O que é o vírus Nipah, como ele é transmitido e quais os riscos para o Brasil

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O registro de novos casos de infecção pelo vírus Nipah na Índia tem gerado preocupação nas redes brasileiras sobre um novo surto de escala global. Posts com teor conspiratório têm especulado sobre o surgimento de uma nova pandemia, apesar de, até o momento, os casos estarem concentrados apenas em uma região específica do país asiático.

Gráfico com título ‘Interesse ao longo do tempo’ mostra pico de pesquisas sobre o vírus Nipah no Google a partir do dia 25 de janeiro
Gráfico do Google Trends mostra aumento de interesse nas redes brasileiras pelo Nipah na última semana (Reprodução/Google)

O Nipah não é um vírus novo: os primeiros casos de infecção foram registrados ainda na década de 1990, e surtos esporádicos já ocorreram em países como Índia, Malásia, Filipinas e Singapura.

O que acendeu o alerta das autoridades nas últimas semanas foi a confirmação de cinco casos em uma região da Índia que não registrava infecções desde 2007. Por precaução, cerca de cem pessoas que circularam na mesma unidade de saúde foram colocadas em quarentena.

Apesar de a infecção constar na lista de doenças monitoradas atualmente pela OMS (Organização Mundial da Saúde), especialistas apontam que não há risco evidente de um novo surto global, similar ao que ocorreu com a Covid-19.

A seguir, Aos Fatos explica o que se sabe sobre o vírus, desde as formas de transmissão até os possíveis riscos para o Brasil:

  1. O que é o vírus Nipah e onde estão concentrados os casos?
  2. Quais são os sintomas da doença?
  3. Há casos de infecções pelo vírus Nipah no Brasil?
  4. Já existe tratamento ou vacina?

1. O que é o vírus Nipah e onde estão concentrados os casos?

O Nipah é um vírus pertencente à família Paramyxoviridae transmitido de animais para seres humanos. Seu reservatório natural são morcegos que se alimentam de frutos, especialmente do gênero Pteropus, e eliminam o vírus pela saliva, pela urina e pelas fezes.

O médico infectologista e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) Leonardo Weissmann explica que a infecção em humanos pode ocorrer:

  • pelo consumo de alimentos contaminados;
  • por contato com animais infectados;
  • ou via transmissão direta entre pessoas em contextos específicos, sobretudo em residências e ambientes hospitalares.

O patógeno foi identificado pela primeira vez em 1999, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia. Desde então, houve registros periódicos de casos em países do Sul e do Sudeste Asiático.

Nas últimas semanas, porém, o vírus voltou a preocupar autoridades sanitárias após a confirmação de cinco casos entre profissionais de saúde em Calcutá, na região indiana de Bengala Ocidental, que não registrava novos episódios da infecção desde 2007.

De acordo com um relatório da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido, quase todas as notificações do vírus nos últimos dez anos se concentraram no sul do país asiático. O reaparecimento de casos fora desse eixo levou autoridades a emitir novos alertas e reforçar medidas de vigilância.

Status sanitário. Até o momento, não há declaração de pandemia ou epidemia global do vírus. Especialistas consultados por Aos Fatos avaliam que seu potencial de disseminação é menor do que o de patógenos respiratórios, como o que causa a Covid-19.

Definida por autoridades indianas como “altamente fatal, mas de propagação limitada”, a infecção integra a lista de prioridades da OMS por seu potencial de causar uma emergência de saúde pública, visto que a taxa de letalidade varia entre 40% e 75%.

O Ministério da Saúde indiano informou que “ações coordenadas imediatas foram iniciadas”, incluindo apoio laboratorial, vigilância reforçada, gestão de casos, medidas de controle de infecção e mobilização de orientação especializada.

2. Quais são os sintomas da doença?

A infecção pelo vírus Nipah pode variar de quadros assintomáticos ou leves até formas extremamente graves, explica Weissmann. Os sintomas iniciais incluem:

Imagem em fundo branco com o título 'Principais sintomas' escrito no canto superior esquerdo. À esquerda, há uma ilustração em preto de um perfil de cabeça humana, com gotas de suor, pequenos símbolos em forma de estrela ao redor da cabeça e da boca, e um termômetro ao lado, indicando febre. À direita da ilustração, aparece uma lista de sintomas em texto preto, organizada em tópicos com marcadores. Os itens listados são: 'Febre;', 'Dor de cabeça;', 'Dores musculares;', 'Mal-estar;', 'Tosse e dor de garganta;' e 'Náuseas e vômitos'. No canto inferior direito da imagem há um pequeno símbolo circular com as letras 'af.' em branco sobre fundo escuro.

Em parte dos pacientes, porém, a doença pode evoluir rapidamente para um quadro de comprometimento neurológico, com encefalite (inflamação no cérebro), diminuição do nível de consciência, convulsões e, em situações graves, insuficiência respiratória e óbito.

A taxa de letalidade do Nipah é considerada elevada e varia entre 40% e 75%, dependendo do surto e da capacidade local de diagnóstico e manejo clínico.

