‘Operação Imeri’: mesmo sem provas, bolsonaristas tomam como certo suposto plano para resgatar Maduro

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“Despachos sigilosos” e “círculos fechados do Itamaraty” estariam discutindo um plano secreto: com a desculpa de realizar um exercício militar em águas internacionais, “doze meios navais” da Marinha brasileira iriam estabelecer um corredor marítimo, e aeronaves já posicionadas na Amazônia para outra operação iriam realizar uma “infiltração rápida” na Venezuela.

Foi assim que o site DefesaNet narrou a chamada “Operação Imeri” — que, segundo eles, seria o plano do governo Lula para garantir a fuga do ditador venezuelano Nicolás Maduro e de parte de sua cúpula antes que todos fossem supostamente presos por autoridades americanas.

A imagem mostra um grupo de pessoas vistas de costas, em ambiente escuro com iluminação forte ao fundo; não é possível identificar rostos ou características individuais detalhadas, apenas silhuetas masculinas de diferentes estaturas, vestindo roupas escuras.
Texto publicado no ‘DefesaNet’ no dia 24 de agosto deu nome à suposta operação de resgate a Maduro (Reprodução)

A história, que foi publicada no último dia 24, viralizou nas redes brasileiras durante a semana e cresceu a ponto de ser replicada por diversos sites — não só em português, mas também em espanhol — e disseminada por parlamentares, como o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO). “Lula quer resgatar Maduro e dar abrigo para ele aqui no Brasil”, disse Gayer em tom de espanto em vídeo que tem mais de 900 mil visualizações no YouTube.


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Na última quarta-feira (27), tanto o Ministério da Defesa quanto o Itamaraty desmentiram a história — em telefonema ao Aos Fatos, a chancelaria reiterou que se trata de ficção. O Ministério das Relações Exteriores afirma que não foi procurado pelo site e que o texto “não possui qualquer base factual”.

Mesmo com os desmentidos, o boato continua a circular, e alguns sites alegam ainda que o “vazamento” do DefesaNet teria feito o governo “recuar” do plano.

Após as negativas, o DefesaNet disse que, desde sempre, alegou que:

“As informações aqui expostas são reais ao nosso entendimento. Isto, porém, não garante que a Operação Imeri seja realizada em todo ou em parte ou até mesmo não realizada”.

Ou seja: nunca houve garantia de nada.

E, se analisarmos o texto publicado, podemos ver que há vários problemas que acabam por tirar sua credibilidade:

1. Falta de provas e contradições

O texto afirma que a “Operação Imeri” teria sido discutida entre os chanceleres brasileiro, Mauro Vieira, e venezuelano, Yván Gil, entre 21 e 22 de agosto, e posteriormente “mapeada” pelo serviço de inteligência americano. Ao ser apresentado a setores da Marinha brasileira, oficiais teriam reagido de maneira “veementemente negativa”.

Em nenhum momento do texto, entretanto, são citadas provas que embasem as afirmações:

  • Não há registro dos “despachos sigilosos” citados em nenhuma parte da denúncia;
  • Segundo o texto, a “Operação Imeri” teria sido discutida quando Mauro Vieira foi a Bogotá, em 21 de agosto. Contudo, a nota oficial do Itamaraty afirma que os dois chanceleres trataram sobre comércio bilateral, segurança regional e desdobramentos das tarifas dos EUA;
  • O site destaca como suposta prova uma foto de Vieira registrada no dia 22, em que o chanceler mostra “uma face tensa e preocupada um dia após a reunião com o chanceler da Venezuela” — sério, isso está no texto;
  • Se levarmos interpretações desconexas de fotos em consideração, podemos escolher outras imagens do evento em que Vieira não parece tão preocupado (veja abaixo);
A imagem mostra três autoridades sentadas em destaque: à esquerda, Mauro Vieira, um homem de pele clara, careca, usando óculos e terno azul escuro com gravata azul; ao centro, Marina Silva, uma mulher de pele parda, cabelos grisalhos presos, óculos de armação fina e casaco preto; à direita, uma mulher indígena de pele parda, cabelos pretos soltos e um grande cocar branco com penas vermelhas no topo, além de colar colorido. Ao fundo, várias outras pessoas estão sentadas, em trajes formais.
Outra foto do evento em Bogotá mostra que Vieira (à esquerda) não parecia tão preocupado quanto sugere o texto (Ricardo Stuckert/PR)
  • Outro ponto a se considerar é que o chanceler não é lá uma pessoa tão sorridente (veja aqui, aqui e aqui);
  • O próprio site caiu em contradição após atualizar o texto na última quarta-feira (27). Na versão original, é dito que a “as movimentações recentes em cidades como Anápolis, Campo Grande, Boa Vista e Pacaraima” demonstram “a coerência operacional da chamada Operação Imeri”;
  • Mas a nota do editor, incluída após a resposta do Itamaraty, diz que o plano teria sido apenas “cogitado por ala política do governo brasileiro, porém isto não gerou um planejamento ou envolvimento do Ministério da Defesa ou das Forças Militares Brasileiras”. O artigo também afirma que não houve “alocação de recursos humanos ou de equipamentos para a possível operação”.

