Uma rede de páginas do Facebook conectada a sites sensacionalistas usou o desaparecimento de duas crianças em Bacabal, no interior do Maranhão, para disseminar conteúdos enganosos sobre o caso, atrair cliques e gerar lucro. O mesmo padrão de atuação foi observado em outros temas do noticiário.
A similaridade nas peças publicadas e a estrutura editorial e visual semelhantes dos portais são, segundo especialistas, indícios de ação coordenada — estratégia que prevê a difusão dos mesmos conteúdos por diversas páginas para amplificar o tráfego e a possibilidade de ganhar dinheiro.
- Aos Fatos identificou 120 publicações entre os dias 12 e 14 de janeiro com o mesmo padrão de funcionamento;
- Dessas, 119 continham links externos; a maioria (83) direcionava para um mesmo conjunto de dez sites que se apresentam como “portais de notícias”;
- Já outros 36 levavam a links comissionados associados a três lojas diferentes hospedadas na Shopee;
- A Meta disse ao Aos Fatos que não permite a circulação desse tipo de conteúdo em suas plataformas, mas há publicações enganosas ainda no ar (veja a resposta da empresa no final da reportagem).
As páginas acumulam centenas de milhares de seguidores e mantêm altas taxas de engajamento, o que amplia o alcance dos posts enganosos e potencializa o redirecionamento de tráfego para os links externos.
Neles, os cliques são convertidos em receita principalmente por meio de anúncios digitais, incluindo formatos de publicidade nativa e redes de anúncios programáticos, como Google Ads, que remuneram os administradores de acordo com o volume de acessos e visualizações.
A rede de clickbaits (caça-cliques) foi identificada pela reportagem por meio de uma peça de desinformação viral sobre o desaparecimento das crianças em Bacabal. A partir dela, foram levantados centenas de outros posts com o mesmo formato, linguagem e estratégia de distribuição.

As publicações exploravam diretamente a comoção em torno do caso, sugerindo desfechos inexistentes, como o suposto fim das buscas ou a prisão de um responsável pelo desaparecimento — informações desmentidas oficialmente pelo Corpo de Bombeiros, pela Secretaria de Segurança Pública do Maranhão e pelo governo do estado.
A engrenagem do clickbait
A estratégia comum das páginas analisadas envolve a publicação de posts com textos e imagens alarmistas, sensacionalistas ou enganosos. Neles, o conteúdo principal é deliberadamente incompleto: frases são interrompidas, informações essenciais são omitidas e o desfecho prometido nunca aparece no corpo do post.
Em vez disso, as contas fixam na área de comentários um link externo, no qual o usuário deve supostamente clicar para obter a informação completa. Esse é um elemento central da estratégia: ao evitar a inclusão do link diretamente no post, as páginas reduzem a chance de ter o alcance limitado automaticamente ou de acionar sistemas de verificação das plataformas.
Das publicações analisadas, as URLs levam a dois destinos:
- sites que se apresentam como portais de notícias, mas não possuíam identificação clara de responsáveis;
- páginas de produtos pertencentes a um pequeno grupo recorrente de lojistas.
Os sites para os quais os usuários eram direcionados não publicam, necessariamente, conteúdos falsos. Trata-se, em grande parte, de textos genéricos e reaproveitáveis, sobre temas variados, produzidos em escala, com forte apelo e títulos chamativos.
O coordenador de growth marketing da empresa de tecnologia Aevo, Fernando Correa, afirmou ao Aos Fatos que o clickbait é uma estratégia de monetização focada em cliques e impressões, em que se abre mão da autoridade e da confiabilidade em troca do lucro.
Ele ressalta, porém, que essa estratégia tem prazo de validade curto, já que plataformas como a Meta têm algoritmos que, em teoria, identificam e coibem esse tipo de prática.
Valores. Fora das redes da Meta, Correa cita ainda o exemplo do Adsense, plataforma de publicidade do Google. Para os anunciantes, cada clique no site representa um determinado valor. Se uma pessoa clica na propaganda, o anunciante paga um valor para o Google, que por sua vez repassa 68% dessa soma para o dono do portal.
Em contrapartida, não há grandes custos para quem faz o clickbait, o que o torna uma estratégia proveitosa para os sites. “O maior custo é você ter seu site banido, mas o mais comum é as pessoas fazerem outro domínio, o que gera a criação de um site atrás do outro para monetizar utilizando o Adsense”, afirma.
Recorrência. Apesar de muitas das publicações checadas por Aos Fatos sobre o caso Bacabal não estarem mais no ar, as páginas que operam esse modelo permanecem ativas e utilizando o mesmo formato, permitindo a circulação contínua de desinformação associada à monetização.
Em 25 de janeiro, a Polícia Civil de São Paulo investigou uma denúncia de que Ágatha Isabelly e Allan Michael teriam sido vistos no dia anterior em um hotel em São Paulo. No dia seguinte, a corporação descartou a hipótese e confirmou que as crianças encontradas não são as mesmas.
Isso, porém, não impediu as páginas de publicarem novos clickbaits sobre o caso:

Recentemente, as contas também compartilharam peças desinformativas envolvendo um suposto suicídio de um participante do Big Brother Brasil e o suposto novo namorado do ator Antônio Fagundes — neste caso, as peças ainda usam inteligência artificial para alterar uma foto do artista com seu filho.

