Osmar Terra distorce dados para defender que isolamento não diminui disseminação da Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes e Bruno Fávero

4 de abril de 2020, 19h20


A afirmação do ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS) de que medidas de isolamento social provocaram um aumento nos casos do novo coronavírus na Itália não tem base científica e contraria estudos recentes sobre o tema. Ao defender neste sábado (4) em seu Twitter o fim das restrições ao comércio no Brasil, o deputado ainda interpretou de forma distorcida gráficos e dados sobre a evolução da doença.

Em resumo, o que checamos:

1. Ao contrário do que afirma Terra, ao menos dois estudos científicos mostram que o ritmo da transmissão da Covid-19 caiu na Itália desde que medidas de isolamento foram adotadas.

2. Ele também ignora que quarentenas demoram a fazer efeito porque o vírus tem um período de incubação, em que fica no corpo da pessoa sem causar sintomas. Logo, infectados detectados imediatamente depois do começo dos "lockdowns" provavelmente se infectaram quando a circulação ainda era liberada.

3. O ministro usa dados de casos reportados pelos governos, mas não leva em conta que esses números são afetados por fatores que vão além da transmissão real da doença, como, por exemplo, a capacidade de testes de cada país. Não são adequados, portanto, para comparar a evolução da curva epidemiológica.

4. Em outro tweet, Terra ainda utiliza gráficos que mostram a curva da evolução de casos de Covid-19 de diversos países, mas ignora que eles estão em escalas diferentes, o que distorce sua leitura.

Os tweets que contêm as desinformações sobre o caso acumulavam mais de 6 mil compartilhamentos na rede social até a tarde deste sábado (4). Publicações que replicam os tweets de Terra também já aparecem no Facebook, onde foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação disponibilizada pela rede social (saiba como funciona).


FALSO

A declaração do deputado Osmar Terra (MDB-RS) de que a quarentena feita na Itália aumenta a transmissão da Covid-19 vai contra as evidências científicas disponíveis e tem uma série de erros metodológicos. Aos menos dois estudos recentes, um da Imperial College London e outro da London School of Hygiene & Tropical Medicine apontam que, na verdade, o ritmo da transmissão das doenças caiu no país desde que medidas de isolamento foram adotadas. Por isso, sua declaração foi considerada FALSA.

O ex-ministro foi ao Twitter neste sábado (4) e defendeu a revogação de restrições a abertura de comércio com o argumento de que elas não têm funcionado para "achatar a curva" dos casos do novo coronavírus, ou seja, diminuir o pico de infecções para evitar que os sistemas de saúde sejam sobrecarregados.

Entretanto, a pesquisa da Imperial, que usou modelos matemáticos para avaliar o impacto de diferentes medidas sobre a transmissão em 11 países europeus, concluiu que "intervenções não-farmarcológicas [medidas de distanciamento social] tiveram um impacto substancial na redução da transmissão em países onde a epidemia está mais avançada". No caso da Itália, a imagem abaixo ilustra as descobertas:

O gráfico em verde representa uma estimativa da taxa de transmissão do vírus (número de infectados, em média, por cada doente) e mostra suas sucessivas quedas após a implantação de medidas de distanciamento social. A maior redução é logo após o "lockdown" (a tradução da legenda de cima para baixo é: fechamento completo, proibição de eventos públicos, fechamento de escolas, auto isolamento, distanciamento social).

Um efeito similar foi identificado pelos pesquisadores nos outros países estudados, em especial na Espanha, que tem um número de casos parecido com a Itália:

Na mesma linha, o levantamento da London School of Hygiene & Tropical Medicine estima a taxa de transmissão do vírus ao longo do tempo e também mostra que a disseminação da Covid-19 na Itália vem caindo.

Argumentos falhos. Especialistas ouvidos por Aos Fatos também criticaram os argumentos apresentados por Terra, que afirmou que os casos da Itália subiram porque, com a quarentena, o contágio "se transfere da rua para dentro de casa".

Para Natália Pasternak, pesquisadora do IQC (Instituto Questão de Ciência), a linha de raciocínio é equivocada. “Por que [o isolamento social aumenta a disseminação]? Se não fosse a quarentena as pessoas não iam voltar pras suas casas?”, diz.

Luciana Costa, diretora adjunta do Instituto de Microbiologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), também questiona a tese de Terra e aponta San Francisco, nos EUA, como um exemplo dos efeitos positivos de restrições de movimento. A cidade foi uma das primeiras da região a declarar estado de emergência e tem conseguido controlar o número de infectados mesmo estando na Califórnia, estado com maior número absoluto de casos nos EUA (9.101).

