Pfizer não cita hantavírus como reação adversa de vacina contra Covid-19

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Não é verdade que a Pfizer considera o hantavírus como uma das reações adversas de sua vacina contra a Covid-19. O documento compartilhado nas redes, publicado em 2021, lista condições de saúde monitoradas pela farmacêutica após a imunização, não efeitos colaterais. Especialistas consultados por Aos Fatos afirmam ainda que não há possibilidade de a vacina da empresa transmitir o vírus.

Posts com a alegação enganosa acumulavam ao menos 4.500 curtidas no Instagram e 20 mil visualizações no Telegram nesta quarta-feira (13).

Hantavírus... podemos perguntar por que está listada nos eventos adversos da vacina contra a Covid da Pfizer?

Imagem mostra uma cena escura ao ar livre durante a noite. O céu está cheio de pequenos pontos brilhantes semelhantes a estrelas. Na região central inferior da imagem há uma luz intensa refletida sobre uma superfície que parece água ou solo molhado. Ao redor, a paisagem aparece escura e pouco definida. Na parte superior da imagem há uma caixa branca com cantos arredondados contendo um texto em letras pretas que diz: ‘Hantavírus... podemos perguntar por que está listada nos eventos adversos da vacina contra a Covid da Pfizer?’. 

Publicações enganam ao afirmar que a Pfizer listou o hantavírus entre os efeitos adversos da vacina contra a Covid-19. Na realidade, o vírus aparece em uma lista de condições de saúde a serem monitoradas com atenção especial pela farmacêutica caso ocorressem em vacinados. Isso não significa que essas condições sejam causadas pelos imunizantes.

As postagens mostram parte de um relatório enviado pela Pfizer à FDA (agência americana de vigilância sanitária) em 2021. O hantavírus é citado na lista de EAIEs (Eventos Adversos de Interesse Especial).

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saíde), os EAIEs são doenças e ocorrências médicas previamente selecionadas pela fabricante do imunizante com algum potencial de estar associado a uma vacina ou medicamento. Por isso, essas situações demandam acompanhamento caso sejam notificadas após a imunização.

No relatório, a Pfizer explicita que a lista de EAIEs associada à vacina contra a Covid-19 foi montada com base em agrupamentos criados por outras autoridades regulatórias e grupos de pesquisa:

  • A Brighton Collaboration, rede global de pesquisa sobre vacinação;
  • O protocolo Access, rede de pesquisa que criou modelos para avaliação de vacinas na União Europeia;
  • O CDC, Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos;
  • e a MHRA, agência regulatória de medicamentos do Reino Unido.

Leonardo Weissmann, médico infectologista do Hospital Regional de Itanhaém (SP), explica que a inclusão de um item na lista não significa que a empresa considere que tenha sido causado pela vacina, nem mesmo que tenha ocorrido durante o período analisado.

Segundo ele, essas listas são usadas na farmacovigilância para monitorar e investigar eventos que merecem acompanhamento mais detalhado caso ocorram após a vacinação.

Se alguma das condições incluídas na lista for relatada por um paciente após a vacinação, o caso é analisado com mais cuidado para verificar se foi apenas coincidência ou se há indícios de relação com o imunizante.

Ocorrências pós-vacinação

As ocorrências médicas efetivamente notificadas no período do estudo são analisadas em outra parte do relatório. Nessa seção, que reúne os EAIEs relatados por sistemas de notificação como o Vaers (Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas, em tradução livre), base de dados americana, não há menção ao hantavírus.

Weissmann explica que a notificação de um problema de saúde após a vacinação não significa que ele tenha sido causado pelo imunizante.

Para que seja determinado se a vacina foi a causa do problema, é preciso analisar questões biológicas, excluir outras causas possíveis e verificar se a condição ocorreu com mais pessoas que receberam o mesmo imunizante dentro de um mesmo período de tempo.

Benedito Fonseca, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e professor da USP (Universidade de São Paulo), faz uma analogia com o processo de produção de um veículo. Um fabricante de carros decide acompanhar todos os incidentes relatados após o lançamento de um novo modelo, como pneus furados e acidentes.

O simples fato de esses episódios terem sido registrados após o início da circulação do veículo, afirma Fonseca, não significa que tenham sido provocados por ele. Eles são analisados em conjunto para verificar se existe algum padrão que indique um defeito de fabricação.

Da mesma forma, segundo a OMS, os sistemas de farmacovigilância detectam, registram e investigam problemas de saúde ocorridos após a vacinação para determinar se há evidências de que estejam realmente relacionados ao imunizante.

Relação com o hantavírus

Além disso, os especialistas ouvidos por Aos Fatos afirmaram que não há uma maneira pela qual a vacina da Pfizer possa contaminar alguém com o hantavírus.

Isso porque a hantavirose é uma doença causada por vírus transmitidos principalmente pelo contato com a urina, fezes ou saliva de roedores infectados. Já a vacina da Pfizer é um imunizante de RNA mensageiro que contém instruções para que o organismo produza temporariamente uma proteína da Covid-19, estimulando uma resposta imunológica. Ela não contém hantavírus nem qualquer componente desse agente.

Fonseca afirma que vacinas do tipo são produzidas em laboratório com base apenas na sequência genética do vírus contra o qual se deseja induzir proteção — no caso da Pfizer, o da Covid-19.

A Pfizer negou que a infecção por hantavírus esteja listada como uma reação adversa na bula aprovada da Comirnaty, nome registrado da vacina contra a Covid-19. “A Anvisa e autoridades regulatórias em todo o mundo autorizaram a vacina contra a Covid-19 da Pfizer-BioNTech, e comitês médicos especializados revisaram e continuam revisando os dados, recomendando seu uso”, afirmou a farmacêutica em nota.

O caminho da apuração

Aos Fatos analisou o documento compartilhado pelas publicações enganosas e verificou que o termo “infecção pulmonar por hantavírus” aparece na lista de condições monitoradas preventivamente no plano de farmacovigilância da vacina da Pfizer contra a Covid-19, e não de efeitos adversos causados pelo imunizante.

A reportagem também consultou documentos da OMS e do Ministério da Saúde sobre farmacovigilância e EAIEs, além dos infectologistas Leonardo Weissmann e Benedito Fonseca, e da imunologista Daniela Ferreira.

Aos Fatos entrou ainda em contato com a Pfizer para esclarecer dúvidas a respeito do documento compartilhado pelos posts.

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