Como perfis de fofoca e humor têm sido orientados a tratar a tragédia no Rio Grande do Sul

Por Alexandre Aragão

15 de maio de 2024, 15h48

Empresa de marketing de influência que representa criadores como Gina Indelicada (12,4 milhões de seguidores no Instagram), Nana Rude (2,4 milhões) e Saquinho de Lixo (2 milhões), a Banca Digital afirma que a maior parte dos brasileiros com acesso à internet segue ao menos um perfil agenciado por eles.

Apesar de terem como temas principais o humor e o mundo das celebridades, os perfis também tratam de assuntos do noticiário, como a tragédia no Rio Grande do Sul. Muita gente se informa com esse tipo de conteúdo, o que acarretou críticas à empresa no passado, já que nem sempre existia responsabilidade editorial.

O caso mais famoso é o de Ratanabá, história falsa sobre uma cidade perdida na Amazônia que foi espalhada pelo Choquei, hoje ex-agenciado da Banca Digital, e depois cooptada por apoiadores do então presidente, Jair Bolsonaro (PL), como mostrou reportagem do Aos Fatos e do Núcleo há dois anos.

Boa para o engajamento, a polêmica pode ser ruim para os negócios e acabar afastando marcas em busca de publis.

Desde o início do ano, a Banca Digital contratou novos executivos e deixou de ter exclusividade com a Mynd. O reposicionamento tenta responder ao problema da desinformação e, ao mesmo tempo, reforça os argumentos comerciais da empresa — que agora diz fomentar “conversas mais saudáveis e seguras” nas redes.

Na prática, isso se traduz em um processo de “cocriação” com os perfis agenciados, que recebem apoio e informações, mas mantêm a liberdade para publicar o que quiserem.

“No caso do Rio Grande do Sul, a gente sentiu que era uma oportunidade enquanto empresa que agencia talentos e que está preocupada com o jeito que a informação circula”, explicou à Plataforma Alberto Pereira Jr., head de jornalismo da Banca Digital desde fevereiro.

“A nossa equipe se prontificou a já municiar os agenciados com informação de qualidade, para evitar desinformação”, ele diz. “A nossa recomendação não é ignorar [assuntos negativos], mas priorizar e ter essa sensibilidade do que, de fato, pode fazer o movimento de ajuda que está acontecendo ir além.”

A Plataforma de hoje é sobre influência e responsabilidade.

E MAIS: Uma resenha do livro ‘A Máquina da Vergonha’, de Cathy O’Neil, por Bianca Bortolon.


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Influência e responsabilidade

Apesar do senso de humor peculiar do brasileiro, alguns assuntos não servem ao riso. “A orientação de não fazer piada ou meme com assuntos sérios é um ponto que já vem de outros casos, por exemplo, o do tio Paulo”, disse Pereira Jr., em referência ao caso do idoso morto em uma agência bancária.

Em uma perspectiva mais ampla, o reposicionamento da empresa busca também a profissionalização do mercado de criadores, afirmou à Plataforma Peter de Albuquerque, COO (diretor de operações) da Banca Digital e ex-head de cultura e criatividade da Ambev. Ele também destaca a importância de ter na equipe pessoas de diferentes gerações, a fim de captar sensibilidades que poderiam passar batidas.

Em meio às discussões sobre regulação de plataformas, diversos projetos de lei tratam especificamente da atividade de criador de conteúdo, com foco em publicidade enganosa e golpes financeiros, como o Aos Fatos mostrou em reportagem no ano passado.

A Banca Digital acompanha o debate regulatório no Brasil e em outros países, e busca se antecipar a esse movimento, dizem os executivos.

Uma cartilha distribuída pela empresa aos criadores — e que será tornada pública em breve — reúne a legislação brasileira sobre internet e preceitos éticos do jornalismo e da publicidade, “com o objetivo de combater a desinformação, consolidar uma cultura de responsabilidade na internet, com conversas mais saudáveis e um olhar sobre a necessidade de profissionalização da comunidade de criadores digitais”.

Entre as recomendações básicas estão “checar as informações”, “dar crédito às fontes” e “reconhecer e corrigir erros” — todas noções que estão arraigadas no jornalismo, mas que nem sempre são consideradas nas redes.

No caso específico de desastres naturais, que estão sob o guarda-chuva de “temas sensíveis”, a cartilha diz que o conteúdo pode ser problemático caso a prioridade não seja informar, mas gerar engajamento. Também orienta a jamais publicar imagens de pessoas ou animais mortos, a não usar músicas “tristes” ou “dramáticas” e a nunca usar legendas em maiúsculas. Essas orientações têm sido seguidas pelos perfis, que compartilham conteúdos jornalísticos e links para ajudar a população.