Sem método. Em sua série de tweets, Terra reproduz gráficos do Departamento de Proteção Civil da Itália e do The New York Times, mas distorce sua interpretação ao cometer pelos menos três erros:

1. A quarentena demora a fazer efeito
O deputado ignora que o período de incubação do vírus — quando fica no organismo, mas sem causar sintomas — pode ser, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), de até 14 dias e que, por isso, os efeitos da quarentena demoram a aparecer.

Ou seja, o fato de que houve um aumento nos casos detectados logo após o lockdown ter sido implementado na Itália não é um sinal de que a medida é ineficaz porque provavelmente essas infecções ocorreram antes das restrições começarem.

Para Pasternak, do IQC, o ministro também mistura correlação (quando duas coisas acontecem ao mesmo tempo) e causalidade (quando uma coisa causa a outra). Terra “está confundindo completamente correlação e causa. Será que os casos aumentaram por causa da quarentena? Ou apesar dela? A quarentena é uma medida de contenção, não de milagre”, disse ao Aos Fatos.

2. Dados oficiais podem não mostrar a real trajetória da doença
Informações sobre casos reportados pelos governos, como os usados por Terra, não são a melhor maneira de medir evolução da doença porque esses números podem ser afetados mais pela capacidade de diagnóstico de um país do que por reais mudanças na transmissão do vírus.

Foi o que aconteceu na Coreia do Sul, por exemplo. Quando o país começou a testar os cidadãos em larga escala, houve um aumento no número de casos reportados, como mostra abaixo um gráfico do The New York Time. Isso não significa que, de um dia para o outro, a doença passou a se espalhar muito mais rápido, mas que o governo passou a ser mais eficiente no diagnóstico.

Da mesma forma, se o Brasil multiplicar o número de testes para o novo coronavírus, como prometido pelo Ministério da Saúde, o número de casos registrados deverá subir, mas isso não necessariamente significará que as medidas de isolamento não estão funcionando.

Por conta dessa limitação dos dados oficiais, acadêmicos que acompanham a curva epidemiológica da Covid-19 costumam utilizar outros métodos para estimar o número real de infecções. Uma possibilidade, por exemplo, é usar o número de mortes registradas para estimar as infecções retroativamente, como faz o estudo da Imperial College citado acima.

Como a subnotificação de mortes tende a ser menor e há estimativas da taxa de mortalidade da doença, é possível estimar quantas pessoas provavelmente tiveram que ser infectadas para resultar em um determinado número de mortes.

3. Escalas diferentes distorcem a leitura dos gráficos
Por fim, Terra comete outro erro metodológico em outro tweet que apresenta gráficos de seis países diferentes para defender que, mesmo com o isolamento social, eles apresentaram uma curva acentuada de infecções e mortes. “NÃO ACHATARAM, é só olhar para a curva! Eles estão é chegando no pico da epidemia a que chegariam também só isolando o grupo de risco”, escreveu o ex-ministro.

Nessa publicação, Terra se utiliza de gráficos publicados em reportagem do New York Times. Mas ignora que eles estão em escalas diferentes, o que pode distorcer sua leitura. Um exemplo é os Estados Unidos, que apresentam 22.719 casos confirmados em um gráfico semelhante ao da Alemanha, com 5.344 casos, mesmo que o número seja 76% menor.

A Universidade Johns Hopkins publica um gráfico que compara os países citados por Terra (EUA em marrom, Espanha em laranja, Itália em verde claro, Alemanha em verde escuro, Irã em azul e França em vermelho), mas com visualizações na mesma escala. Nela, é possível ver, por exemplo, que a curva italiana já está bem menos acentuada e que os Estados Unidos destoa e muito dos outros países.


Regras do Twitter. Na tarde deste sábado (4), o Twitter aplicou uma sanção à publicação de Terra por entender que as informações podem colocar as pessoas em maior risco de transmitir Covid-19. A rede social não deletou o tweet, como fez com as publicações da família Bolsonaro no meio dessa semana, mas aplicou um filtro e restringiu o seu alcance.

Outro lado. Como o Aos Fatos não conseguiu contatar o gabinete do deputado via telefone, foram enviados, neste sábado (4), um e-mail para a sua assessoria e uma mensagem em sua página oficial no Facebook para que ele pudesse comentar a checagem. Até a publicação deste texto, Terra não havia se manifestado.

Referências:

1. Imperial College London
2. London School of Hygiene & Tropical Measure
3. CNBC
4. Departamento de Proteção Civil da Itália
5. OMS
6. New York Times (Fontes 1 e 2)
7. Ministério da Saúde
8. Johns Hopkins
9. Twitter
10. Folha de S.Paulo


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