Perfis no TikTok especializados em publicar conteúdos gerados por IA (inteligência artificial) têm aproveitado o tarifaço anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, sobre a importação de produtos brasileiros para aumentar o engajamento e lucrar com desinformação.
Levantamento feito pelo Aos Fatos identificou 30 perfis na plataforma que produzem conteúdos com IA baseados em assuntos quentes no debate público. Juntos, eles somam quase três milhões de seguidores. Só os vídeos com desinformação sobre o tarifaço publicados por estes perfis já somaram mais de 15 milhões de visualizações.
Apesar de, em alguns casos, haver indicação de que o conteúdo foi gerado por IA, isso não parece ser suficiente para impedir que os usuários se confundam e compartilhem os posts como se fossem verdadeiros, como é possível observar nos exemplos abaixo.

As políticas de uso do TikTok sobre mídias geradas por inteligência artificial afirmam que é totalmente proibido o compartilhamento de “conteúdos gerados por IA ou mídia editada que podem causar danos, mesmo que devidamente rotulados”.
A plataforma indica ainda que não são permitidas publicações que apresentem “falsas fontes autorizadas, evento de crise ou que mostre falsamente figuras públicas em contextos enganosos”, que retratem imagens de menores de 18 anos ou que simulem figuras públicas “tomando uma posição sobre uma questão política, produto comercial ou um assunto de importância pública”.
Contudo, isso não tem impedido a proliferação de vídeos enganosos com IA no TikTok, como identificou o levantamento do Aos Fatos.

As duas estratégias desinformativas principais usadas pelos perfis para produzir conteúdo enganoso são a inserção de narrações e de dublagens falsas. Dos 62 conteúdos analisados pela reportagem, 19 deles usaram o recurso de dublagem — que fizeram, inclusive, Donald Trump falar português.
Outros 44 optaram por usar narrações de histórias fictícias ou distorcidas com vozes geradas por inteligência artificial, mesclando imagens reais e falsas.
Trump x Lula
Após Donald Trump anunciar tarifas recíprocas de 10% ao Brasil, em abril, uma série de vídeos gerados por inteligência artificial com ataques supostamente proferidos pelo presidente americano contra o presidente Lula começaram a viralizar no TikTok e se espalharam para outras redes — Aos Fatos desmentiu alguns deles (aqui, aqui e aqui).
Os conteúdos ganharam novo impulso com a carta enviada por Trump ao governo brasileiro no dia 9 de julho, que cita uma suposta perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e um inexistente déficit comercial para justificar a imposição de tarifas de 50% na importação de produtos brasileiros a partir de agosto.
As peças passaram então a incluir referências à tentativa de Trump de interferir na Justiça brasileira e no processo no qual Bolsonaro é réu por tentativa de golpe de Estado. Nos vídeos, até autoridades de outros países, como o presidente chinês Xi Jinping, aparecem.
Trump e Xi Jinping
Análise do Aos Fatos identificou que pelo menos um perfil usa vídeos antigos de Donald Trump e Xi Jinping com dublagens falsas para gerar engajamento nas redes. O perfil se descreve como publicador de “notícias do Brasil e do mundo” e afirma produzir conteúdo com dublagens fictícias.

Um dos vídeos publicados usou imagens de uma entrevista de Donald Trump antes de sair da Casa Branca, no dia 15 de julho, para mentir que o americano teria assinado uma decisão de desligar o sistema de geolocalização mundial — o GPS — apenas no Brasil. Isso sequer foi comentado por Trump na ocasião.
A mesma conta alterou um vídeo do discurso do presidente chinês, Xi Jinping, em uma feira de importação em 2020 para fazer crer que ele teria defendido o Brasil das ameaças dos EUA, chamando as tarifas de “intimidação”. Tanto as cenas de Trump quanto de Xi Jinping foram reutilizadas em outros oito vídeos desinformativos.
Alexandre de Moraes e STF na mira
O posicionamento de Trump em defesa de Jair Bolsonaro e contra Alexandre de Moraes e o STF (Supremo Tribunal Federal) — a quem acusou de “caça às bruxas” contra o ex-presidente — também turbinou vídeos desinformativos com IA.
No TikTok, a hashtag #stf leva a um sem-número de vídeos dublados por IA que criticam o STF e, principalmente, o ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito que investiga a tentativa de golpe de Estado.

Dos 62 vídeos listados pelo Aos Fatos com algum nível de desinformação, 35 deles citam o STF e o ministro Alexandre de Moraes. Em sua maioria, são acusações de que há uma perseguição deliberada contra Bolsonaro, acusado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) de liderar uma organização criminosa e planejar um golpe no país.
Os conteúdos gerados por IA ainda tentam rotular a corte e uma parte dos ministros de censores e ditadores. O recente voto do ministro Luiz Fux, contrário à tornozeleira eletrônica em Bolsonaro, o colocou como defensor da Justiça. Fux é um dos três ministros não afetados pelo cancelamento de vistos determinado por Trump na semana passada.
Outro lado. Procurado por Aos Fatos, o TikTok afirmou que a equipe de moderação da plataforma removeu conteúdos que violam as Diretrizes da Comunidade sinalizados pela reportagem. E, de fato, na manhã desta segunda-feira (28) 50 dos 62 vídeos analisados estavam fora do ar. Dos 30 perfis listados na análise do Aos Fatos, 26 foram derrubados.
O TikTok disse ainda que faz uma “moderação proativa”, que combina tecnologia e humanos para localizar e remover conteúdo ou interação que possa ser relacionada a comportamentos nocivos.
O caminho da apuração
Aos Fatos fez um levantamento de perfis no TikTok especializados em publicar conteúdo gerado por inteligência artificial e chegou a 30 usuários. A amostra foi considerada relevante porque, juntos, eles somam mais de 3 milhões de seguidores e 17 milhões de curtidas.
A reportagem, então, analisou 62 vídeos publicados por esses perfis que, juntos, alcançaram 15,4 milhões de visualizações, e constatou a presença de conteúdo desinformativo.
Em seguida, separamos os vídeos de acordo com as principais estratégias usadas pelos usuários e apontamos os contextos desinformativos usados para alimentar desinformação sobre o tarifaço.
Por fim, questionamos o TikTok sobre o uso irregular da plataforma — de acordo com as diretrizes da empresa. Em resposta nesta segunda (28), a plataforma informou que os conteúdos que feriam suas regras foram removidos, o que foi constatado por Aos Fatos.




