Dados e pesquisas desmentem o argumento de que a pecuária não seria culpada pelas mudanças climáticas e que seria uma “solução” para a diminuição dos gases de efeito estufa. Apesar de haver, de fato, uma reabsorção pelo pasto, esse processo não é suficiente para neutralizar as emissões do setor.
No Brasil, uma versão da desinformação está disponível na Agroteca, repositório mantido pela entidade de lobby pró-agronegócio Donme (De Olho no Material Escolar) em parceria com a Esalq (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz), da USP (Universidade de São Paulo). O conteúdo enganoso também aparece em publicações no TikTok e no X.
O boi é a solução para o aquecimento global. Porque o pasto cresce, tira o carbono da atmosfera e o que o animal emite é menor do que ele removeu da atmosfera.

Materiais didáticos e publicações nas redes se baseiam em premissas incorretas ao afirmar que a pecuária não seria culpada pelas mudanças climáticas, mas a “solução” para a diminuição dos gases de efeito estufa.
As peças de desinformação afirmam que o metano emitido pelo gado seria reabsorvido pelo pasto, em um processo conhecido como sequestro de carbono (veja abaixo). Ainda que esse processo realmente exista, especialistas e estudos consultados pelo Aos Fatos apontam que a reabsorção não é suficiente para compensar as emissões.
Neste ciclo, o metano produzido pelo gado vai para a atmosfera e se transforma em gás carbônico (CO2) e água. Em seguida, as pastagens absorvem o CO2 pela fotossíntese.

Levantamento realizado pela Food Climate Research Network em 2017, por exemplo, revisou estimativas de remoção de carbono e interpretou que, “mesmo assumindo o potencial máximo de mitigação [estimado pelos estudos], o setor de pecuária continuaria sendo um emissor líquido”. Ou seja, continuaria com saldo "negativo" de emissão.
Dessa maneira, o sequestro do solo pode apenas ter um “papel secundário na diminuição das emissões”:
“O carbono liberado causa aquecimento permanente. Portanto, evitar a liberação de carbono é ainda mais importante do que tentar sequestrá-lo”, conclui o estudo.
Artigo publicado na Nature em 2023 também afirma que o sequestro de carbono das pastagens não é suficiente para mitigar a emissão da pecuária mundial.
Os cientistas estimam que, hoje, as pastagens manejadas possuem cerca de 75 gigatoneladas de carbono estocadas, sendo que, para compensar as emissões anuais contínuas, seriam necessárias 135 gigatoneladas.
A argumentação das peças de desinformação ignora ainda que:
- O estoque de carbono no solo é finito, ou seja, as pastagens têm um teto de absorção;
- O estoque também é reversível: queimadas e enchentes podem liberar o carbono estocado. Cenário que, por causa das mudanças climáticas, não é evitável ou sequer previsível;
- A pecuária não emite carbono apenas por meio dos gases do gado. A literatura também relaciona à pecuária as emissões provenientes da decomposição e da queima de matéria orgânica associada ao uso da terra e também do desmatamento;
- A remoção de carbono por parte do solo depende de diversas variáveis, como tratamento, cobertura vegetal, condições meteorológicas e altura do lençol freático.
“Se você medir o fluxo em diferentes pontos de uma mesma pastagem, verá que há pontos que removem gases de efeito estufa da atmosfera, enquanto outros pontos podem emitir”, explicou Luciana Rizzo, professora do Laboratório de Física Atmosférica da USP (Universidade de São Paulo).
Dados das emissões
No Brasil, o cálculo das emissões de carbono é responsabilidade do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa). Em seu último relatório, a entidade estima que a pecuária, sozinha, responde por 51% das emissões brutas brasileiras de gás carbono (1,1 gigatoneladas de carbono, ou GtCO2).
“Se fosse um país, o boi brasileiro seria o sétimo maior emissor do mundo, ligeiramente à frente do Japão” — SEEG, em seu último relatório.