2. Autoria

O autor do texto sobre a “Operação Imeri” é Felipe Gonzales Saraiva da Rocha, que se diz “graduado em Relações Internacionais e especialista em Subversão, Defesa e Segurança”.

Em busca nas redes, descobrimos que Rocha se formou em relações internacionais pela Estácio no segundo semestre de 2024 e que mantinha um canal no YouTube com discussões sobre defesa e segurança, “sempre a partir da sua perspectiva pessoal”. Não há nenhuma informação sobre especialização em subversão, defesa e segurança em seus perfis ou currículo.

Rocha é o autor da página da Wikipédia sobre seu pai, que só está disponível em haitiano. Nela, ele se autointitula “multimilionário de sucesso no comércio internacional de diamantes”. Aos Fatos não conseguiu confirmar essa informação.

O mais interessante, no entanto, é que Rocha atuou como escolta de Eduardo Bolsonaro em Juiz de Fora (MG) quando Jair Bolsonaro (PL) foi alvo do atentado a faca, em 2018.

A imagem mostra Eduardo Bolsonaro um homem de pele clara, cabelo curto raspado nas laterais e calvo na parte superior, vestindo camiseta cinza escura de gola em V, sendo entrevistado por uma repórter de cabelos castanhos lisos e longos, que veste jaqueta preta e segura um microfone com o logotipo da Record. Ao fundo, há outras pessoas em pé, incluindo um homem de camiseta preta e outro com casaco verde e amarelo, além de prédios residenciais altos.
Felipe é o homem de braços cruzados atrás de Eduardo Bolsonaro (Reprodução)

Ele é filho de Francisco de Assis Saraiva da Rocha, conhecido como Suboficial Carcará, militar reformado, ex-candidato pelo Republicanos e presidente do Instituto Harpia Brasil no Ceará. A informação de que o plano teria sido cogitado foi postada por Francisco em seu Instagram um dia antes da publicação do artigo do DefesaNet.

Rocha tem feito publicações com o auxílio de IA (inteligência artificial) para criticar o governo Lula e fazer “alertas” sobre decisões tomadas em relação à política externa. Em uma delas, por exemplo, ele disse que os EUA estudavam acabar com o sinal de GPS no Brasil, o que não é viável tecnologicamente.

3. Exportação

Um ponto que também merece destaque é que o texto sobre a “Operação Imeri” foi publicado em inglês pelo DefesaNet, o que não é de costume do site.

A história vem na esteira da tensão crescente entre Venezuela e EUA. Navios de guerra americanos estão no sul do Caribe e em águas próximas sob o pretexto de enfrentar os cartéis latino-americanos. No início do mês, o governo americano também dobrou a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro.

Bolsonaristas têm aproveitado essa tensão para disseminar desinformações que tentam sugerir que Lula estaria disposto a ajudar Maduro e, ao mesmo tempo, bater de frente com Donald Trump. Aos Fatos desmentiu, por exemplo, vídeos com dublagens falsas que mostravam o petista anunciando que iria dar refúgio ao venezuelano.

Apesar do histórico de amizade entre Lula e Maduro, não há nenhuma informação pública que ateste que o brasileiro estaria planejando ajudar o venezuelano. Vale ressaltar que o petista não reconheceu a vitória do ditador na última eleição.

Publicar um texto que não é ancorado por fatos concretos e que faz menção a uma possibilidade — já que o próprio site alegou, mais tarde, que a operação poderia não ocorrer — só dá munição para o conspiracionismo e para a desinformação nas redes.


Outro lado

Contatado, o DefesaNet disse que prefere não comentar, mas afirmou que não tem filiação partidária.

Em nota, Felipe Rocha disse não ter compreendido a citação ao episódio em que ele prestou serviços de segurança para Eduardo Bolsonaro: "trata-se de um episódio longínquo, de caráter pessoal, sem qualquer conexão aparente com a discussão sobre política externa ou segurança regional". Ele também negou ser o autor da página da Wikipédia — mesmo que o usuário responsável pelas edições fosse "frocha96", nome usado por ele em seu Instagram — e sugeriu que seu pai não seria mais filiado ao Republicanos.

Aos Fatos também o deputado federal Gustavo Gayer, mas não houve resposta até a publicação desta newsletter. Como não encontramos nenhum canal de contato com Francisco Rocha, enviamos uma mensagem pelo seu perfil no Instagram.


Este texto foi atualizado às 15h20 do dia 24.set.2025 para acrescentar a resposta de Felipe Rocha. Conforme informado por ele, Carcará não seria mais filiado ao Republicanos e, por isso, essa informação foi corrigida.

Referências

  1. nota

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