Cerca de dez anos depois de 195 países assinarem o Acordo de Paris, que propôs limitar o aumento da temperatura média global a 1,5ºC até 2100, cientistas e organizações já afirmam que a meta é inalcançável. Devido aos esforços insuficientes e às políticas ambientais atuais, as estimativas apontam que o planeta deve ficar até 2,8ºC mais quente até o final do século — mudança que pode afetar a vida na Terra.
As mudanças climáticas e a diminuição da emissão de gases de efeito estufa, principais causadores do aquecimento global, são dois dos principais pontos de discussão da COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), que começou na última segunda-feira (10) em Belém.
Em discurso durante a abertura do evento, inclusive, o presidente Lula (PT) mencionou o Acordo de Paris e afirmou que os países não têm adotado medidas suficientes para cumprir a promessa de limitação do aumento da temperatura global:
"Sem o Acordo de Paris, o mundo estaria fadado ao aquecimento catastrófico de quase 5ºC até o fim do século. Estamos andando na direção certa, mas na velocidade errada. No ritmo atual, ainda avançando, estamos rumo a um aumento superior a 1,5ºC na temperatura global." — Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso no dia 10.nov.2025.
A declaração do presidente, no entanto, ignora que as ações do governo brasileiro também têm sido consideradas insuficientes no combate às mudanças climáticas e que os planos de iniciar a exploração de petróleo na foz do Amazonas contrariam as metas estabelecidas pelo tratado assinado na capital francesa.
Abaixo, Aos Fatos explica o que dizem os dados atuais sobre o aumento da temperatura global:
- O que é o Acordo de Paris e quais as metas previstas?
- Quais as estimativas atuais para o aquecimento do planeta?
- O Acordo de Paris conseguiu retardar os avanços das mudanças climáticas?
- Por que é importante frear o aquecimento global?
1. O que é o Acordo de Paris e quais as metas previstas?
Durante a COP21, sediada em Paris em 2015, os 195 países das Nações Unidas assinaram um acordo para juntar esforços que visavam evitar o agravamento do aquecimento global, calculado por meio de uma fórmula matemática que leva em consideração a medição de temperatura em dezenas de milhares de lugares do planeta.
A principal meta é “manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2ºC acima dos níveis pré-industriais” (1850-1900), com o real objetivo de limitar esse aumento a 1,5ºC.

Esses números foram baseados em diferentes estudos, que simularam cenários de impacto das mudanças climáticas na Terra. As estimativas levam em conta questões como a acidificação dos oceanos, que prejudica e desestabiliza os ecossistemas marinhos, e o aumento de eventos climáticos extremos, como secas, tornados e tempestades.
De acordo com um relatório que resume a discussão de mais de 70 cientistas na ONU, mitigar o aumento até 1,5ºC reduziria significativamente os riscos das mudanças climáticas: “a maioria das espécies terrestres e marinhas seria capaz de acompanhar a velocidade das mudanças climáticas; até metade dos recifes de coral podem permanecer; a elevação do nível do mar pode permanecer abaixo de um metro; algum gelo marinho do Ártico pode permanecer; os impactos da acidificação dos oceanos permaneceriam em níveis moderados; e haveria mais espaço para adaptação, especialmente no setor agrícola”.
Para atingir essas metas, o Acordo de Paris determina:
- A redução substancial das emissões globais de gases de efeito estufa, como o gás carbônico;
- O financiamento a países em desenvolvimento para a mitigação das mudanças climáticas;
- E uma avaliação periódica do progresso coletivo das medidas acordadas.
Para acompanhar os esforços, os países se comprometeram a enviar a partir de 2020 NDCs (Contribuições Determinadas Nacionalmente), documentos em que detalham suas ações para o abrandamento dos problemas climáticos.
2. Quais as estimativas atuais de aquecimento global?
De acordo com o último relatório da Unep (Programa Ambiental das Nações Unidas), o planeta deve esquentar entre 2,3ºC e 2,5ºC até o final deste século.
O próprio documento, no entanto, cita que o cálculo foi feito antes dos EUA deixarem o Acordo de Paris, em janeiro deste ano, e que, “baseado nas políticas em curso, o planeta está caminhando para um aquecimento de 2,8ºC”.
O Climate Action Tracker, programa que reúne diversas ONGs ambientais para avaliar a atuação dos países contra as mudanças climáticas, estima que, até o final do século, a Terra terá esquentado 2,6ºC. A organização diz ainda que, mesmo que chegássemos à emissão zero de gases do efeito estufa, a temperatura aumentaria 1,9ºC até 2100.
De acordo com as organizações, portanto, é inegável que o aumento da temperatura do planeta será maior do que 1,5ºC. Na verdade, tudo indica que já estamos muito próximos de alcançar esse patamar:
- O último relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) estima que a média da temperatura global irá ultrapassar 1,5°C muito provavelmente já na próxima década;
- Já a WMO (Organização Mundial de Metereologia) prevê que a média do aumento de temperatura entre 2025 e 2029 tem 70% de chance de ser maior do que 1,5ºC;
- Por fim, de acordo com a Nasa, agência espacial americana, o planeta já está 1,47ºC mais quente do que na era pré-industrial.
“O aumento da temperatura acima de 1,5°C durante um mês ou um ano são sinais precoces de que estamos perigosamente perto de ultrapassar o limite de longo prazo e servem como um alerta urgente para aumentar a ambição e acelerar as ações nesta década crítica” — ONU, em relatório divulgado em 2023.
3. O Acordo de Paris conseguiu retardar os avanços das mudanças climáticas?
Antes da assinatura do Acordo de Paris, a estimativa era de que a temperatura cresceria entre 3ºC e 3,5ºC até 2100. As projeções mais recentes, portanto — que mostram um aumento de até 2,8ºC — representam uma melhora, ainda que tímida.
Apesar de apontar que a ação coletiva mundial tem sido insuficiente, a ONU argumenta em relatório que houve algum progresso e que, embora ele não possa ser atribuído diretamente ao Acordo de Paris, “é indiscutível que o tratado tem sido uma força motriz fundamental para a ação climática global em áreas-chave na última década”.
Segundo o relatório “O que o Acordo de Paris fez por nós?”, publicado neste mês pela ONG Climate Analytics, o tratado, nos últimos dez anos, ajudou a diminuir a emissão de gases e a aumentar os investimentos em tecnologias limpas. Mais uma vez, no entanto, a organização aponta que ele não tem gerado mudanças rápidas o suficiente.
As duas organizações afirmam ainda que os países não têm posto em prática metas ambiciosas e cada vez menos nações têm entregue suas NDCs para avaliação. Mesmo quando são entregues, os documentos já não são tão detalhados quanto eram em edições anteriores.
Brasil. De acordo com o Climate Tracker, cuja última atualização foi feita em agosto de 2024, o Brasil tem adotado medidas insuficientes para tentar atingir as metas do Acordo de Paris.
A organização alega que, apesar de ter colocado em prática políticas sustentáveis, o país está procurando expandir a produção de petróleo e gás, o que contraria as metas do acordo.
A conclusão do projeto é anterior à autorização do Ibama à pesquisa exploratória de petróleo na foz do rio Amazonas, emitida em outubro deste ano, que tem potencial para gerar uma nova fronteira de prospecção do combustível fóssil no país.

