Quem achou que ano sem eleição não tinha desinformação, achou errado, muito errado.
Tivemos muitos eventos importantes em 2025, como a COP30, a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tarifaço… E tudo isso em um ano em que a inteligência artificial ficou cada vez mais comum na caixa de ferramentas dos desinformadores.
Assim como fizemos em 2023 (ano em que o rio Nilo amanheceu vermelho) e 2024 (quando o Pablo Marçal apresentou um “laudo” do Boulos), a equipe se uniu para eleger quais as desinformações mais malucas que desmentimos:
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A Japinha que não morreu (e que não era “a” japinha)
A megaoperação policial no Rio de Janeiro no final de outubro deixou 121 mortos, mas apenas um deles estampou manchetes nos jornais e entrou nos trending topics das redes: a Japinha do CV. Após a notícia da sua morte, começou a viralizar um vídeo do suposto corpo e diversas informações sobre o luto da família.
Mas a Japinha não tinha morrido. E, no final, nem era a “Japinha do CV”. A história, cheia de reviravoltas, perfis falsos e até propagandas de bets foi explicada em uma edição desta newsletter e, definitivamente, merece estar no pódio de 2025. (Luiz Fernando Menezes, repórter especial, e Bianca Bortolon, repórter)

Tornozeleira tóxica
Se o autor desta pérola desinformativa tivesse feito o Enem, com certeza teria sido reprovado. A tese completamente amalucada era de que a tornozeleira utilizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro teria sido contaminada com césio-137, a substância radioativa responsável pelo maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear no mundo, ocorrido em Goiânia (GO), em 1987.
O delírio prosseguia, alegando que, com o tempo, o césio teria liberado grande quantidade de calor e assim provocado o derretimento do dispositivo – o que, quimicamente falando, não faz nenhum sentido. Um esforço imaginativo impressionante para alegar que o ex-presidente não utilizou um ferro de solda, como ele próprio admitiu. (Leonardo Cazes, editor executivo da redação)

Quando a realidade supera a IA
Durante o ano, desmentimos dezenas de cenas geradas por IA que circularam nas redes como se fossem retratos da vida real. Pela primeira vez neste ano — talvez na história do Aos Fatos — que precisamos fazer uma checagem afirmando que um vídeo da vida real não tinha sido gerado por inteligência artificial.
A violação da tornozeleira eletrônica por Jair Bolsonaro com um ferro de solda foi tão inacreditável que nem mesmo os seus próprios seguidores acreditaram na veracidade da gravação feita por uma diretora adjunta do Cime (Centro Integrado de Monitoração Eletrônica). (Milena Mangabeira, repórter)

Bênção do Rei do Porco
E por falar em tornozeleira, o vídeo de um homem orando para a perna de Jair Bolsonaro tomou as redes em julho, assim que o ex-presidente passou a ter seus passos acompanhados pela Justiça. “Oh, Deus, nós destravamos aquilo que colocaram, Pai, no seu tornozelo!”, dizia o apoiador do ex-presidente na gravação.
Ao contrário do que diziam as peças enganosas, porém, as imagens originais não mostravam um pastor abençoando o aparelho — nem tinham como, já que foram gravadas mais de um ano antes. Elas mostravam, na verdade, o empresário cristão Reinaldo Moraes, conhecido como o “Rei do Porco”, ungindo os pés do ex-mandatário.
Como já foi noticiado pela imprensa, Bolsonaro tem histórico de erisipela, uma infecção bacteriana nas pernas, e voltaria a ser internado por causa do problema menos de um mês após a oração. (Gisele Lobato, diretora de Operações.)

A agente secreta
A primeira-dama do Brasil embarca na calada da noite em um voo da Força Aérea Brasileira para a Rússia levando mais de 200 malas recheadas de dinheiro. A viagem é parte de um plano urdido por Janja e Lula para esconder bem longe das vistas do sistema financeiro internacional a grana que eles desviaram dos aposentados do INSS.
É claro que, antes, Janja deu uma passadinha em Roma para conferir o extrato da conta conjunta que mantém no Banco do Vaticano (ela e toda a esquerda globalista da América Latina, é bom que se diga).
Parece o início de um thriller político, mas é só mais um delírio conspiratório. Nada disso é real, além da criatividade fértil dos haters do casal presidencial. Mesmo assim, em maio desse ano, essa invencionice ganhou um alcance tão grande entre os bolsonaristas que até a AGU (Advocacia-Geral da União) acionou as plataformas para pedir a exclusão do conteúdo.
Na época, nós publicamos um bom desmentido sobre esse que foi um dos “campeões de bilheteria” de 2025. Prepara a pipoca e acessa aqui. (Bernardo Moura, diretor de Jornalismo e Novas Mídias)

O brinde de Lula e Janja
A tática de retratar personalidades da política como reencarnações de Maria Antonieta não vem de hoje: Greta Thunberg, retratada lanchando diante de crianças africanas em uma montagem de 2019, que o diga.
Se a estratégia persiste, atualizam-se os personagens e as ferramentas: por mais um ano, Janja foi um dos alvos favoritos de desinformadores, assim como tantas outras mulheres, de Preta Gil a Brigitte Macron. E agora, quem quer enganar conta com a prestatividade da IA ao invés das limitações do Microsoft Paint.
O falso brinde de Lula e Janja ao estilo White Lotus fez sucesso nas redes, embalado pela notícia – essa sim verdadeira – de que o casal presidencial estaria hospedado em Belém em um barco com diária de R$ 2.600. Mas a IA ainda erra, e nessa errou rude, nos detalhes (Lula não tem cinco dedos na mão esquerda, sabemos nós, os humanos) e no essencial (não é preciso hiperfoco para perceber que a mulher no iate não se parece em nada com Janja). (Luiza Barros, editora executiva de novas mídias)

O Diabo brasileiro
As peças de desinformação que checamos ao longo dos anos mostram que o brasileiro tem uma certa fixação por referências satânicas (veja aqui, aqui e aqui). Durante a COP30, essa teoria se provou verdadeira mais uma vez sob a forma de um boato que alegava que um dos legados do evento das Nações Unidas para Belém teria sido nada mais nada menos que uma estátua do Diabo.
A figura musculosa e com chifres que segura o planeta Terra, no entanto, tem um sentido muito mais puro do que sugerem as peças de desinformação. A ideia é simbolizar a proteção à floresta amazônica, misturando a figura do dragão, símbolo chinês, à onça-pintada, referência à fauna brasileira. Nada de referências ao Diabo em Belém. (Amanda Ribeiro, editora)

Não dá nem pra sorrir com essa
Com uma estimativa de 700 mil novos casos de câncer por ano no Brasil é difícil dizer se a mentira contada por um dentista sobre quimioterapia e radioterapia — tratamentos comprovadamente eficazes contra a doença — é devaneio ou fruto da pura maldade humana. Certamente, no entanto, revolta até os checadores mais experientes. (Marco Faustino, repórter)




