Não é verdade que a ONU (Organização das Nações Unidas) recusou uma oferta do empresário Elon Musk para “acabar com a fome mundial”, como alegam posts nas redes. A entidade apresentou um plano de como empregar os recursos em um programa de combate emergencial à crise alimentar em 2021, mas não teve resposta do trilionário até hoje.
O conteúdo enganoso acumulava ao menos um milhão de visualizações no X até a tarde desta sexta-feira (26).
Elon Musk já ofereceu à ONU o dinheiro pra acabar com a fome mundial, o único requisito era receber uma nota fiscal de onde o dinheiro teria sido usado. A ONU recusou.

Publicações nas redes enganam ao afirmar que a ONU recusou uma oferta feita por Elon Musk para acabar com a fome no mundo. Após ser desafiada pelo trilionário a explicar como utilizaria US$ 6 bilhões para combater o problema, a entidade publicou um documento detalhando a destinação dos recursos, mas não recebeu resposta de Musk.
Esta desinformação teve início em outubro de 2021, quando o então diretor executivo do PMA (Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas), David Beasley, alertou em entrevista sobre uma crise alimentar global agravada por conflitos, pandemia e mudanças climáticas.
Uma contribuição de US$ 6,6 bilhões poderia ajudar 42 milhões de pessoas em situação de fome extrema, segundo Beasley, que aproveitou a ocasião para cobrar ações por parte das pessoas mais ricas do mundo, citando nominalmente Musk e Jeff Bezos, dono da Amazon.
Poucos dias depois, Musk respondeu em seu perfil no X:
“Se o PMA puder descrever nesta thread exatamente como US$ 6 bilhões resolverão a fome mundial, venderei ações da Tesla agora mesmo. Mas deve ser uma contabilidade de código aberto, para que o público veja precisamente como o dinheiro é gasto", solicitou.

Beasley respondeu que o PMA nunca afirmou que os US$ 6,6 bilhões acabariam de vez com a fome mundial, mas que essa cifra poderia financiar uma operação emergencial para evitar que pessoas morressem de fome no contexto da crise humanitária.
Em seguida, ele compartilhou o link de um sumário executivo explicando como os recursos seriam empregados. Depois disso, não houve mais respostas do trilionário.
Procurado por Aos Fatos, o programa da ONU disse nesta sexta-feira (26) que “não recebeu nenhuma contribuição de Elon Musk ou de entidades a ele filiadas".
Embora não tenha doado o valor ao PMA, Musk realizou semanas depois da discussão online uma doação de US$ 5,7 bilhões em ações da Tesla, sem identificar a instituição de caridade beneficiada ou o fundo envolvido na transação.
A ação ocorreu após Musk afirmar em seu perfil no X que pagaria mais de US$ 11 bilhões em impostos em 2021. Em fevereiro de 2022, especialistas ouvidos pela Bloomberg apontaram que a doação pode ter gerado vantagens tributárias para o empresário, incluindo a redução ou eliminação do imposto incidente sobre as ações doadas.
Meses depois, em dezembro, o jornal também revelou que a entidade beneficiada havia sido a fundação filantrópica do próprio Musk.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou a entrevista concedida por David Beasley em outubro de 2021, que originou a discussão, as publicações feitas por Elon Musk e pelo então diretor do PMA (Programa Mundial de Alimentos) no X, e o sumário executivo divulgado pela entidade.
A reportagem não encontrou evidências de que Musk tenha doado ao PMA após a publicação do documento. Questionado, o programa negou ter recebido recursos de Musk ou de entidades filiadas a ele.
Aos Fatos complementou a checagem com informações da imprensa sobre uma doação posterior de valor similar feita por Musk.





