio.

Por outro lado, todas as 57 publicações envolvendo Lula foram depreciativas. As alegações mais presentes foram as de que o ex-presidente não teria nenhum apoio popular ou que teria envolvimento com casos de corrupção que ainda não foram elucidados. Tratados regularmente como opositores do governo, a imprensa (27 das 38 postagens eram negativas) e o STF (21 das 26 eram negativas) também foram atacados pelas peças de desinformação em 2021.

Já as Forças Armadas foram citadas de forma positiva em 29 das 31 peças checadas. As duas principais narrativas que apareceram em 2021 envolvendo a corporação foram a exaltação dos militares durante o 7 de Setembro e a participação do Exército em obras de infraestrutura ou projetos sociais.

Mais lidas. Por mais que tenha sido registrado um aumento no número de peças desinformativas políticas, o assunto de maior interesse dos leitores do Aos Fatos continuou sendo a Covid-19. Três das cinco checagens mais lidas no ano tratavam de assuntos relacionados à pandemia:

1ª: Bolsonaro não gastou R$ 15 milhões em leite condensado; cifra equivale à despesa de todo o governo federal
2ª: Vídeo não mostra vacinação com injeção falsa, mas seringa com agulha retrátil
3ª: É falso que FDA aprovou uso da hidroxicloroquina para todos os pacientes com Covid-19
4ª: Imagem que compara combustíveis sob Dilma e Temer distorce preços
5ª: É falso que filho do ex-presidente Lula comprou 20% das ações da Sinovac

Três dessas reportagens mais lidas não foram publicadas em 2021. O vídeo da seringa retrátil circulou de forma descontextualizada em 2020, mas continuou sendo usado para sugerir que a vacinação seria uma farsa. Também voltaram a ser compartilhadas a alegação falsa de que a hidroxicloroquina foi aprovada por um órgão americano de saúde e uma comparação equivocada de preços de combustíveis em diferentes governos.


Desde 2018, o Aos Fatos faz parte do Third-Party Fact-Checking Partners, programa de verificação de fatos da Meta para combater a desinformação no Facebook e no Instagram. A parceria prevê que, uma vez identificado e checado um conteúdo enganoso, as plataformas reduzam o seu alcance e notifiquem os usuários que viram ou interagiram com ele.

O Aos Fatos seleciona as peças de desinformação que serão checadas por meio de critérios como alcance (número de visualizações e compartilhamentos) e dano potencial que a informação falsa pode causar. Dessa maneira, são priorizadas as publicações virais ou feitas por políticos com mandato, uma vez que suas afirmações tendem a ter maior impacto.

O Aos Fatos também tem como princípio tratar de forma equilibrada todos os espectros políticos em suas publicações. Como não é possível, no entanto, ignorar a força dos principais difusores de desinformação, o volume de checagens acompanha a quantidade de peças enganosas disseminadas por cada um dos lados: se os governistas, por exemplo, tendem a mobilizar mais informações enganosas durante determinado período, é esperado que haja mais desmentidos sobre esse espectro político.

Veja mais detalhes sobre o funcionamento da parceria aqui e como denunciar publicações nas plataformas aqui.

Referências:

1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26 e 27)
2. G1
3. BBC

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