A rede de sites
Os links direcionam para um conjunto específico de domínios, que aparecem de forma recorrente nas publicações das páginas. A análise da estrutura dos sites revela um padrão comum:
- ausência de CNPJ ou razão social;
- falta de endereço físico ou responsável legal identificado;
- domínios registrados com proteção de privacidade, ocultando o titular;
- uso de domínios no exterior, o que dificulta possíveis ações judiciais;
- Estrutura editorial e visual semelhantes entre si, priorizando conteúdos genéricos e chamadas sensacionalistas;
- matérias assinadas de forma genérica, como “Redação” ou “Equipe”;
- Diversas publicações com o mesmo conteúdo;
- Otimização para cliques e compartilhamentos.

O professor do departamento de informática da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), Rodolfo da Silva Villaça, explica que esse tipo de estrutura é característico de operações voltadas exclusivamente à geração de cliques:
“Tecnicamente, o conjunto de evidências é compatível com uma operação coordenada, ainda que não seja possível identificar formalmente os responsáveis sem os dados adicionais.”
Segundo ele, quando esses sinais aparecem juntos e de forma repetida, é provável que os sites façam parte de uma mesma engrenagem de geração de cliques, as chamadas fazendas de conteúdo.
Marketplace. Além dos sites que se vendem como noticiosos, uma parte significativa dos links publicados (36) direciona para apenas três lojistas específicos hospedados na Shopee. Eles aparecem repetidamente associados às mesmas páginas e ao mesmo modelo de post enganoso:
- o padrão sugere um fluxo organizado de tráfego:
- o post enganoso captura a atenção;
- o clique é direcionado;
- a monetização ocorre por vendas, comissões ou programas de afiliados.
Embora não seja possível afirmar publicamente quem controla as páginas, os sites ou as lojas, a repetição dos mesmos destinos comerciais indica que a desinformação funciona como ferramenta de marketing encoberto.
Para Villaça, além dos problemas referentes ao conteúdo, que desinforma ou traz apenas versões superficiais dos fatos, os usuários enfrentam outros tipos de risco ao acessarem os portais:
“Essas páginas costumam usar muitos mecanismos de rastreamento, que coletam dados como IP, tipo de dispositivo e hábitos de navegação, reduzindo a privacidade do usuário. Por dependerem de anúncios para lucrar, é comum não haver crivo sobre o que é anunciado e exibirem propagandas enganosas, alertas falsos ou redirecionamentos suspeitos, o que aumenta a exposição a riscos digitais”.
Outro lado
Em nota ao Aos Fatos, a Meta afirmou não permitir “conteúdos criados para enganar, iludir ou sobrecarregar usuários com objetivo de elevar artificialmente a visibilidade”.
A empresa também afirmou manter políticas e mecanismos de detecção que se atualizam continuamente para novas táticas abusivas, e que proíbe:
- tentativas de burlar políticas que apresentem conteúdo externo que difere do que é mostrado aos sistemas de integridade da plataforma;
- links enganosos ou domínios que imitam marcas ou entidades confiáveis;
- cadeias de redirecionamentos que levam a páginas de phishing, lojas falsas ou malware.
As publicações sobre o caso de Bacabal enviadas por Aos Fatos à Meta como exemplo da prática, porém, seguiam no ar até a publicação desta reportagem.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou publicações no Facebook que afirmavam, de forma falsa, que as buscas por duas crianças desaparecidas em Bacabal (MA) haviam sido encerradas ou que um suspeito teria sido preso.
A partir delas, a reportagem mapeou 120 publicações com formato, linguagem e estratégia de distribuição semelhantes, identificando os links externos associados a elas
Os destinos dos links — sites e páginas comerciais — tiveram sua estrutura, domínio, identificação institucional e modelo de monetização analisados. A apuração também realizou entrevistas com Rodolfo da Silva Villaça, professor de informática da Ufes, e Fernando Correa, coordenador de growth marketing da empresa de tecnologia Aevo, que avaliaram os padrões técnicos e comerciais da operação.
Por fim, a reportagem também procurou a Meta para comentar as práticas
identificadas.