Parte dos sobreviventes também pode apresentar sequelas neurológicas de longo prazo, como distúrbios convulsivos e alterações de personalidade, além de casos raros de recaída ou encefalite de início tardio.

3. Há casos do vírus Nipah no Brasil?

Até o momento, não há registro de casos suspeitos ou confirmados de infecção pelo vírus Nipah no Brasil ou em outros países da América do Sul. O patógeno permanece restrito, historicamente, a regiões da Ásia, onde estão presentes os morcegos que funcionam como reservatórios naturais.

Imagem colorida mostrando um morcego pendurado de cabeça para baixo. O animal está suspenso pelas patas, que aparecem abertas e curvadas, agarradas a um galho fora do enquadramento. O corpo do morcego é coberto por pelos de tom marrom-avermelhado, enquanto as asas e as patas têm coloração escura e aparência lisa. O rosto está em destaque, voltado para a câmera, com olhos grandes e brilhantes, focinho escuro e orelhas pontudas voltadas para os lados. A língua rosada aparece levemente para fora da boca. Ao fundo, há folhas verdes grandes e desfocadas, sugerindo um ambiente natural, possivelmente uma área de vegetação densa.
Morcegos do gênero Pteropus, naturais de diferentes regiões da Ásia, são os reservatórios naturais do vírus Nipah (Reprodução: Peter Neumann/Unsplash)

O infectologista Benedito Fonseca, consultor da SBI e professor da USP (Universidade de São Paulo), explica que fatores ambientais, culturais e as formas de transmissão limitam o alcance da doença no Brasil, mas reforça que é preciso cuidado:

“Casos do Nipah no país só ocorrerão se uma pessoa com a doença se deslocar da Índia (no momento atual, mas também de outras regiões da Ásia com possível circulação deste vírus, como Bangladesh e Malásia) para o Brasil, pois o período da infecção até o aparecimento dos sintomas pode demorar de 4 a 14 dias.”

Segundo ele, essa é uma janela de tempo suficiente para que uma pessoa se desloque de uma região do planeta para outra sem apresentar sintomas da forma grave da doença. Como a infecção pode ser transmitida por secreções respiratórias, o contágio interpessoal não deixa de ser um fator.

Após o surto inicial na Índia, aeroportos de diferentes países asiáticos reforçaram a vigilância sanitária e o controle de saúde de viajantes, com protocolos similares aos aplicados durante a pandemia de Covid-19. Ainda não há registro oficial de ações semelhantes no Brasil.

Em nota ao Aos Fatos, o Ministério da Saúde brasileiro informou que, apesar da alta patogenicidade, o risco de uma pandemia é considerado baixo, já que há protocolos de emergência para rápida detecção e controle de surtos, com acompanhamento de um grupo de especialistas coordenado pela OMS nos países em que o vírus circula.

A pasta também afirmou que mantém protocolos de vigilância e resposta de emergência para agentes altamente patogênicos, em parceria com instituições como o Instituto Evandro Chagas e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), com participação da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde).

4. Já existe tratamento ou vacina?

Atualmente, não existe tratamento antiviral específico nem vacina disponível para o vírus Nipah.

O cuidado médico, segundo Weissman, é baseado no chamado tratamento de suporte, com foco no controle dos sintomas e das complicações, especialmente respiratórias e neurológicas, além de medidas rigorosas de isolamento e controle de infecção, especialmente em ambientes hospitalares.

Também não há vacina disponível até o momento, embora o vírus esteja incluído na lista da OMS de patógenos prioritários para pesquisa e desenvolvimento.

Enquanto isso, a principal estratégia de prevenção segue sendo a redução da exposição ao vírus por meio de medidas de higiene, controle sanitário e vigilância epidemiológica.

Cuidados. Em documento publicado pelo Ministério da Saúde indiano, são listados uma série de cuidados para prevenir o contágio. Parte das recomendações é específica para regiões onde vivem os morcegos que funcionam como reservatórios naturais do vírus, mas outras orientações podem ser adotadas pela população em geral, como:

Imagem com fundo branco e o título Cuidados escrito no canto superior esquerdo. À esquerda, há uma ilustração em preto mostrando duas mãos lavando frutas debaixo de uma torneira, com água caindo, um sabonete acima das mãos e duas frutas ao lado, uma escura e outra clara. À direita da imagem, aparece uma lista de cuidados em texto preto, organizada em tópicos com marcadores. Os itens listados são: Lavar frutas antes da ingestão; Tomar sempre água filtrada ou fervida; Lavar as mãos com água e sabão; Evitar o contato com pessoas infectadas; Seguir as recomendações de autoridades sanitárias locais. No canto inferior direito da imagem há um pequeno símbolo escuro em formato arredondado com as letras af. em branco.
O caminho da apuração

Aos Fatos analisou comunicados oficiais de autoridades sanitárias da Índia, relatórios e orientações da OMS e informações da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido.

A reportagem também ouviu Leonardo Weissmann e Benedito Fonseca, infectologistas e consultores da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), além de solicitar posicionamento ao Ministério da Saúde brasileiro sobre o risco de circulação do vírus no país e as medidas de vigilância em vigor.

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