Ainda segundo o Climate Tracker, o país conseguiu manter a sua emissão de gases de efeito estufa em um patamar estável, mas “precisa diminuir rapidamente suas emissões” para ajudar o planeta a atingir a meta de 1,5ºC.
4. Por que é importante frear o aquecimento global?
O aquecimento global está diretamente relacionado à vida de todos os seres terrestres, não só dos humanos. Exceder o limite de 1,5ºC pode causar impactos irreversíveis, como a destruição dos recifes de corais e o degelo polar, que prejudicam o equilíbrio de diversos ecossistemas do planeta.
Conforme já dito anteriormente, o aumento da temperatura também aumenta a proporção de eventos climáticos extremos, como secas, inundações e tempestades, que causam danos econômicos e matam milhares de pessoas.

Só em 2024, segundo o relatório das ONGs Climate Central e World Weather Attribution, ao menos 3.700 pessoas morreram por causa de eventos causados pelas mudanças climáticas. Outras organizações calculam números bem maiores, como 11.500 mortes — caso da International Disaster Database.
Um relatório recente da Acnur (Agência das Nações Unidas para Refugiados) revelou que, nos últimos dez anos, os desastres climáticos forçaram 250 milhões de pessoas a deixarem suas residências — uma média de 70 mil pessoas por dia.
“Cada fração de grau de aquecimento importa. A cada incremento adicional no aquecimento global, as mudanças nos eventos extremos e os riscos aumentam. Por exemplo, cada 0,1°C adicional de aquecimento global causa aumentos claramente perceptíveis na intensidade e frequência de eventos extremos de temperatura e precipitação, bem como secas agrícolas e ecológicas em algumas regiões” — IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), em relatório em 2021.
O IPCC publicou uma estimativa do que aconteceria no planeta com o aumento da temperatura a cada 0,5ºC (veja abaixo):

O caminho da apuração
Aos Fatos acompanhou a abertura da COP30 e transcreveu todo o discurso do presidente Lula ao vivo por meio do Escriba.
Para contextualizar a declaração sobre as metas de redução dos efeitos do aquecimento global, consultamos estudos e relatórios publicados por órgãos internacionais, como a ONU, além de reportagens na imprensa especializada.
Aos Fatos também procurou estimativas mais recentes sobre o aumento da temperatura média do planeta e relatórios que avaliam não só o cumprimento do Acordo de Paris, como também seu impacto no combate à crise climática.




