‘PL da Mordaça’: direita distorce e ataca projeto que protege crianças na internet

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Se, após a viralização do vídeo do influenciador Felca, deputados da oposição foram rápidos em apresentar propostas contra a adultização, parte desse grupo agora ataca o PL 2628/2022, que prevê a proteção a crianças e adolescentes e teve a tramitação de urgência na Câmara aprovada na última terça (19).

Desde a tarde de segunda-feira (18), parlamentares como Gustavo Gayer (PL-GO) e Nikolas Ferreira (PL-MG) têm feito uma série de publicações que acusam o projeto de tentar censurar a internet. No X, milhares de posts repetem os mesmos argumentos.

Aos Fatos também identificou centenas de publicações semelhantes no Telegram, no WhatsApp e no Facebook e ao menos 12 anúncios pagos nas plataformas da Meta.

Captura de tela de uma publicação no X do perfil de Gustavo Gayer. O texto diz: ‘Urgente! Querem enfiar o PL da Censura no Congresso hoje. Falem com os deputados dos seus estados’. Abaixo, aparece um vídeo em que um homem de terno cinza e gravata preta fala diretamente para a câmera em um ambiente de escritório, com prateleiras e uma planta ao fundo.
Gayer, que apresentou emendas para o PL 2628/2022, alega que projeto é uma ‘arma ideológica’ da esquerda (Reprodução/X)

A estratégia é semelhante à usada para tentar derrubar outros projetos, como o PL 2338/2023 — conhecido como “PL da IA” — e o PL 2630/2020 — apelidado de “PL das Fake News”.

Como ocorreu nas outras ocasiões, o texto passou a ser tratado como uma forma de “censura” e recebeu o apelido de “PL da Mordaça”. Bolsonaristas também têm tentado polarizar a discussão ao relacionar o projeto com o presidente Lula (PT) ou alegar que a proposta seria um “plano da esquerda”.

Arte gráfica com fundo preto mostrando foto de Lula sorrindo e apontando para frente. O texto em destaque diz: ‘A extrema urgência em pautar o #PL2628damordaça tem tudo a ver com você e também tem tudo a ver com isso... Lula se reuniu com cerca de 20 ditadores neste mandato’. Abaixo, há uma foto menor de Lula cumprimentando o presidente russo Vladimir Putin, acompanhada do logotipo da Gazeta do Povo.
Perfil oficial do PL publicou hashtag para atacar projeto na última terça-feira (19) (Reprodução/Instagram)

Apelidado de ECA Digital, o PL 2628/2022 busca criar regras para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. Ele determina que as plataformas devem prevenir o acesso a conteúdos impróprios ou ilegais, impõe regras sobre publicidade e monetização e ainda cria mecanismos de supervisão para os responsáveis legais.

Apesar de o governo apoiar o projeto, o texto original foi escrito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e o substitutivo é de autoria do deputado Jadyel Alencar (Republicanos-PI).

A versão que está para ser votada na Câmara ainda teve a inclusão de emendas sugeridas por deputados bolsonaristas. São exemplos:

  • Bia Kicis (PL-DF), Paulo Bilynskyj (PL-SP) e Zé Trovão (PL-SC), por exemplo, incluíram ferramentas de supervisão para pais e responsáveis;
  • Também foram acatados vários pedidos do Capitão Alberto Neto (PL-AM), que trouxe contribuições a partir de sugestões da Meta e do Google. Foi suprimida, por exemplo, a expressão “dever de cuidado” para se referir aos deveres das plataformas;
  • Emendas do Capitão Alberto Neto e de Mário Frias (PL-SP) também foram incluídas para flexibilizar o dispositivo que proíbe a monetização de conteúdo;
  • Trechos também foram suprimidos a partir de sugestões feitas por Bia Kicis e Adriana Ventura (Novo-SP).

As publicações ignoram ainda que o projeto, que já foi aprovado no Senado, também foi alvo de discussões que envolveram setores da sociedade e as big techs. Centenas de entidades já declararam apoio ao texto e sugestões feitas por empresas de tecnologia também foram aceitas pelo relator.

Desinformação

Algumas publicações de usuários apócrifos também distorcem o texto do PL 2628/2022 ao afirmar que ele determina a criação de uma agência estatal que vai permitir que Lula apague qualquer conteúdo da internet ou suspenda redes sociais por meses.

Captura de tela de publicação no X criticando o PL 2628/2022. O texto do post diz: ‘O objetivo é único; censurar as redes sociais com objetivo de calar pessoas de direita e de até bloquear redes sociais no Brasil. ‘A ditadura perfeita é a que vem vestida de democracia’. #PL2628DaMordaça NÃO!”. Abaixo, há quatro imagens: uma com a capa de vídeo “Acaba tudo se o governo Lula aprovar o projeto da censura”; uma com Lula de terno falando em entrevista; outra com foto da deputada Gleisi Hoffmann ao lado do texto ‘A verdade: Gleisi defende regulação da mídia’; e uma última com Lula em frente a microfones e o texto ‘Lula quer agência estatal com poder para apagar conteúdo da internet’.
Exemplo de post que usa notícias sobre projeto que ainda não foi entregue pelo governo para atacar o PL 2628/2022 (Reprodução/X)

O projeto de fato cria uma autoridade nacional para fiscalizar o cumprimento da nova lei e prevê que a suspensão das atividades de uma rede social pode ser uma das sanções aplicadas.

O texto, porém, deixa claro que as penalidades só podem ser determinadas após “assegurados o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório” e que as sanções devem ser proporcionais. Devem ser levados em consideração, por exemplo, a gravidade da infração, a reincidência e o impacto social sobre a coletividade.

Algumas publicações ainda confundem o PL 2628/2022 com o projeto de regulação de redes que já foi anunciado pelo governo Lula, mas ainda não foi entregue ao Congresso. Segundo a imprensa, a atual versão prevê que possa haver suspensão de uma rede social, mas só em caso de descumprimento generalizado da lei.

O caminho da apuração

Aos Fatos analisou os conteúdos com as hashtags “PL da Censura” e “PL da Mordaça” no X, além de buscas pelos termos em outras redes, como Facebook e Telegram. Também verificamos a íntegra do projeto para explicar a tramitação, autoria e quais parlamentares tiveram emendas integradas ao substitutivo.

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