O reposicionamento da Banca Digital ocorre também na esteira do caso de Jéssica Canedo, que se matou em dezembro passado após ser alvo de ódio na internet. A Polícia Civil de Minas Gerais concluiu em março que ela própria enviou prints falsos a perfis de fofoca, como o Garotx do Blog, então agenciado pela empresa, que foram republicados sem checagem e geraram a onda de perseguição.

Ainda que tenha como pano de fundo preocupações reputacionais e comerciais — legítimas —, qualquer iniciativa que busque melhorar o ambiente digital deve ser exaltada. E fiscalizada.


Bucaneiros da web

O sucesso de conteúdos sensacionalistas se deve em parte à própria lógica dos algoritmos. O efeito que esses mecanismos exercem nas relações humanas é descrito por Jonathan Crary, professor de teoria e arte moderna da Universidade Columbia, no livro “Terra Arrasada: além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista” (Ubu).

“As formas de redes sociais projetadas pelas grandes corporações eliminaram a possibilidade de uma relação ética com a alteridade e a angústia”, ele escreve. “De vários modos, somos induzidos ou forçados a seguir as rotinas de trabalho e lazer digitais e a nos alinhar com suas mediocridades e seu caráter tedioso.”

A principal consequência, segundo o autor, é que “estamos perdendo a possibilidade de escutar; de deparar, de maneira tolerante, com um estranho, alguém desamparado, alguém que não ofereça nada de útil a nosso interesse pessoal”.

Exemplos desse diagnóstico ficam evidentes em cenários como o atual, em que a exploração da miséria humana está nos trending topics.

Enquanto voluntários e profissionais navegam águas turvas para aliviar o sofrimento do próximo — alguns no duplo papel de salvador e vítima, a um custo pessoal incalculável —, bucaneiros da internet se apropriam de problemas verdadeiros para fazer uso político da dor dos outros, seja de forma deliberada ou como idiota útil. São figuras insensíveis, negligentes, por vezes vis e desprezíveis, que carregam suas claques cativas.

Para Jonathan Crary, “é notável que, em um momento de perigos sem precedentes para o futuro do planeta e para a própria sobrevivência de humanos e animais, tantas pessoas optem por se confinar voluntariamente em armários digitais dessecados e concebidos por um punhado de corporações sociocidas”.


🫣 Vergonha e verdade

Por Bianca Bortolon

É simples: a vergonha é uma ferramenta de policiamento desde os primórdios da humanidade. O sentimento — comum a todos — representa outra dimensão da dor, reforça regras sociais e emerge do conflito entre desejo individual e expectativa coletiva.

Mas a coisa complica um bocado quando as empresas mais poderosas do mundo passam a explorar a vergonha como matéria-prima de seus negócios. É o que Cathy O’Neil, cientista de dados e doutora em matemática pela Universidade Harvard, investiga no livro “A Máquina da Vergonha” (Rua do Sabão).

Os mercadores da vergonha, como são chamados pela autora, há séculos induzem este infinito e valioso recurso para oferecer produtos e serviços. Da indústria de cosméticos a clínicas de reabilitação, todo um sistema serve-se do constrangimento para coagir pessoas e lucrar com o sofrimento alheio.

As redes sociais são uma mutação ainda mais poderosa dessas máquinas de vergonha, ela argumenta. O alcance do constrangimento agora é global, quando impulsionado por plataformas que têm na vergonha um combustível para engajamento — e cujos algoritmos se utilizam da atração natural que nós, tão humanos, temos pela discórdia.

A estratégia comercial não é nova, ainda mais quando falamos de mídia, mas ganha novos incentivos no caso das redes. Como o fim é maximizar engajamento, o sistema tende a priorizar conteúdos que gerem mais cliques e comentários. E nada melhor para isso do que a polêmica, ou conteúdo divisório, como chama O’Neil.

Para serem incluídos no debate, os usuários são empurrados a adotar posições extremas, atraídos a discussões mais acaloradas e irresistíveis tal qual insetos perseguem a luz. E lá está ele — o constrangimento —, nas acusações e nos ataques.

Tudo isso, claro, serve a uma cadeia lógica: quanto mais tráfego e mais dados sobre o comportamento dos usuários, mais lucro. Acontece que, como explica a autora, a instrumentalização da vergonha por essas empresas afeta a maneira como pensamos, a vida que levamos e o que aceitamos como verdade.

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