Osmar Terra teve 3,2 milhões de interações em 610 tweets com dados e previsões errados sobre Covid-19

Por Bruno Fávero, Cecília do Lago, Débora Ely, João Barbosa e Luiz Fernando Menezes

22 de junho de 2021, 10h30

Depoente da CPI da Covid-19 nesta terça-feira (22), o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) publicou em sua conta no Twitter ao menos 610 mensagens com alegações falsas e distorcidas ou previsões equivocadas sobre a doença desde o início da pandemia. No total, essas publicações alcançaram mais de 3,2 milhões de interações (curtidas e retweets), segundo levantamento do Radar Aos Fatos.

Esses números representam mais da 66% de tudo o que Terra já publicou sobre o novo coronavírus na rede social — a reportagem encontrou e analisou 907 tweets únicos (não inclui retweets) publicados entre 11 de março de 2020, dia em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou a pandemia de Covid-19, e 16 de junho deste ano. Em média, o deputado, apontado como um dos principais conselheiros do presidente Jair Bolsonaro sobre a crise sanitária, amplificou discurso enganoso ou fez previsões erradas mais de uma vez por dia.

O tema mais recorrente no seu perfil foi o questionamento a medidas de distanciamento social. Apesar de diversos estudos apontarem que o isolamento ajuda a conter o avanço da pandemia, Terra argumentou em 402 mensagens (44% do total) que as restrições são ineficazes ou que até agravam o impacto do novo coronavírus.


Desde o início da pandemia, o discurso contra as medidas de restrição de atividades, também adotado por Bolsonaro, tem sido uma das principais bandeiras do ex-ministro da Cidadania. Como o Radar Aos Fatos mostrou em maio e em dezembro do ano passado, Terra está entre os parlamentares que mais geram engajamento ao publicar desinformação sobre Covid-19.

Outro tema frequente nos tweets do deputado é a chamada "imunidade de rebanho", presente em 135 mensagens (14,8% do total; cada tweet pode ter sido classificado com mais de um tema). Ao longo da pandemia, o deputado deu uma série de declarações insustentáveis sobre esse assunto. Atribuiu, por exemplo, quedas temporárias nos números de infectados à suposta chegada de uma imunidade coletiva, e também argumentou que as vacinas não seriam necessárias para controlar a Covid-19 devido a esse fator.

Em abril do ano passado, ele afirmou, sem apresentar evidências, que os números da pandemia estavam diminuindo nos Estados Unidos e na Europa porque mais de 50% da população desses lugares já havia sido infectada. Na época, pouco mais de 23 mil pessoas haviam morrido de Covid-19 nos EUA; hoje, esse número já passa dos 600 mil.

Previsões equivocadas sobre a duração e o pico da pandemia no Brasil, aliás, também foram frequentes nos tweets do deputado — há 121 (13%) delas.

Em abril de 2020, por exemplo, ele previu que o surto no país acabaria no fim daquele mês e que morreriam menos de mil pessoas no total. No mesmo mês, Terra também disse que a Suécia e a Itália já haviam chegado ao pico das infecções e que o auge de São Paulo havia acontecido no mês anterior. Depois disso, voltou a prever diversas vezes que o fim da pandemia em diferentes estados brasileiros estava próximo — repetiu essa afirmação em maio, junho, julho, agosto, setembro, dezembro de 2020 e em janeiro e março deste ano.

Além disso, o parlamentar ainda publicou 57 tweets (6%) com distorções sobre os dados de óbitos por Covid-19 e a mortalidade da doença. No exemplo abaixo, Terra reclama que o número de mortes destacado pela imprensa não reflete a realidade porque contabiliza óbitos que ocorreram em outros dias. Embora isso seja verdade, o número apontado pelo deputado (556 mortes em 72h) tampouco dá a quantidade real de mortos no período, justamente porque há atraso na notificação.

Terra também publicou 32 tweets (3,5%) contendo dados imprecisos sobre a vacina contra a Covid-19. Em nove dessas mensagens, ele afirmou, por exemplo, que recuperados de uma infecção pelo novo coronavírus não precisariam se vacinar. Isso, no entanto, contraria as diretrizes de órgãos de saúde, que recomendam a imunização para diminuir o risco de reinfecção.

Por fim, a defesa de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 também apareceu nos tweets do parlamentar. Terra promoveu o chamado “tratamento precoce”, mencionando remédios como cloroquina e ivermectina, em sete publicações (0,7%).

Outro lado

A reportagem entrou em contato com o gabinete de Terra, que, até a publicação deste texto, não respondeu.

Metodologia

O Radar Aos Fatos coletou pela API do Twitter todos os tweets publicados por Osmar Terra entre 11 de março de 2020 – data em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia — e a última quarta-feira (16). Depois, filtrou apenas as mensagens referentes ao novo coronavírus, chegando, no total, a 907 publicações.

Em seguida, a reportagem analisou individualmente cada um dos tweets, classificando se continham, ou não, informações enganosas e previsões erradas. Os 610 conteúdos encontrados foram distribuídos em seis categorias: imunidade de rebanho, críticas ao isolamento social, dados de mortes pela Covid-19, previsões erradas e defesa de drogas sem eficácia comprovada.

Os ids dos tweets avaliados e suas respectivas classificações temáticas podem ser acessados aqui.

Referências:
1. Revista Questão de Ciência
2. Aos Fatos 1, 2, 3 e 4
3. BBC

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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