Um vídeo com cenas de abuso infantil supostamente registradas na região da Ilha de Marajó (PA) foi compartilhado no Instagram pelo deputado federal eleito Pablo Marçal (Pros-SP), apoiador de Jair Bolsonaro (PL). O vídeo, na verdade, foi gravado em novembro de 2021, em Itaquiraí (MS). O conteúdo somava 1,3 milhão de visualizações quando foi excluído pelo Instagram, horas após contato do Aos Fatos.
Autodenominado “empresário, investidor e escritor”, Marçal tem 2,4 milhões de seguidores na plataforma da Meta, empresa que também é dona do Facebook e do WhatsApp. Apesar de atuar como influenciador e “coach” há anos, ele ganhou notoriedade nacional em janeiro deste ano, quando levou 32 pessoas ao Pico dos Marins, em São Paulo, e o grupo precisou ser resgatado pelo Corpo de Bombeiros.
O conteúdo compartilhado em um story por Marçal foi publicado originalmente por uma página de apoio ao presidente, como Reels. O vídeo mostra um homem segurando uma lata de cerveja e beijando uma criança indígena a força, em um barco em movimento, com outros adultos ao redor.
Em nota, a Meta afirmou que “o vídeo em questão viola as nossas políticas e foi removido”. Segundo a empresa, “manter as crianças seguras no Instagram é extremamente importante para nós, e conteúdos que exploram ou colocam esse público em risco não são permitidos na plataforma”. O texto diz ainda que a Meta atua “de forma proativa para encontrar e remover esse tipo de material” e encoraja usuários “a denunciar qualquer conteúdo que explore ou ponha crianças em risco”.
A legenda do vídeo diz que as imagens foram gravadas na Ilha de Marajó, região do Pará em que os municípios têm os piores índices de desenvolvimento do Brasil. Porém, o Aos Fatos apurou que a gravação foi feita durante passeio de barco no rio Paraná na cidade de Itaquiraí, no Mato Grosso do Sul.
O caso ocorreu em novembro de 2021 e, após as imagens viralizarem, o homem que aparece no vídeo foi morto a tiros.
Denúncia sem provas. Durante um culto evangélico no dia 8 de outubro, a senadora eleita Damares Alves (PL-DF) fez acusações sem provas de abuso infantil na Ilha de Marajó, região que ela cita em discursos como local de exploração sexual ao menos desde 2019, segundo levantamento do G1.
O relato de Damares viralizou nas redes e levou o Ministério Público Federal a cobrar informações ao Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos sobre as declarações da ex-ministra. O prazo para resposta se encerrou nesta segunda (17) e o ministério não prestou esclarecimentos. Questionada, a senadora eleita disse ter ouvido “nas ruas” a história que replicou sem provas.
“Por favor espalhem esse vídeo porque esquerdistas estão chamando Damares de mentirosa”, dizia a legenda do vídeo com cenas de abuso compartilhado por Marçal. Com texto semelhante, o conteúdo também apareceu em ao menos 140 postagens no Twitter, entre domingo (16) e segunda (17) — que foram excluídas após contato da reportagem —, e em cinco comunidades no Telegram monitorados pelo Radar Aos Fatos.
“O Twitter removeu, por violação à política contra a exploração sexual de menores, todos os Tweets enviados pela reportagem do Aos Fatos. O Twitter tem tolerância zero em relação a qualquer material que mostre ou promova a exploração sexual de menores, uma das violações mais graves das Regras do Twitter”, disse a empresa em nota.
O Aos Fatos entrou em contato com Marçal, mas o deputado eleito não se posicionou sobre o compartilhamento do conteúdo.