Em 2024, segundo o relatório, o setor agropecuário — que engloba os agricultura e pecuária — totalizou 626 mega toneladas de carbono (MtCO2). Desse total, cerca de 80% está relacionado à pecuária. O estudo aponta ainda a origem da emissão pelo setor:
- 65% de fermentação entérica — digestão dos animais ruminantes (404 MtCO2);
- 30% de manejo de solo (182,4 MtCO2);
- 5% de manejo de dejetos de animais (29,2 MtCO2).
Já em relação à absorção de carbono, não há uma estimativa específica do SEEG apenas para a pecuária. O cálculo leva em conta todo setor agropecuário brasileiro. O sistema estima que agricultura e pecuária removeram da atmosfera 122,1 MtCO2 em 2024, cerca de 30% da emissão do setor no mesmo ano.
A conta, portanto, não fecha: a pecuária, sozinha, emite mais carbono do que todo o setor agropecuário brasileiro remove da atmosfera atualmente.
Especificamente sobre o metano, um estudo do Observatório do Clima de 2025 mostra que o setor agropecuário foi responsável por 75,6% da emissão desse gás em 2023.
Estimativas apontam que o metano é até 28 vezes mais potente em reter calor do que o gás carbono. Sozinho, o metano pode ter contribuído para o aquecimento de 0,5ºC desde a era pré-industrial — ou seja, um terço do aquecimento do planeta até hoje.
Possível origem
A argumentação enganosa pode se basear em estudos que mostram que é possível diminuir a emissão de metano no campo com algumas estratégias.
Em 2014, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou um estudo da Secretaria de Estudos Estratégicos da Presidência da República com o título “Pastagens brasileiras compensam emissões de metano da pecuária”.
A pesquisa citada, no entanto, não dizia que toda a emissão era mitigada. Na verdade, ela apontava que, em pastos bem manejados — classificados como aqueles com capim de boa qualidade e monitoramento de solo — as pastagens captariam o equivalente em CO2 do metano produzido pelo rebanho.
O mesmo estudo, no entanto, apontava que a pecuária brasileira tinha baixa eficiência de ocupação bovina e que entre 27% e 42% do total dos 190 milhões de hectares de pastagens cultivadas estavam degradadas. “O que tem um impacto direto e significativo nas emissões de gases do efeito estufa”.
É fato, no entanto, que existem maneiras de reduzir as emissões de metano pela pecuária, como:
- Controle da qualidade do capim e rotação das áreas de uso, o que permite um maior sequestro de carbono;
- Dietas ricas em amido, como as baseadas em grãos, que reduzem a produção do gás durante a digestão do gado;
- Recuperação das pastagens degradadas para que elas sequestrem mais carbono;
- Adoção de sistemas integrados de produção, em que espécies arbóreas ficam no meio do pasto.
Um relatório da SEEG aponta também o tratamento de dejetos animais, seja pelo tratamento via biodigestão — processo em que microrganismos decompõem a matéria orgânica e transformam o gás poluente em biogás —, seja pelo emprego da compostagem.
Outro lado
Contatada pelo Aos Fatos, a Donme (De Olho no Material Escolar) afirmou que o vídeo disponível na Agroteca citado sustenta apenas que o setor não seria o principal responsável pelas mudanças climáticas e faria parte da solução do problema. A entidade diz que nunca afirmou que o setor é neutro e que a pecuária já tem empregado tecnologias e técnicas para reduzir as emissões.
“Entendemos que a pecuária não é o maior emissor setorial global, tem uma dinâmica de metano biogenicamente distinta das fontes fósseis, e dispõe de um conjunto real de tecnologias de mitigação e sequestro de carbono”, concluiu a entidade (veja a íntegra da nota aqui).
O caminho da apuração
Aos Fatos identificou diferentes publicações que fazem uma afirmação semelhante: a de que a pecuária brasileira não seria responsável pelo aquecimento global e poderia até ser considerada uma das “soluções” para o problema. A reportagem entrevistou especialistas e consultamos dados e pesquisas que mostram um cenário diferente.
Por fim, Aos Fatos entrou em contato com a Donme, responsável por um dos conteúdos citados que defendiam que a pecuária seria uma das soluções para o aquecimento global.





